
"New Born"
Prólogo
Você tem certeza? Certeza de tudo? Certeza de que vai acordar amanhã? E se acordar, tem certeza de que vai virar à direita ao invés da esquerda? Certeza de que vai preferir andar ao sol escaldante ao invés da sombra? Certeza de que vai dizer sim ao invés do não? Certeza de que vai preferir o certo ao invés do errado? Não, você não tem. Nós nunca temos certeza de nada. O destino é uma incógnita. Você nunca vai saber o resultado antes de resolver o problema matemático.
Capítulo 1 – Estadia
E lá vamos nós. Fazendo do fim o nosso novo começo. Michaelo segurava a minha mão, olhava para mim com seus olhos vermelhos, meigos e carinhosos. Valeria olhava constantemente para nós dois. Não estávamos fazendo nada de errado. Ou estávamos? Blair dormia encostada em Alex. Este, por sua vez, prestava atenção na estrada, na cadeia montanhosa que disputava espaço com o céu. Lucy estava aborrecida, de braços cruzados e olhando reto para a poltrona à sua frente. Ninguém quis interferir.
Michaelo alisava meu rosto, liso e fino como porcelana. Eu não sabia exatamente por que, mas isso deixava Valeria um pouco irritada. Seria por que Michaelo e Eu estávamos tão bem juntos? Não poderia ser. Se ela gostava de me ver feliz, por que estaria irritada em me ver feliz com ele?
O carro parou. Peter foi o primeiro a abrir a porta, depois Valeria, e em seguida, nós.
Ao sair, nos deparamos com um pequeno vilarejo. A arquitetura oriental, os templos, os anciãos... Nada disso era estranho para mim. Mas eu parecia não me lembrar de muita coisa.
Peter abriu um sorriso largo ao ser reconhecido pelos anciãos. Ele acenou para cada um que o cumprimentava.
- Lar doce lar. – Peter disse respirando fundo e sorrindo. Eu nunca o vi tão alegre.
- Sua vida praticamente começou aqui. – Valeria sorriu e encostou sua mão em seu ombro.
- Ao seu lado. – Ele completou.
Eu odiava ter que atrapalhar os momentos carinhosos de meus pais, mas era necessário.
- Por que estamos aqui? – Perguntei de forma insistente.
- Você vai entender... – Valeria respondeu com os olhos brilhando.
Um senhor que não aparentava ser oriental abriu caminho na multidão e veio até nós.
- Gregor Hartwig! – Valeria disse com um sorriso no rosto.
- Valeria Wolf! – Ele disse sorridente ao cumprimentá-la e então virar-se para Peter. Instantes depois, ele virou-se na minha direção.
- Lembra-se dela? – Valeria perguntou enquanto passava o seu braço por mim.
Gregor olhou com seus olhos dourados e curiosos para mim, chegou mais perto e fitou meus pais, incrédulo.
- Reneé? – Ele estava com os olhos arregalados.
- Sim, é ela, a nossa menininha. – Peter também estava orgulhoso.
- Como ela cresceu rápido. – Gregor continuava a me observar. – Eu não devia tê-la subestimado tanto assim. – Ele riu.
- Vamos te contar coisas que vão te fazer se arrepender de tê-la subestimado. – Valeria disse sorridente. Sua expressão leve era radiante.
- Tenho certeza disso. – Gregor sorriu, então olhou curioso na direção de Blair.
Ele não disse nada, mas Peter tomou o rumo da conversa.
- Isso é apenas uma das muitas coisas sobre as quais nós vamos conversar.
- Então quer dizer que vão ficar por aqui? – Gregor perguntou. Eu não podia afirmar se era por curiosidade.
- Sim. – Valeria sorriu. – Por tempo indeterminado.
* * *
Quatro anos podem passar mais rápido do que nós podemos imaginar. Principalmente quando nós nos mantemos ocupados durante todo esse tempo. E foi isso o que aconteceu. Os últimos quatro anos foram totalmente dedicados a uma espécie de aperfeiçoamento de nossas habilidades. Gregor era um vampiro extremamente sábio. Era um ótimo professor.
Nos tempos livres, Valeria me contava mais sobre ele. Ele era tão velho quanto a sua própria história. Era muito sábio por ser muito experiente. Tinha sede de conhecimento, e isso me lembrava de Carlisle. Sangue humano já não era um problema para ele. Ele se considerava um ‘humano imortal’.
Mesmo sabendo de que humano ele já não tinha mais nada.
Nosso tempo de estadia já estava terminando. Nós havíamos feito todo o possível por aqui. Nesses quatro anos, recuperei a minha memória, Alex aprendeu a controlar seus poderes e Michaelo soube como mostrar o que tinha de melhor em si: o amor.
No entanto nós éramos... Alguma coisa. Não estávamos namorando nem noivos, muito menos casados.
Eu levava minhas malas para o carro quando fui surpreendida.
- Reneé... – Ele apareceu em minha frente, tão rápido que quase não pude ver de onde ele vinha. – Posso te fazer uma pergunta? – Ele disse com os olhos meigos e irresistíveis.
- Qualquer uma. – Respondi casualmente.
- Quer casar comigo? – Ele disse de uma forma tão natural que eu até me assustei.
- Casar? – Será que eu estava ouvindo coisas?
- Sim... Casamento, festas, família... – Ele enumerou os fatos.
Eu não conseguia responder, por mais que estivesse ansiosa para ouvi-lo dizendo isso.
- A... A... Aceito. – Gaguejei.
Ele me deu um abraço apertado, sorridente.
- Mas eu quero ouvi-lo pedindo a minha mão para os meus pais. – Brinquei.
- Sem problemas. – Ele me largou por um instante. – Seu desejo é uma ordem. – Ele se curvou diante de mim, como se eu fosse superior.
É, talvez eu fosse.
Peter e Valeria apareceram naquele instante, acompanhados de Blair, Lucy e Alex. Insinuei para que Michaelo começasse o assunto. Ele levantou as mãos, pedindo que eu esperasse.
Entramos no carro, nos despedimos de Gregor e então partimos. Estávamos indo de volta para Forks.
Sentei na janela do carro ao lado de Michaelo, e enquanto ele não iniciava a conversa, eu pensava em outras coisas. O que mudou nesses quatro anos... Tudo mudou. A começar pela estrutura da família, que além de Michaelo, acabara de admitir um novo membro: Blair. Ela estava sozinha, sem parentes, e então se juntou à família. Mas não em um detalhe: Ela permanecia humana