
"New Born"
DEVIDO A PROBLEMAS COM A HOSPEDAGEM, RESOLVI DISPONIBILIZAR UMA SEGUNDA PÁGINA PARA OS ARQUIVOS. APROVEITEM A LEITURA!
Capítulo 28 – Discussões
Pisquei os olhos. Isso era um pesadelo, certo? Não, não era.
Blair esticou seu braço pálido na minha direção, tentando se levantar. Carlisle evitou sua ação. Eu me aproximei.
- Blair? – Eu pensei que minha voz fosse falhar, mas isso não aconteceu.
Ela apenas repuxou os lábios. Não conseguia sorrir.
- Ela está bem. – Carlisle garantiu.
- Como pode ter tanta certeza? – Me alterei. – Olhe só o estado dela!
- Acalme-se Reneé... – Alex segurou meus braços para que eu não tentasse algo que não deveria. – Ele tem certeza do que está acontecendo.
Fitei a todos por um momento.
- Como ela ficou assim?! – Exigi uma explicação.
Alex apertou meus braços e me levou para fora do quarto, Carlisle ficou conversando com Blair por um instante e então veio conosco.
Logo estávamos lá em baixo, na sala, junto com os outros.
- Antes disso, você vai ter de saber outras coisas, Reneé. – Alex falava diretamente para mim.
- Por que você simplesmente não coloca isso em minha mente ao invés de me fazer ouvir?
- Por que eu não quero fazer o seu cérebro parar por excesso de informações. – Ele respondeu.
- Eu acho que ela não deve escutar isso que vamos dizer... – Valeria disse um pouco acanhada, apontando para Linei.
- Eu a levo para fora. Eu não estou disposto a ouvir isso mesmo... – Iwin se levantou e foi com Linei para o lado de fora.
Com os dois fora da sala, nós podíamos conversar mais... Abertamente.
- Vamos começar... Por onde você esteve todo esse tempo? – Peter iniciou. A pergunta era para mim.
- Pensei que eu ia ouvir. Não falar! – Protestei.
- Não mude de assunto, garota. – Ele disse.
- Em San Francisco. Eu estava no meu limite quando Manu me encontrou. Então eu passei a conviver com eles.
- Você conviveu numa casa com cinco lobos e... – Lucy parou subitamente.
- Cinco lobos e uma mulher. – Completei. – Depois de um tempo, tive que ir caçar mais longe, pois os parques estavam cheios e eu não conseguia me controlar muito bem. Acabei correndo demais para distrair a sede. Cheguei em Forks.
- E foi aí que achei as roupas dela. – Emmett riu.
- O que? Você? – Olhei assustada.
- Emmett e eu estávamos caçando no mesmo dia. – Jasper me acalmou literalmente. – Ele encontrou o seu rastro junto com as roupas. Ele trouxe para a família.
- E então nós começamos a procurar por você. – Rosalie completou. – Agora nós já tínhamos os rastros. Tínhamos como procurar. Você ao se misturar com esses... – Ela olhou torto para os rapazes. – Bem, você sabe... Você deixou Alice “cega”.
- Cega? – Franzi a testa.
- Alice não consegue ver você. Então ela tenta ver o que está à sua volta. Mas para ela, toda sua volta estava... Embaçada também. – Edward explicou. – Ela não pôde ajudar.
- Vai ter que me recompensar por isso, sabia? – Alice me fuzilou com os olhos. – Se eu fosse humana, já teria rugas de tanta preocupação!
- Desculpe-me, Alice. Eu sou um monstro... – Falei. – Mas como vocês me encontraram?
- Quando eu voltei... – Michaelo começou.
- Você foi embora? – Arregalei os olhos.
Ele assentiu.
- Tinha medo de que você nunca voltasse. Então eu fui embora para o Tibet. Para tentar ser... Um vampiro melhor. Quando voltei, Lucy me contou o que havia acontecido e nós partirmos a seu encontro.
- E é aí que tudo se encaixa. Bingo. – Debochei. – Mas e o que aconteceu com Blair?
- Blair e eu estávamos de casamento marcado... – Alex começou.
- Estavam não. – Valeria interrompeu. – Ainda estão.
- Mãe, isso é ridículo... – Alex protestou.
Valeria rosnou.
- A gente discute isso outra hora, rapaz. – Peter pôs se entre a mulher e o filho.
- Nosso casamento estava marcado para esse mês. Era o ultimo prazo que eu podia dar para que ela fosse humana. – Alex falava como se estivesse passando pelas dores de sua transformação. – Ela deve ter pensado que teria uma gestação comum, eu não sei. Simplesmente aconteceu. – Ele tinha sua parcela de culpa na voz.
- O que ela não sabia, é que não seria assim. – Bella completou. – Tentei convencê-la a levar isso à frente.
- O que? A Blair quis desistir? Por que vocês não fizeram nada? – Agora foi a vez de Michaelo e Manu segurarem os meus braços, um de cada lado.
- Está num estágio em que é impossível fazer alguma coisa sem machucá-la. – Valeria e Carlisle pareciam desapontados.
- Mas será que vocês não acham que essa coisa não está machucando ela mais ainda? Comecei a falar entre dentes e rosnar ruidosamente. Os rapazes me tiraram da sala. Eu estava perdendo o controle.
- Acalme-se, Reneé. – Manu e Michaelo disseram ao mesmo tempo.
- Como eu posso me acalmar? Minha amiga está morrendo!
- Não, ela não está. – Michaelo negou.
- Você está do lado deles? – Rosnei outra vez.
- Não. Mas você não pode pensar assim.
- O que?! – Agora não foi um rosnado. Foi um rugido.
Kimo e Owena me seguraram.
- Escute. Apenas escute. Blair está num estágio em que qualquer coisa que façamos para afetar o bebê vai afetar a ela também. É como duas pessoas dividindo um o mesmo corpo.
- Então nós estamos todos de mãos atadas, não é? – Eu disse tentando me acalmar.
Ele assentiu.
- Mas ela não vai agüentar! – Me agitei. Palani se juntou aos rapazes para me conter.
- Ela pode agüentar sim. – Michaelo confrontou.
- Lembra do que aconteceu à minha mãe? E à Bella? – Implorei. – Você se sentiria bem se isso acontecesse a uma pessoa que você ama?
Agora eu podia compreender Edward. Agora eu podia entender Jacob.
- Mas isso não vai acontecer com ela. – Michaelo estava aparentemente ficando nervoso.
- Por que tem tanta certeza?
- Carlisle tem informações sobre isso. Os relatos de Bella. Não vai ser tão difícil como foi para elas.
- Como se relatos de cobaias fossem ajudar muito a me acalmar. – Soltei outro rugido.
Então me livrei dos braços fortes dos rapazes. Disparei para a floresta.
Capítulo 29 – Aliviando Tensões
Eu estava relaxada em cima de uma árvore quando uma pedra acertou a minha cabeça.
Olhei para baixo. Palani estava lá com mais duas pedras na mão.
- Ah, que bom. Pensei em ter que jogar mais. – Ele riu.
- O que você quer? – Eu estava nitidamente mal-humorada.
- Só conversar. – Ele não estava com cara de quem queria brigar. – Está melhor?
- Um pouco. – Franzi a testa.
- Eu acho melhor que você desça, sabia? Não quero ficar com o pescoço doendo... – Ele riu.
- Está bem... – Eu desci graciosamente da grande árvore, pousando suavemente no chão perto dele.
- Assim é melhor...
- E então? O que queria falar? – Dei a iniciativa.
- Eles se preocuparam com o modo que você fugiu... E me mandaram para ver se você estava bem.
- Eles te mandaram para me atacar se eu ainda estivesse mal, certo? – Induzi.
- É. – Ele riu. Estava claro que esta era a verdade. Eles não mandariam o homem mais forte do bando à toa.
Eu o fitei por um instante e deixei que a curiosidade me dominasse.
- Palani... – Escolhi as palavras por um momento. – Você tem raiva de mim?
- Hã?
- É, hã... Da minha espécie, do meu comportamento... Você nunca parece a favor quando estou por perto.
- É o meu jeito... Não posso mudar muito. Eu admito: sou um selvagem. Nasci assim, fui criado desse jeito. Não tenho muito que fazer. – Ele franziu a testa por um minuto – Não é por que os outros rapazes sejam volúveis que eu tenha que ser igual a eles... Desculpe-me se ás vezes sou grosso demais com você ou qualquer pessoa por perto.
- Quer dizer que a culpa não é minha dessa vez?
Ele balançou a cabeça.
- Ah, obrigada! – Eu não me contive no impulso de abraçá-lo. – Até que enfim, uma notícia boa.
- Tem notícia melhor do que estar de volta em casa? – Ele arregalou os olhos.
Balancei a cabeça.
- Nesse contexto, sim. – Eu disse enquanto me sentava numa pedra. Ele sentou-se também.
- Impossível.
- Você não sabe da metade. – Falei.
- E você não sabe nem um oitavo sobre mim. – Ele rosnou. Mas não era de raiva. Era... desabafo. – Você pode ter ficado bastante tempo fora de casa. Mas não sabe como é estar a quatro anos longe de casa, sem notícia e não ter noção de quando vai voltar.
- Isso é mal... – Eu não sabia o que dizer. – Me desculpe por ser egoísta às vezes.
- Está desculpada. – Ele riu.
Ouvimos um trotar suave por entre as árvores. Ele esticou o pescoço apesar de não precisar para ouvir.
- Lobisomens? – Ele arregalou os olhos.
- Eles estão por toda a parte. – Suspirei.
- Existem mais por aqui? – Ele girava a cabeça de acordo com o lado de onde vinha o som.
- É claro. Até parece que eu não contei para você. Você estava na reunião dos lobos.
- Ah, claro... – As coisas pareciam fazer mais sentido para ele agora. – Eu pensei que aquilo fosse apenas uma estratégia sua. Desculpe-me por ter sido idiota.
Eu ri.
- Então eu preciso... – Ele começou a se levantar, mas então interrompeu seu movimento como se tivesse lembrado de alguma coisa – Oh, Droga. Não podemos fazer isso.
- O que?
- Falar com eles. Não podemos. Por que nós... Não sabemos muito das nossas raízes. Só a avó de Kimo sabe. E não podemos manter contato agora.
Suspirei.
- Me desculpe, parece que isso não lhe foi muito útil.
- Espero poder usar essas informações futuramente. – Ele suspirou.
- Oh, entendo... – Eu já estava começando a não ter mais assunto. – Acho melhor voltarmos para casa. Os lobos podem interpretar errado a nossa permanência por aqui. O que acha de uma corrida? – Apostei.
- É claro. Esteja pronta para comer poeira... – Ele saiu antes de mim.
Um pouquinho de competição nunca era demais.
Embora eu soubesse que podia ganhar dele várias vezes, eu deixei que ele fosse à frente. Agora eu podia entendê-lo – mesmo que só um pouco – e então eu podia lhe fazer alguns favores para aliviar as tensões.
Quando chegamos ao jardim de casa – era estranho dizer casa quando ela era na verdade uma mansão – pude ver Blair espiando pela janela. Ela acenou para mim. Senti uma pontada no meu coração. Eu acenei também.
Pelo canto do olho, vi Linei correndo na minha direção, de braços abertos. Me agachei para segurá-la. Quando a levantei e tornei a olhar para a janela, Blair já não estava mais lá.
- Bella quer falar com você. – Ela disse enquanto olhava o jardim.
- Bella? – Fiquei surpresa. Eu quase não falava com ela.
Fui com Linei até a porta e a deixei ali. Alice estava sentada na escada como se estivesse entediada, eu sabia o seu motivo.
- Onde está Bella? Ela disse para Linei que...
- Ela deve estar no quarto de Blair, junto com Rose. – Ela parecia não dar a mínima para isso. Ela olhou para Linei. – Quer que eu tome conta dela enquanto isso?
- Sim. – Sorri. – Obrigada.
Subi as escadas com pressa. Acabei chamando atenção, mas ninguém se incomodou em falar comigo.
Ao chegar no quarto de Blair fiquei realmente surpresa que Bella e Rose estivessem com ela. Blair parecia mais saudável do que no momento anterior. Mais saudável, mas não menos doente.
- Reneé. – Bella sorriu.
- Temos uma proposta para você. – O rosto de Rose era brilhante. Senti que o que estava por vir não era algo muito bom.
- Digam, então...
- Por que você não se casa no mesmo dia que a Blair? – Ela disse com uma sinceridade monstruosa.
Capítulo 30 – Experiências Pendentes
Olhei para Blair naquele instante. Ela sorriu.
- Por que estão fazendo isso? – Perguntei incrédula.
- Por que se ninguém mais se casar no mesmo dia, eles vão adiar o casamento...
- Para depois do nascimento do bebê. – Bella completou.
- E nós achamos que como uma última experiência humana, ela deveria se casar. – Rosalie continuou o raciocínio.
- Estão loucas? – Não era a minha intenção arrumar briga com elas. – Quanto tempo mais ela tem? Duas semanas? Não vai dar...
-... Vai ser o suficiente para que Alice nos ajude. Nós vamos conseguir. – Bella me interrompeu.
Elas tinham o plano completamente arquitetado. Não havia como fazê-las caírem em contradição. Então eu desisti.
- Como vão fazer para ela caminhar... Assim? – Tentei não olhar para Blair.
- Peter é muito forte. Ele entra com ela, e você vai do outro lado. – Rose avaliou.
- Querem sustentá-la? – Arregalei os olhos.
- É a única opção. – Rose deu os ombros.
Bufei e saí do quarto. Mas ainda pude ouvir as vozes de sinos das duas.
- E aí, você aceita? – As vozes delas ecoaram na minha mente.
Desci as escadas com pressa. Lucy subia no mesmo momento. Eu podia supor para quê.
Não havia mais nenhum Cullen lá embaixo. Talvez Bella e Rosalie estivessem fazendo algum tipo de esquema de segurança.
Os lobos estavam do lado de fora, jogando futebol, e Lua era a juíza. Pareciam se divertir bastante, mas eu sabia que eles nunca estariam completamente felizes aqui. Nem mesmo Manu, que encontrara sua alma gêmea. Um pedaço do coração deles sempre estaria no Havaí.
Sentei no sofá, de frente para a televisão. Ouvi passos calmos e leves na minha direção. Logo, Michaelo estava sentado ao meu lado e com sua mão em meus ombros.
- Qual o problema? – Ele murmurou.
- Seria tão fácil se você já soubesse e eu não tivesse de lembrar... – Suspirei – É sobre a Blair. Bella e Rose querem que eu me case no mesmo dia que ela. Provavelmente estão dizendo o mesmo para Lucy agora.
- Então por que você...
- Eu não quero que ela tenha algum ataque no meio da cerimônia, Mich.
Ele balançou a cabeça, parecendo entender.
- Se Lucy aceitar, o que eu tenho certeza que vai acontecer... – Eu sabia que ele estava tentando me convencer. – Serão dois contra um. E aí você perde.
- Eu sei... – Suspirei.
- Se não consegue vencê-los...
- Junte-se a eles. – Concluí.
Ele sorriu.
- Algumas vezes nós não devemos fazer o que é certo... – Ele disse enquanto alisava meu rosto. Fechei os olhos.
Quando abri, ele me fitava.
- Há quanto tempo você não dorme? – Ele devia ter notado a minha expressão horrível.
- Não tenho certeza. Três ou quarto dias... – Não dei importância.
Ele me puxou delicadamente para perto de si, para que então eu pudesse dormir.
Sua temperatura não era capaz de me repelir, tudo nele era muito atrativo para mim. Vampiros podiam ter imprinting? Eu sorri um pouco. Não demorou para que eu mergulhasse profundamente num mar de sonhos.
Meu sonho não fazia sentido. Não foi um pesadelo. Mas ainda sim, não tinha sentido.
Blair e eu corríamos na neve, como costumávamos fazer quando estávamos no Tibet.
Mas dessa vez, Blair não usava suas roupas de neve, como de costume. Ela usava um lindo vestido de verão, branco e laranja, com flores delicadas. Ao nosso lado, corriam três crianças. Uma delas era Linei. As outras duas, um garoto e uma garota, que tinham os mesmos traços de Blair e Alex. O cabelo cor de chocolate, os olhos negros, a pele muito clara... como eu. Eles corriam como nós, e se nós estávamos correndo muito rápidos eles eram...
- Imortais! – Eu disse dissipando a minha nuvem de sonhos.
Eu ainda estava com Michaelo, ele se assustou.
Quem estava naquela sala também olhou para mim.
- Foi... Só... Um sonho. – Eu disse enquanto me recuperava do choque.
- Um sonho bom ou mau? – Michaelo ficou preocupado.
- Bom. Mas ele não fazia sentido. – Expliquei.
- O quê você sonhou? – Ele perguntou.
Pensei por um minuto, para não dizer nada que causasse uma confusão.
Alex se virou no momento em que pensei em seu nome por ao lembrar das características das crianças.
- Tem certeza que as crianças se pareciam comigo e com Blair? – Ele arregalou os olhos.
- Absoluta. – O sonho ainda era nítido.
- Todos sabem que ela vai gerar um meio-imortal. Mas por que dois? – A pergunta de Alex fazia menos sentido do que o meu sonho.
- Eu não sei. Eu não mando nos meus sonhos. – Franzi a testa.
Ele franziu a testa também. Ele sabia que havia dito uma bobagem.
Repassei meus sonhos em silêncio mental, para que Alex não os visse novamente. Já era duro demais para mim recordá-los, não queria que ele tivesse que passar por isso também.
A complexidade e a objetividade dos meus sonhos eram tão grandes que isso chegava a me assustar.
Michaelo mexeu em um cabelo e me puxou delicadamente outra vez.
- Volte a dormir, Reneé. – Ele era tão meigo que não parecia real. – Você tem que descansar.
E quase sempre eu o obedecia. E quando não, eu teimava. Como uma garotinha. Talvez eu fosse ser criança para sempre. Eu ri do meu próprio raciocínio.
Não demorou para que eu dormisse outra vez.
* * *
Duas longas semanas se passaram num ritmo anormal. A gravidez de Blair havia progredido monstruosamente. Durante esse tempo, segui os conselhos de Michaelo e aceitei a proposta de me casar no mesmo dia que Blair, contanto que eu pudesse controlar prováveis exageros provenientes das Cullen. Michaelo e Manu estavam nitidamente animados com isso. Alex era o único dos rapazes que parecia profundamente preocupado.
Eu entendia seus motivos. A preparação do casamento estava a todo vapor. Todos os vestidos prontos, a decoração impecável. Todos os planos de segurança estavam prontos e sendo colocados em ação.
Estávamos no quarto de Blair, que de leito hospitalar, se tornou um salão de beleza.
- Espero que não fique brava, Blair, mas você vai ter que ser a ultima a se arrumar. – Rose disse enquanto desembaraçava meu cabelo. Senti vergonha por andar tão descuidada.
- Sem problemas. – Ela sorriu.
- Lua, por que você resolveu não se casar no mesmo dia que nós? – Lucy alfinetou ingenuamente, ela não sabia controlar a língua.
- Kimo e eu ainda não estamos preparados...
- Vocês estão juntos a mais tempo do que Manu e eu. – Ela continuou.
- Nós temos todo o tempo do mundo, querida. – Ela riu enquanto terminava de fazer as unhas de Lucy.
Estranhei seu comportamento, mas não comentei.
Em minutos, Lucy e eu estávamos prontas, lindas e deslumbrantes.
Me olhei no espelho.
- Uau. – Era bom poder reconhecer minhas bochechas rosadas. – Essa sou eu. – Eu sorri.
Rosalie riu.
- Você e Lua que me perdoem, mas esses... – Eu sabia que ela estava prestes a dizer “vira-latas”.
- Lobisomens... – Completei.
-... É. – Rosalie não deu importância. – Eles andam relaxados com a estética.
Lua e eu rimos.
- É a sua vez, Blair... – Alice deu duas batidas na cadeira de salão.
Segurei Blair de um lado, enquanto Bella e Rosalie a seguraram pelo outro. Nós a colocamos na cadeira, com a maior suavidade possível.
Não demorou para que Blair ficasse mais linda do que eu, e além de tudo, parecesse saudável.
Valeria apareceu na porta.
- Alice, Bella, Rose... – Ela olhava para todas nós. – Esme precisa de vocês lá em baixo agora. Lua, Kimo precisa de você também.
Elas saíram rapidamente. Valeria nos encarou.
- Vocês estão fabulosas... – Eu sabia que ela estaria chorando se tivesse lágrimas. Seu rosto era radiante de orgulho. – Minhas... Filhas.
Ela me abraçou primeiro. Em seguida, Lucy e depois, com muito cuidado, Blair. Ela segurou as mãos frágeis de Blair e olhou nos olhos dela.
- Estou feliz por ter você na família, garota. – Ela sorriu.
Blair sorriu também, na certa não tinha palavras capazes de expressar tais sentimentos. Não muito tempo depois, Peter apareceu na porta.
- Garotas, chegou a hora. – Ele sorriu.
Capitulo 31 – A festa
Meu coração parecia querer fazer seu caminho para fora de meu corpo. Eu pensei que esse dia nunca fosse chegar. Peter pareceu perceber minha reação.
- Valeria também se sentiu assim no dia do nosso casamento. A única diferença é que o coração dela não quis sair do peito por que não tinha como. – Ele riu.
Nós rimos também. Isso me descontraiu.
- Vamos, garotas. – Ele incentivou.
Ele segurou no braço de Blair, eu segurei no outro, enquanto Lucy segurou no meu braço também. Agora as forças estavam equilibradas. Ninguém perceberia que ela estaria sem contato com o chão.
Eu podia ouvir a música suave fluir tão nitidamente que eu me perguntei se para Blair ela talvez não tivesse começado. Perguntei-me também se talvez fosse Edward ao piano. Não quis ter certeza.
Toda a casa estava arrumada e decorada. Arcos brancos com fitas nas cores rosa, laranja e lavanda decoravam todo o teto. A escolha das cores foi categórica. Cada uma escolhia a cor que queria representar. O branco era uma obrigação para todas nós. Blair escolheu a cor rosa. Perguntei-me se era talvez pela sua fixação de garota. Lucy escolheu lavanda apenas por que considerou esta uma cor suave e era isso que ela mais desejava: paz.
Escolhi o laranja. Uma cor que além de quente e estimulante, me lembrava vagamente o dourado, e o dourado me lembrava do sol. O sol me lembrava... Michaelo.
Sorri só de lembrar disso.
Respirei fundo. O cheiro do sangue humano recém-consumido por Blair me revirou o estômago. A sede era incômoda, porém controlável. Permiti que cheiro doce das flores que vinha de fora da casa invadisse meus pulmões, dominando completamente os meus instintos selvagens.
Mas era claro que a casa não estava tão arrumada quanto o jardim. Ninguém ficaria muito tempo ali. Os convidados iriam embora logo após a cerimônia. Era tudo uma fachada. Uma fachada perfeita.
Descemos a escada com tanto cuidado que Blair não sentia seu contato com o chão. Assim era melhor. Não queríamos que ela suportasse seu peso duplo inumano. Era estranho ver aquela sala movimentada sem ninguém. Era tão... vazia.
Quando Peter abriu a porta para o jardim, meus olhos brilharam. Era mais do que um sonho lindo. Produções cinematográficas eram incapazes de reproduzir tamanha beleza.
Tantos detalhes juntos se encaixando, tanta perfeição.
Havia um tapete vermelho no jardim no lugar do caminho de pedras. Caminhamos por ele lentamente ao som da música suave. Para mim, era como uma eternidade, eu teria caminhado em três passadas ou menos. Mas era preciso para que os convidados tivessem uma impressão de Blair tocando o tapete. Enfim, o momento chegou. As mãos de Michaelo se estenderam para mim. Peter murmurou algo para os três noivos. Ele devia ter dito “cuidem bem de minhas filhas” ou algo assim.
Toquei a mão gélida de Michaelo, ele me puxou para si, sorrindo.
- Finalmente... – Ele murmurou.
- E agora é para sempre. – Eu sorri.
Manu puxou Lucy rapidamente para seus braços, sorrindo. Alex, que estava estrategicamente no meio, puxou Blair com muito cuidado e ela foi encostada discretamente em Michaelo. Ela parecia não ter forças para se sustentar sem se quebrar. Era como um pilar sendo escorado. E mesmo assim, ela ainda estava feliz.
Como não estar feliz num momento assim?
A cerimônia prosseguiu tão rapidamente que quando percebi, eu já estava dizendo “Sim”.
As mãos de Michaelo se apertaram nas minhas. Ele se virou para me beijar tão delicadamente que isso fez meu coração acelerar eu reprimir a vontade de fazê-lo mais rápido. Em instantes, eu estava adaptada ao seu ritmo.
Ele olhou pra mim e sorriu.
- Sra. Wolf. – Ele segurou minha mão novamente.
- Sr. Wolf. – Eu sorri. Michaelo Wolf soava melhor do que Michaelo Volturi.
Como um nome podia ser tão iluminado?
Fitei a aliança em minhas mãos. Era feita de ouro puro com pequenos pedaços de uma rara Safira Padparadscha, de coloração única, laranja rosada, romanticamente descrita como uma mistura da cor da flor-de-lótus e o pôr-do-sol.
Era assim que éramos um ao outro. Um era o sol do outro. A fonte de calor, a fonte de vida, e que sem a qual, nada existiria.
- Você é o meu sol. – Ele repetiu a nossa frase.
Eu sorri. E espiei as outras duas alianças. Elas não perdiam para nós.
A aliança de Lucy, também de ouro puro tinha a pedra que eu julgava ser tão ou mais bonita que a minha: Turquesa. Com seu tom óbvio e próprio de turquesa, ela encantava meus olhos como eu jamais vira.
Baseada nos delírios cor-de-rosa de Blair, a sua aliança era simples e única. Detalhes em quartzo rosa atraiam todos os olhares.
Perguntei-me por um momento qual joalheria chique havia sido assaltada.
Saímos em poucas passadas em direção à outra parte do jardim, onde aconteceria a festa. Os convidados saíram aos poucos, então percebi que havia ali muita gente que eu nunca vira em minha vida.
Três mulheres vieram acompanhadas de Valeria. Elas tinham traços leves e muito semelhantes, pareciam irmãs. Eram todas pálidas e loiras, os cabelos ondulados e pesados na altura das costas.
- Quero lhes apresentar minhas amigas nômades. As irmãs Alba. – Ela apontou para as lindas moças que se destacavam na multidão. – Alawara, Alma e Amy.
Seria algum padrão ter a letra A no nome e no sobrenome? Eu ri em meus pensamentos, Lucy e Alex bufaram para esconder o riso também. A mais alta revirou os olhos carmim.
- Sem estresse, Alawara. – A do meio pegou no braço da mais alta. – Nós sabíamos que isso ia acontecer mesmo. – Sua voz denunciava total indiferença.
- Por que eu ainda me surpreendo, não é Alma? – Alawara debochou para a garota do meio. A garota menor riu.
- Eu posso garantir que nome não será um problema por aqui, não é? – Valeria insinuou para nós.
- Claro... – Respondemos em uníssono.
- De qualquer modo... Tem uma bela família, Valeria. – A menor, que deveria ser Amy, comentou.
- Obrigada, Amy. – Essa foi a confirmação. – Ainda não entendo como vocês não formaram um novo clã.
- Um clã nômade? – Alawara confrontou – Eles fariam muito estrago, se você nos entende... Mas é claro que você nos entende, não é? – Ela mostrou os dentes afiados num sorriso brilhante.
- Entendo... – Valeria vacilou.
- Alawara, Pare de tentar persuadi-la. – Amy fechou a cara. – Ela é vegetariana.
- Ah, me desculpe. – Alawara deu dois passos para trás. – Isso não vai acontecer outra vez.
- Sem problemas, Garotas. – Valeria já tinha voltado a seu tom normal. – Sei que é um desafio para vocês, mas vocês podem voltar a caçar amanhã. A festa não irá até o amanhecer. – Valeria riu.
As três relaxaram.
- Prometemos dessa vez não perder contato, garota. – Alma disse sorrindo.
- Assim está bem – Valeria riu.
As três nômades foram embora junto com a ventania, seguindo seu próprio rumo. Isso era assustador.
- Quem... São... Elas? – Blair fitou as três indo embora sem piscar os olhos.
- Amigas. Elas me ajudaram durante um tempo. Eu era do clã delas. – Os olhos de
Valeria estavam num passado distante.
- Clã? – Eu perguntei.
- Eu já fui nômade. – Ela explicou. – Mas não por muito tempo. Logo os Volturi nos encontraram e dizimaram grande parte do clã. Fomos as únicas sobreviventes.
- Por que vocês... ? – Eu tinha vergonha da minha própria pergunta.
- Todas nós temos dons que Aro aprecia. – Ela explicou. – Mas ao contrário dos outros, nós não temos preço. – Ela suspirou. – Então eu me separei do grupo, passei a vagar sozinha até encontrar Peter.
- Que história. – Blair estava boquiaberta.
- Grande, não é? – Valeria. – Nem acredito que passei por tanta coisa.
- E ainda dizem que a vida é muito curta. – Manu não se conteve em debochar. Lucy lhe deu um cutucão no rim.
Tantos convidados, tantos amigos, conhecidos... Será que todos se lembrariam de nós depois disso? Eu ri só de pensar na possibilidade de um vampiro se esquecer de alguma coisa.
- Reneé... Parabéns pelo seu casamento – Gregor chegou e me cumprimentou. Eu nunca pensei que ele fosse sair do Tibet.
- Obrigada. – Respondi educadamente. Eu precisava treinar um sorriso para aquela festa.
Ele cumprimentou Lucy, e em seguida, Blair. Ele a fitou por alguns instantes. Alex o observou de um modo estranho, um pouco crítico.
“Ele acha que a culpa é minha, Reneé.” – Os pensamentos de Alex ecoaram na minha mente.
“Você que decidiu assumi-la, Alex.” – Respondi tentando manter a imparcialidade.
“Mas, Reneé, você sabe que não foi assim.” – Ele choramingou.
“Mas ele não sabe, Alex” – Retruquei.
Lucy o encarava com a mesma expressão de Alex. Parecia estar por dentro de nossa conversa mental. Mas... Como?
- Ah, droga! – Alex colocou a mão na cabeça. E sua face se desfez em dor, como se Jane estivesse o atacando. – Alguém pare com isso!
Todos os olhares à nossa volta se voltaram para ele.
- Alex... O que há? – Blair estava preocupada.
- Tem... Alguém... Bagunçando... Meus... Pensamentos... – Ele mal conseguia pronunciar as palavras.
Capitulo 32 – Talentos ocultos
Ninguém pareceu entender. Edward o encarou, parecendo também sentir o mesmo.
- Quem... Está... Fazendo... Isso? – Ele estava sendo torturado pelos próprios pensamentos.
Um homem de cabelos escuros saiu do meio da multidão, a expressão preocupada, como se estivesse procurando alguma coisa.
- Você. – Ele apontou para Lucy. – Pare já com isso.
- O que? – Ela arregalou os olhos. – Eu não estou fazendo nada!
- Eleazar, como você tem tanta certeza? – Uma mulher de cabelos escuros se aproximou dele.
- Por que o poder aqui é mais forte do que do outro lado. – Ele respondeu tão rápido que quase não o acompanhei. – E vem dela. – Ele apontou para Lucy.
- Poder? Eu? O que eu estou fazendo? – Ela fitava incrédula.
- Está confundindo o pensamento de todos nós. Embaralhando o raciocínio, fazendo-nos pensar em coisas que não queremos...
- Eu? Embaralhando pensamentos? – Ela parecia não acreditar.
- Lucy, por favor, tente se acalmar. – Edward estava com a expressão dura.
- Eu... Eu... Não estou entendendo nada! – Ela estava visivelmente nervosa.
- Argh! – Alex grunhiu alto, tampando os ouvidos com as mãos, como se isso fosse surtir algum efeito. – Lucy... Pare... Com... Isso... Já...
- Não estou fazendo nada! – Seu tom aumentou. Ela parecia desesperada.
Alex grunhiu mais alto, abaixando a cabeça.
- Minha cabeça... Parece... Que vai... Explodir... – Ele grunhiu entre dentes.
Jasper abriu espaço e visivelmente ele estava usando seu dom para amenizar a tensão de Lucy. Ela suspirou. As mãos de Alex se abriram lentamente em volta da cabeça e ele então suspirou. A face de Edward se aliviou também.
- Como você fez isso? – Alex perguntou.
- Eu... Não sei, estava com raiva de Gregor por que eu estava lendo a conversa de vocês e...
- Como é? Você leu a nossa conversa? – Ele arregalou os olhos.
- Sim... Eu li. – Ela falou receosa.
- Mas você não tem nenhum dom. Não pode ler pensamentos... Ou pelo menos você não podia... – A voz de Alex falhou.
- Lucy, você não treinou nada com Gregor. – Eu observei.
- Alex, eu pensava que tinha o mesmo dom que você... Por isso não treinei nada com Gregor. Mas eu sempre estava lá no seu treinamento. Sempre pronta para aprender alguma coisa. Como eu nunca conseguia, considerei isso como um eco da sua mente, alguma ligação entre gêmeos ou qualquer coisa assim. Mas...
- Mas...? – Alex estava surpreso.
- Depois que nós fomos embora... Eu percebi que podia fazer o contrário de você. Enquanto você prendia seu foco na mente de uma única pessoa ou grupo que queria compartilhar o pensamento com você, eu podia escutar tudo o que você não ouvia. Você tem uma facilidade para organizar o raciocínio das pessoas e agora eu entendo a minha facilidade para embaralhar.
- Isso é... – Alex não encontrava palavras.
- É estranho, eu sei. – Ela abaixou a cabeça.
- É uma tática e tanto para uma batalha. – Eleazar completou. – Embaralhar a mente desse jeito pode ser melhor do que qualquer tática ofensiva.
- Eu não acho, pelo menos para mim. – Ela continuava de cabeça baixa, Manu a reconfortava em seus braços. – Eu não sei como isso acabaria se Jasper não me parasse. Eu não tenho como controlar.
- Prática. – Ele disse. – É a melhor forma.
- Eu não quero tentar de novo. – Ela choramingou.
- Não vai ter que tentar se não quiser. – Manu estava novamente a reconfortando. Ele percebeu que todos o encaravam com reprovação – Ou se ainda não estiver preparada.
Lucy suspirou.
Minutos depois, todos estavam novamente relaxados, ninguém parecia lembrar do acontecido.
Eu não havia saído do lado de Lucy, Manu, Alex, Blair e Michaelo.
Os outros lobos se divertiam na pista. Rindo, dançando e comendo bastante. Eram os únicos convidados – com exceção de Lua e seu pai – que podiam comer. Não que eu não pudesse, mas eu não estava com estômago para isso. E Blair já não queria mais saber da dieta humana.
Linei bailava suavemente diante dos meus olhos orgulhosos e os olhos encantados de Owena. Algo no jeito que ele a encarava me fazia pensar que não era um olhar tão simples como qualquer um poderia imaginar. Minha atenção saiu deles numa batida de coração.
Senti os dedos gélidos de Lucy em meus ombros.
- Você disse alguma coisa? – Ela disse bem perto de mim.
- Não... Nada. – Respondi.
- Nem pensou? – Ela insistiu.
- Nada além do que você não fosse capaz de saber, certo? – Respondi.
- Certo. – Ela mordeu os lábios e se voltou para perguntar aos outros.
Obviamente as respostas foram negativas. Estávamos no completo silêncio. Lucy não declarou nada sobre o seu repentino surto de audição.
Ela foi com Manu para a iluminada pista de dança. Michaelo pegou a minha mão.
- Me concede a honra dessa dança? – Ele tinha um sorriso indecifrável.
Assenti. Ele me rodopiou e me levou para a pista. Dançamos até que fôssemos o ultimo casal na pista. Todos ficamos no jardim até que todos os convidados fossem embora. Os Cullen foram os últimos a irem embora. Estávamos nos preparando para entrar em casa.
Lucy grunhiu.
- O que foi? – Peter estava com uma sobrancelha erguida.
- Aquelas duas vozes. De novo. – Ela sacudiu a cabeça. Manu a reconfortou.
- Pode ter sido dois dos Cullen pensando. – Valeria sugeriu.
- Não foram eles. – Ela negou. – Eu teria reconhecido. – Ela cruzou os braços.
- Você acha que pode ter alguém ainda nos arredores? Um nômade? Um humano?
Valeria estava visivelmente preocupada.
- Acho que não. Se não todos nós já teríamos sentido o cheiro deles. – Ela concluiu. – Tudo o que posso sentir é o cheiro das plantas.
“E dos lobos e do sangue de Blair...” – Eu completei mentalmente, obviamente para Lucy. Torci o nariz. Ela fez o mesmo.
Entramos em casa. Palani acendeu as luzes. Linei estava do meu lado naquela hora.
Todos nos encaramos por algumas batidas de coração e então Valeria declarou:
- Todos tivemos um longo dia. Então... – Ela pausou, calculando as palavras – Uma boa noite a todos.
Todos demos boa noite.
Michaelo me pegou no colo e subiu a escada me carregando.
- Enfim sós. – Ele disse ao entrar no quarto e fechar a porta.
Capitulo 33 – Longa noite
- Ah... Eu não teria tanta certeza... – Eu suspirei.
Ele parou. Escutamos vozes atrás da porta.
- É impressão minha ou tem cachorros fazendo a guarda da porta do nosso quarto? – Ele disse alto sorridente. Ele não parecia incomodado.
As vozes cessaram.
- Acho que você os assustou. – Eu disse enquanto era posta delicadamente em pé.
- Não acho. Se eles permanecessem, aí sim eles descobririam o que é assustador. – Ele repuxou os lábios num sorriso malicioso.
Não pude deixar de rir. E também não pude deixar de pensar no que ele queria dizer com isso.
Ele não demorou em me puxar para seus braços gélidos. Ele sussurrou.
- Do que estava rindo? Será que estava pensando em algo que não deveria?
- Me diga algo no qual eu não deveria pensar... – Eu abri um leve sorriso.
Ele hesitou, mas então disse com receio.
- Seus amigos lobos.
- Ah! Eu não estava pensando nisso. – Eu disse sinceramente.
Ele suspirou, aliviado. Provavelmente ele queria que minha atenção fosse só dele a partir de agora.
- Juro que nunca mais eu serei... – Ele parou e sorriu um pouco. – Tão selvagem como eu era.
- Nada que uma maquiagem não resolva, não? – Eu contestei.
Ele me devolveu um olhar malicioso.
- Sinal verde, Não? – Eu disse. Ele sorriu.
Ele se moveu tão rápido que quase me surpreendi quando ele apagou a luz. Logo ele estava me segurando pela cintura e encostando seu rosto no meu. Fechei os olhos...
... E abri um instante depois. Eu havia acabado de ouvir um barulho abafado, mas que ainda sim, era nítido para mim.
- Ouviu isso? – Eu disse enquanto escapava de seus braços e me posicionava perto da porta.
- Isso o que? – Ele parecia não ter gostado da interrupção.
- Um ruído. – Parei para tentar escutar. – Foi tão sufocado que eu não posso dizer exatamente o que é.
- Eu sei exatamente o que é. – Ele disse enquanto se aproximava e me deixava presa na armadilha de seus braços gélidos. – A sua imaginação. – Ele murmurou.
Balancei a cabeça, negando. Ele queria que minha atenção fosse só dele.
Agora o barulho era alto o suficiente para ser ouvido por nós dois. Era um gemido. E era a voz de Blair.
Michaelo parou e se afastou. Começou a prestar atenção no som.
- Você está certa. – Ele começou a abotoar o smoking – Oh, droga. Como eu odeio quando você está tão certa.
Eu ri. E alisei o meu vestido para que parecesse menos amarrotado.
- É, parece que teremos que adiar o nosso “Então eles foram felizes para sempre” por alguns instantes. – Ele disse um pouco desanimado enquanto abria a porta.
Disparei curiosa pelo corredor. Todos estavam agitados. Vi Lua se movimentar como um raio rasgando o céu pelo corredor.
- O que há? – Perguntei.
Ela não respondeu.
Ela carregava uma maleta branca em mãos e corria muito mais rápido do que eu. Uma passada dela equivalia a três da minha. Ela ia na direção do quarto de Blair.
Cheguei segundos depois de ver Lua passando pela porta aberta como um fantasma se desmaterializando ao atravessar uma parede.
Os gemidos eram altos. Eu sabia que agora não estava ouvindo coisas.
Ainda confusa, eu encarei atônita a realidade.
Blair estava em trabalho de parto – se assim eu deveria chamar. E enquanto isso eu estava preocupada com a minha lua de mel... Que espécie de amiga eu era?
Blair estava na cama. Alex ao seu lado esquerdo, segurando sua mão. Valeria estava do lado direito, segurando a outra mão. Lua estava à sua frente, abrindo a maleta num ritmo digno de câmera lenta, quando aquilo na verdade poderia decidir a sua vida. Michaelo chegou uma batida de coração depois. A agitação começou.
- Michaelo! Vá chamar Carlisle! É urgente! – Lucy disse afobada, quase não dando chance para que Michaelo entendesse a sua agitação.
Michaelo não hesitou e então disparou pela porta. Os Lobos – com exceção de Manu e Kimo – estavam todos fora do quarto, de braços cruzados e a expressão séria. Eu queria poder ler seus pensamentos naquele instante.
Aproximei-me da cama. Ajoelhei-me e fitei Blair. Ela já estava muito pálida por ter perdido sangue durante a gravidez e agora parecia que... Não, eu não podia pensar nisso.
O cheiro do sangue fresco na minha frente revirou meu estômago, mas eu resisti.
Com a ponta do lençol, tentei limpar seu rosto. Segurei o rosto fino em minha mão. Ela me encarava com a máscara de dor, mas por trás daquilo, ela parecia querer dizer mais alguma coisa.
- Ela não quer que você veja. – Alex colocou a mão em meu ombro.
Fitei Alex por um instante mínimo.
- Não, eu não vou deixá-la sozinha. – Eu disse num tom alto até para mim mesma.
- Ela não quer que você sofra junto com ela. – Alex parecia conversar mentalmente com Blair.
- E eu trouxe muito sofrimento para ela. – Eu fitei os olhos desesperados de Blair – É hora de pagar pelo que eu fiz. Eu não soube ser uma boa amiga. – Eu segurei a sua mão – Blair, me perdoe por ter sido um monstro.
Alex deu dois toques no meu ombro e deu um meio-sorriso.
- Ela disse que esta perdoada.
Dei um meio sorriso também.
Michaelo chegou e deslizou para o meu lado. Carlisle entrou em seguida no quarto.
Lua parecia desesperada com a situação.
- Oh, Droga. – Ela disse enquanto abaixava a cabeça.
- O que há? – Kimo a levantou delicadamente.
- Eu não vou conseguir. – Ela disse, para desespero de todos. – Nunca fui tão longe.
- Mas você não... – Kimo não teve chance para completar seu raciocino.
- Eu não vou conseguir! – Lua estava se rendendo às lágrimas. – Me tire daqui, Kimo... Ou eu vou acabar fazendo alguma besteira.
Kimo a acompanhou, e juntos eles desceram a escada. Os outros rapazes os seguiram. Embora eles hesitassem antes de ir. Carlisle tomou o lugar de Lua.
- Tem certeza de que quer continuar aqui? – Alex me perguntou instintivamente.
Blair soltou um grito ensurdecedor, mas ainda sim, respondi.
- Sim... – Eu a fitei, arfando, com os olhos distantes. E então meus olhos se voltaram para Alex e Lucy também. – No que ela está pensando?
- Ela está se achando inútil. – Lucy suspirou.
- Inútil? – Arregalei os olhos.
- Ela não pode fazer nada, a não ser esperar que Carlisle faça alguma coisa.
- Fazer... Alguma coisa? – Gaguejei.
- Você sabe o que ela quis dizer com isso. – Alex suspirou.
- Blair... Você não é inútil! – Eu quase gritei.
Os olhos sem foco de Blair correram pelo quarto e pararam em mim.
Por favor, Blair. Ajude. – Implorei.
- Ela acha que não pode ajudar. – Alex e Lucy disseram em uníssono.
- Querida, você pode sim. – Valeria apertou sua mão.
Eu podia não ter guardado aquela cena com tanta nitidez, mas ela se refez na minha mente. Valeria e Laura. O meu nascimento.
- Isso não pode acontecer... – Grunhi.
- Não... Não pode o quê? – Peter e Valeria estavam igualmente apavorados.
- Ela não quer que aconteça o mesmo que com... – Lucy hesitou. – Laura.
Querida, isso não vai acontecer! – Ela olhou nos meus olhos.
- Como pode ter certeza? – Eu estava abalada.
- Carlisle está... – Ela começou.
Fitei a expressão confusa de Carlisle. Ele estava fazendo de tudo para acabar com o problema. Vi os dentes que cortavam a pele de Blair com tanta voracidade... Tanta selvageria.
- Blair... – Eu murmurei. – Não me deixe sozinha.
Ela tentou mexer a cabeça para me ver. Sua expressão branca de pânico me matava por dentro.
- Agüente... – Implorei.
Manu colocou sua mão quente em meu braço. Eu olhei para ele.
- Vai ficar tudo bem, não se desespere. – Ele tentou reconfortar. – O doutor sang... Carlisle sabe o que está fazendo.
Eu suspirei olhando em seus olhos. Lucy fitou o vazio por algum tempo. Antes de nos surpreender com um grito de Blair.
- Não, Blair, Não! – Lucy gritou.
Capítulo 34 – Primeira Vista
- O que há? – Peter começou a falar alto.
- Ela... Desistiu. – A expressão de Lucy era branca de pânico.
O corpo de Blair se chacoalhou sobre a cama e então relaxou.
- Não! – Eu gritei. E já estava chorando.
Michaelo me agarrou em seus braços. Eu enterrei minha face em seu ombro. Apenas ouvi a voz de Carlisle, turbulenta, distorcida pelo meu choro ruidoso.
- Temos de ser rápidos agora. – A voz dele era alta, mas não nítida.
Ouvi uma passada, em seguida um ruído agudo. Metal com metal, um ruído repulsivo, ensurdecedor. Eu não parei para olhar. Apenas continuei chorando e expulsando minhas lágrimas. Michaelo não disse uma palavra. Ele apenas colocava sua mão em minha cabeça, tentava me reconfortar. Ele sabia que eu não ouviria nenhuma palavra naquele momento.
Fiz a maior pressão possível para tentar não abrir os olhos. Senti os braços de Michaelo se desfazerem à minha volta. Eu o puxava para mim. Era mecânico.
- Alex, o veneno, agora. – A voz de Carlisle rompeu o silêncio do choque.
Ouvi passadas rápidas. Como se alguém estivesse literalmente correndo contra o tempo.
Recebi dois toques de um dedo gélido em meu ombro. Tremi. E no momento seguinte, os braços de Michaelo se afastavam de mim. Virei-me, ainda de olhos fechados.
- Reneé, Abra os olhos... – Era a voz de Lucy. Parecia estranha. Parecia... Doce.
Abri, lentamente, com medo de encarar a realidade.
E lentamente, duas imagens vermelhas se formaram na minha frente. Menino e menina.
Não havia palavras capazes de descrever aquele momento. Eu me sentia da mesma forma que Valeria outrora se sentiu. E a história então se repetiu.
- Eles... São... Lindos... – Eu fitei os dois bebês ensangüentados nos braços de Lucy.
Estendi os braços para eles.
- Ainda não sabemos se são venenosos. – Peter restringiu.
- Vou me colocar à prova. – Lucy disse.
- Não! – Manu proibiu.
- Fique calmo, querido. – Lucy sorriu. – Algumas horas de irritação na pele não vão me matar.
Ela passou os bebês para os braços de Peter. E colocou seus dedos para que eles então mordessem.
Minutos depois, ela se virou para nós.
- Não têm veneno... Mas têm dentes fortes. Ai. – Ela riu enquanto assoprava os dedos.
Eu peguei um de cada vez. Primeiro a menina. Ela tinha os mesmos olhos negros de Alex, expressivos e harmoniosos. Ela tinha os traços da face de Blair, e no meio de todo o sangue, pude ver o tom escuro de seu cabelo ondulado. Ela era linda. Uma cópia fiel à mãe se descontados os traços idênticos aos de Alex. Depois, o garoto. O garoto tinha o mesmo tom dos olhos de Alex, olhos igualmente expressivos. Era igualmente lindo.
- Gêmeos... – Eu sussurrei.
- Eles são iguais aos pais... – Lucy suspirou.
- Criaturinhas admiráveis. – Manu fitava as crianças com ternura.
Blair começou a gemer.
- O veneno está começando a fazer efeito. E é melhor tirarem as crianças daqui. – Carlisle disse enquanto fechava sua maleta.
- Muito obrigado, Dr. Carlisle. – Valeria poderia estar chorando agora.
- Não foi nada. Blair vai acordar em três dias. – Carlisle disse isso olhando para mim.
Senti um alívio imenso ao meu redor. Eu não suportaria perdê-la. E nem Alex.
Carlisle logo saiu pela porta. Senti as mãos de Michaelo no meu ombro.
- Tudo acabou bem. – Ele murmurou.
Apenas suspirei.
Apressei-me em dar um banho nos dois bebês para então vesti-los. Depois do meu sonho estranho, todos ficaram com um pé atrás sobre ser menino ou menina. Compraram roupa para os dois. Lucy estava imóvel ao meu lado enquanto eu os vestia.
- Então é isso. – Ela sussurrou.
- O que? – Perguntei.
- As vozes que eu ouvia e não sabia de quem era... Eram dos bebês.
- Oh... – Eu não tinha o que dizer. – E o que eles diziam?
- O quanto eles amavam seus pais... Embora eles não tenham sentido toda a carga negativa por fora deles.
Suspirei de alívio.
- Menos mau.
- Acredito que no fundo Alex e Blair já estavam adquirindo sentimentos pelos bebês...
– Ela comentou.
Segurei os bebês e eu já estava na soleira da porta.
- Aonde vai? – Ela perguntou receosa.
- Os rapazes precisam conhecê-los. – Respondi sem medo.
- Mas... – Ela contestou.
- Não vou deixar que nada aconteça, está bem? – Insisti.
- Está bem. – Ela assentiu.
Desci as escadas com cuidado e fui na direção da sala, os rapazes estavam lá. Kimo e Lua não.
- Kimo e Lua? – Perguntei.
- Na floresta. – Iwin se prontificou, com um tom amargo.
- Vejam os novos membros da família... – Mudei de assunto.
Iwin e Owena logo cercaram o garoto, deixei que Owena o segurasse. Ele demonstrava muito cuidado com crianças. Será que ele tinha licença para ser babá?
Palani, que estava sentado no sofá, completamente emburrado, se levantou ao ver os olhos da menina. Ele deu alguns passos na minha direção, a face mudando de expressão.
- Posso? – Ele entendeu o braço.
- Pode. – Sussurrei.
Ele tomou a menina nos braços de um modo tão delicado e cuidadoso que talvez nem Blair fosse capaz de repetir. Isso aproximava o seu comportamento ao de Owena com Linei. A conversa dos rapazes ao fundo se dissipou e eles fitaram a pequena meio-imortal nos braços de Palani.
- Oh... Meu... Deus... – Kimo disse incrédulo, ao chegar com Lua e encarar a situação.
- Estou vendo direito? – Iwin disse com um pouco de sarcasmo na voz.
- Oh meu Deus, ele teve um imprinting! – Owena exclamou como um raio tocando a terra.
Foi o suficiente para que a garotinha acordasse e Palani rosnasse o bastante para ser ouvido pela casa inteira.
- O que houve? – Alex já estava na escada.
Ele observou Palani carregando a menina nos braços. Todos estávamos sem expressão.
- Digam! – Ele incentivou.
- Ele teve um imprinting. – Kimo tentava manter a calma na voz.
- Teve um o quê? – Alex desceu a escada.
- I... Imprinting. – Pela primeira vez eu via o chefe dos lobos tremer de medo.
- O que é isso? – Alex tinha um misto de raiva, tensão e preocupação na voz.
- Uma... Coisa de lobo. – Owena Interferiu. – É como... Se ele tivesse se apaixonado pela sua filha... A gente não tem como explicar mais do que isso.
- Um lobo de vinte anos se apaixonou pela minha filha recém nascida? – Alex alterou o tom e a menina grunhiu. Parecia não ter gostado do tom de Alex.
- Acalme-se, Alex... – Kimo pôs as mãos no ombro de Alex. – Não é paixão. Palani não vai encará-la desse jeito... Pelo menos até que ela cresça o suficiente para entender sobre sentimentos amorosos.
Alex suspirou.
- Entenda, Alex. – Os olhos de Kimo correram pelos rapazes da sala numa fração de segundos. – Não é a primeira vez que isso acontece, está bem?
Alex suspirou de novo.
- Está bem. – Alex concordou.
Ouvimos um gemido vindo do segundo andar.
- A transformação já começou... – Alex respondeu a uma pergunta mental de todos nós.
Os rapazes tremeram um pouco.
Capitulo 35 – Acordar
Três dias. Três dias cheios de muitos gritos e gemidos provenientes do segundo andar. Blair estava em seu processo de transformação. Ninguém dormiu nesses três dias. É claro, quem podia dormir, pelo menos. Os recém nascidos eram o centro das atenções.
Mas eles ainda não tinham nome. Sugestões foram dadas, mas ninguém quis tirar o direito da mãe de escolher o nome. Alex tentou alguma conversa com Blair, mas a mente dela estava completamente desorganizada pelo seu processo de transformação. Nem seu poder de organização foi capaz de amenizar a dor.
Enquanto não nos revezávamos para vigiar Blair, todos cuidávamos dos bebês que cresciam num ritmo assustador. Perguntei-me se Blair os reconheceria, uma vez que não teve a oportunidade de vê-los.
- Por que eles crescem rápido? – Linei me perguntou, ao puxar a barra de minha blusa quando eu estava preparando a “mamadeira” dos bebês.
Linei nunca me fez um questionamento desses. Responder às perguntas sobre a nossa natureza mítica seria mais difícil do que responder de onde vêm os bebês. Eu entreguei a mamadeira nas mãos de Palani e peguei Linei no colo, colocando-a na mesa.
- Linei... Você sabe que... – Como explicar para uma menina de sete anos que ela convivia com vampiros e lobisomens?
Lembrei-me de um passado nebuloso, quando eu tinha alguns meses e descobri que era adotada por uma família de vampiros.
“Queridos, Nós temos de contar algo a vocês...” – Valeria havia dito com um tom leve, como sempre.
“O que é?” – Todos nós três dissemos em uníssono, e eu, por ser uma meio imortal, já tinha um raciocínio mais organizado do que Alex e Lucy. Eu só não sabia por que era mais velha em tão pouco tempo.
“Todos vocês são adotados...” – Peter disse em seu tom de pedra. “E nós, vampiros” – Ele completou.
Simples, direto e chocante. Estava claro que não acreditamos. Eles tiveram de provar. Nos levaram para a floresta e caçaram na nossa frente. Foi mais ou menos assim que tudo começou.
Mas eu não podia fazer isso com Linei. Não tinha força e nem coragem para isso.
Meus olhos percorreram a cozinha numa batida de coração. Michaelo e Owena estavam lá. Pedi ajuda com os olhos. Eles andaram depressa até a mesa, como se fosse casual.
- O que eu sei? – Ela me perguntou com seus olhos negros cativantes.
- Você sabe que... – Repeti automaticamente, tentando encontrar alguma falha na qual eles podiam interferir.
Pelo canto do olho vi Owena fitá-la de um modo estranho, parecia pânico em seu olhar.
- Vocês são todos como Wena? – Ela perguntou ingenuamente.
- Wena? – Eu repeti, mecanicamente enquanto tocava sua mãozinha pequena.
Ela apontou para Owena com a outra mão. Os olhos de Owena se arregalaram.
- Ela... Já... Nos viu... – Ele disse num sussurro.
Fitei Michaelo com preocupação. Tentei não pensar no que ela tinha visto.
-
Quando foi isso? – Eu sussurrei, mantendo meus olhos em Michaelo e segurando minhas forças para não fazer algo do qual eu certamente me arrependeria mais tarde.
- Antes de nos movermos para San Francisco... A ultima batalha da matilha. – Owena mantinha seu sussurro. – Ela devia ter três anos. Ou quase.
Relaxei um pouco. Torcendo para que fosse só uma lembrança nebulosa.
- Vocês são? – Ela insistiu.
- Nem todos, querida... – Falei. – Alguns são como Michaelo e sua tia Lucy, e os bebês são... Como eu e Renesmee.
- Ah... – Ela fez uma expressão confusa, mas não disse mais nada.
- Vá brincar... Já sei... Vá lá fora e encontre uma flor bem bonita para mim, está bem? – Eu propus.
Ela sorriu, e quando eu a coloquei de volta no chão, ela saiu correndo feliz, na direção do jardim. Michaelo, Owena e eu nos fitamos simultaneamente.
Era o suficiente... Por enquanto.
Eu sentia o peso das noites em claro agora, mas não me renderia até vê-la acordada.
Quando saí da cozinha, vi Peter descendo da escada, ele sinalizou para que eu subisse.
Subi as escadas em menos de cinco passadas, e percorri o corredor em apenas duas. Logo eu estava no quarto dela.
Dei passadas leves até chegar em sua cama. Ela se remexeu e seus olhos de cor carmim se focalizaram em mim.
- Já... Estava acordada? – Perguntei receosa.
Ela assentiu com a cabeça.
- Só estava esperando você. – Ela sorriu. Mais linda do que antes.
Nunca pensei em como a encararia depois de transformada. Eu nunca a imaginara como uma vampira. Nunca a imaginara caçando. Uma perua como ela seria um completo desastre numa caçada.
“Ela é a mesma Blair, só que agora pode viver para sempre.” – Eu repeti em meus pensamentos.
- Parabéns pela vida nova. – Eu estava sem palavras. Franzi a testa depois de ter prestado atenção no que eu disse. Eu estava congratulando uma pessoa por morrer?
Ela me fitou com a sua testa de porcelana franzida também. Ela havia imitado a minha emoção perfeitamente. Mais perfeito do que um espelho.
- Hã... Obrigada. – Ela continuou com sua testa franzida e a expressão de raposa.
- Tem... Sede? – Perguntei.
- Muita sede. – Ela respondeu enquanto passava a mão pela garganta.
- Então... Por que ainda não me atacou? – Franzi mais um pouco a testa.
- Estou prendendo a respiração. – Ela bufou, sem pegar mais ar. – É péssimo ficar sem olfato, mas é necessário. Mas ainda posso ouvir a sua pulsação, é irritante. – Ela sacudiu a cabeça.
Ah, eu esqueci de que ela era capaz de fazer isso.
Capitulo 36 – Novas vidas
- Por favor, vamos caçar. – Ela implorou enquanto se levantava da cama num pulo.
Ela caminhou até o guarda-roupa e parou.
- Estou vestida? – Ela ficou confusa.
- Valeria a vestiu enquanto estava se transformando. – Eu comentei.
- Droga. – Ela resmungou. – Eu queria o vestido amarelo! – Ela disse enquanto se olhava no espelho.
- Está bem assim. – Comentei. – Agora vamos, Blair. Temos que caçar. – Lembrei.
Ela assentiu.
Eu abri a janela para que nós duas passássemos.
- Pela janela? – Ela repetiu sua expressão de raposa.
- Sei que você não vai agüentar ficar sem a respiração. – Eu me posicionei para pular e então olhei para ela. – Pode desfilar para eles mais tarde.
Ela riu e então pulou junto comigo.
Coisas de recém nascido. Muito forte, muito rápido... Humilhante!
Ela caçava como uma raposa. Graciosa, precisa e traiçoeira. Eu nunca chegaria á perfeição, e ela já havia atingido. Eu a invejei, enquanto a assistia sentada num galho.
Deixei que ela caçasse até estar satisfeita. Eu sabia que recém nascidos não eram fáceis de aturar. Ela se levantou graciosa, sem um único pingo de sangue na roupa ou mesmo um arranhão.
- Estou pronta. – Ela sorriu.
Eu saltei de meu galho e fomos juntas até a casa. Mas isso não queria dizer que ela não me ultrapassava todo o tempo. Eu não estava gostando das novidades e não estava a fim de uma briguinha de garotas. Eu sabia que ela ganharia. Pelo menos por enquanto.
Entramos pela porta da frente, mas ninguém parecia surpreso com nossos planos. Ninguém se surpreendia naquela casa.
Os olhos de Alex e Blair se encontraram como que pela primeira vez. Eles se abraçaram e beijaram calorosamente. Pigarreei. Blair sorriu de lado, ela poderia estar corando agora.
- Blair... Seus filhos estão com muitas saudades de você. – Lucy sorria.
- Meus...? – Ela tremeu um pouco – Quer dizer que...?
- Sim, dois... Um menino e uma menina. São lindos! – Os olhos de Valeria brilhavam no seu tom de dourado.
- Menino... E menina? – Os olhos cor de carmim de Blair brilharam.
- Não demos nenhum nome por que... Nós não sabíamos o que você escolheria. – Peter concluiu.
- É, só não junta nome, por favor... – Iwin debochou.
Blair rosnou para ele. Iwin não se intimidou e sorriu amargamente.
- Eu já tenho nomes... – Blair disse sorrindo. – Quero vê-los primeiro.
- Palani... Traga-os, por favor. – Valeria disse com gentileza.
Blair estranhou o fato de Palani trazer as crianças. Todos nós ainda estávamos nos acostumando com o imprinting. Eu só queria saber da reação de Blair. O sorriso de Blair iluminou toda a sala. Os olhinhos inquietos das crianças pareciam encontrar o que procuravam: sua mãe. Ela pegou um de cada vez no braço e parecia maravilhada com aquilo.
- Nomes...? – Palani hesitou, mas disse.
- A menina... – Ela disse enquanto olhava docemente sua filha. – Bridget Eileen Wolf. – A garotinha sorriu. – Gosta desse nome, garota? – Blair sorria, abobada pelo carisma da menina.
- Ela gosta do nome. – Lucy comentou.
- Bridget era o nome da minha mãe... E Eileen, bem, é o meu segundo nome. – Ela disse um pouco sem graça.
- E o garoto? – Induzi.
- O garoto... – Ela fitou o menino por um breve instante. – Ryan... Vincent... Ryan Vincent Wolf! – Ela disse numa explosão de alegria. O garotinho sorriu também.
- Ele também gostou do nome. – Lucy comentou outra vez.
- Seu pai se chamava Ryan? – Perguntei.
Blair assentiu em silêncio. Lembrei-me do dia em que ela se tornou órfã, dias depois de chegarmos à cidade.
- Mas chega de lágrimas! – Ela sorriu. – Estamos num ótimo momento.
- Blair... – Palani disse colocando a mão no pescoço. Ele queria contar alguma coisa, mas não sabia como. – Eu tive um imprinting com a sua filha.
Blair franziu a testa por um momento, cruzou os braços e encarou o rapaz. Seus olhos percorreram toda a sala e então ela respondeu.
- Está bem. – Ela sorriu de leve, sem amenizar sua expressão. – Cuide dela, como se fosse sua filha.
- Não vai me espancar, nem me morder, nem dizer que eu sou nada mais do que um cachorro estúpido? – Palani arregalou os olhos, os rapazes riram.
- Não. – Blair suavizou sua expressão. – Mas a partir do momento que pude, eu ouvi o jeito com o qual você falava sobre Bridget, mesmo não tendo um nome, um carinho com o qual você explicava e jurava proteção e amor de uma forma tão... Paterna. Brid ficará feliz em ter você por perto.
- Obrigado. – Palani estava emocionado. É, as pessoas mudam. Ele a abraçou.
Blair prendeu a respiração.
- Não abuse da sua sorte, cachorro. – Ela estava sorrindo entre dentes.
Todos riram.
Aquela cena ficou para sempre guardada na minha mente, não por um simples recurso da mente dos imortais, mas por ser um momento único. Era o momento em que minha melhor amiga dava seus primeiros passos em sua nova vida, começava a enxergar o mundo com outros olhos, agora, carmim vívido, e mais adiante, dourado.
E eu havia presenciado esse momento. Estava orgulhosa de mim por isso. Se por algum acaso eu me culpava por tudo o que Blair passou, agora tinha certeza de que havia conseguido a minha absolvição. Nós havíamos feito nossas pazes – mesmo nunca tendo brigado de fato. Poderia haver momento melhor do que esse, de paz?
Era um momento muito pequeno comparado a tudo que estaria por vir na eternidade que se estendia aos nossos pés como um tapete interminável. Mas eu não me preocupava com o que estava por vir. Eu me preocupava com o agora. O momento.
Cada brilho, cada faísca, cada sorriso. O cheiro misto, semi-humano, semi-imortal. O toque leve e cativante de Linei. O toque indescritível e reconfortante de Michaelo. A sua presença.
Eu podia sentir tudo, podia sentir meus poderes se renovando, me sentindo capaz de ser capaz. Sentindo que poderia ser quem eu finalmente era. A criança. A garota. A Meio-Imortal. A rastreadora. A mãe. A Mulher.
Reneé Michelle Wolf.
Epílogo – Existem coisas das quais você não é capaz de escapar
# Michaelo Wolf’s P.O.V #
Ela estava adormecida. Mas um mínimo movimento meu era capaz de acordá-la. Eu estava ciente disso. Ela era tão linda... Ela com certeza já sabia disso. Eu não seria o primeiro e nem o ultimo a dizer isso. Mas de uma coisa eu tinha certeza. Ela era minha. E para sempre seria.
Arrisquei. Fiz um movimento mínimo e ela grunhiu, me puxando para si.
- Estarei por perto. – Murmurei. – Eu preciso caçar.
- Tudo bem... – Ela murmurou conformada enquanto seus braços se desfaziam à minha volta.
- Você pode me alcançar se eu demorar... – Propus, mas logo vi um sorriso malicioso em seu rosto levemente cintilante à luz da lua. – Digo... Se eu não voltar em uma hora. – Ela franziu a testa.
- Uma hora é muito tempo. – Ela cruzou os braços. – Mas eu posso te esperar. – Ela sorriu.
Eu precisava de um tempo para mim e sabia que em uma hora ela estaria no seu sono mais profundo.
Arrumei a minha roupa e pulei pela janela aberta. Às vezes eu gostava de ser um pouco vaidoso. Não que esse fosse o meu passatempo. Eu tinha hobbies muito mais atrativos e interessantes do que as minhas roupas.
Aterrissei suavemente no chão e dei passadas leves pela relva. Eu não procurava por nada, não tinha tanta sede quanto eu fingia. E me sentia mal por fingir.
Escalei uma árvore enquanto esperava detectar qualquer cheiro atrativo.
Mas eu não encontrava nada.
Ela, ela, ela. Só nela que eu pensava. Lucy uma vez me contou, que enquanto lia os pensamentos de Reneé – não que esse fosse o hobby dela – ela via a minha imagem frequentemente, como a sentença dela, o destino. Aquilo que seria dela, para sempre e que daquilo ela nunca poderia escapar. Eu tinha a mesma imagem dela. Na verdade, ela que era a minha sentença, a pior sentença que um criminoso poderia receber. Eu me sentia inútil por ter alguém tão especial para mim e não saber como corresponder. Eu sentia que não seria capaz de agradá-la. E quando conseguia, sentia que não era o suficiente, que ela precisava de mais. E mais. E mais. Era compulsivo.
Ela era a única coisa da qual eu nunca seria capaz de escapar. O meu destino.
Um ruído na folhagem chamou a minha atenção. Eu procurei na noite prateada quem ou o quê havia produzido o ruído.
- Boa noite... – Senti o toque dos fios de cabelo, pontiagudos, cortantes como navalha. Ela estava bem atrás de mim.
Arregalei os olhos.
- Sofia? – Eu olhei para trás e a vi.
Sofia não era bonita. Não era cativante. Era apenas... Sedutora. Não era o tipo de beleza com a qual eu me conformava. E ela sempre soube disso. Mas nunca se conformou.
Seus cabelos cor de vinho brilhavam com a luz prateada da lua. Um tom fascinante, mas não para mim.
- Sentiu a minha falta? – Ela pulou para o meu galho.
- Nem um pouco. – Grunhi.
- Tem certeza? – Ela repuxou os lábios num sorriso malicioso.
Não era a mesma coisa que ver os sorrisos maliciosos da doce Reneé. Minha Reneé seria capaz de cativar com o mais malicioso de seus sorrisos. Sofia era capaz de intimidar até mesmo um vampiro. Ela era além de tudo, precisa e traiçoeira.
Ela me fitava com seus olhos incendiando no carmim vívido.
- Absoluta. – Eu disse com frieza.
Seu olhar vívido e cheio de desejo congelou. Ela se afastou alguns milímetros e então, numa fração de segundos, o fogo em seus olhos voltou a arder.
- É uma pena... – Ela se inclinou na minha direção. – Sabe que você ganharia muito ao meu lado, não é? – Ela projetou todos os seus planos para nós em minha mente.
Talvez a sua habilidade fosse capaz de me afetar a quatro anos atrás. Talvez a quatro anos atrás eu fosse fraquejar, gaguejar e ser intimidado por ela. Talvez. Agora eu era forte o suficiente para resistir e dizer não.
- Sinto muito, Sofia. – Eu a afastei por precaução e repulsa. – Mas nós não pertencemos mais ao mesmo mundo. Olhe para mim... O que vê?
Ela me fitou com desejo em seus olhos, mas seu olhar congelou numa fração de segundos.
- Você... Desertou. – Ela murmurou com a repulsa nítida nas palavras.
Ela estava incrédula.
Afinal... Como eu, Michaelo Volturi, um membro do exército ousava desertar no meio da minha missão? Era uma afronta e tanto a eles.
- Como pôde? – Sua face se tornou amarga, puro ódio.
- É tudo o que você precisa saber. – Eu pulei do galho e logo cheguei ao chão.
Um ruído escapou de seus dentes e isso me fez olhar para ela.
- Isso. Não. Vai. Ficar. Assim. – Ela grunhiu. Seus olhos ardiam mais do que antes.
Sua mão se fechou em punho. – Você não pode escapar do seu passado. Nem do que você realmente é.
- Você não sabe o que eu realmente sou. – Eu disse num tom pacífico.
Ela rosnou. E deu as costas para mim. Olhou por cima do ombro e outro ruído escapou pelos dentes.
- Eu prometo. Eu vou voltar.
Ela sumiu entre as árvores na noite escura. Ouvi seus pés tocando de galho em galho. Ela estava se distanciando de mim, mas eu ainda pude ouvir a sua voz. Como se ela quisesse que eu ouvisse sua ultima frase. Seu juramento.
- Você. Não. Vai. Escapar. De mim. – Sua voz era amarga, eu podia imaginar o ódio estampado na sua face.
E então ela finalmente desapareceu.
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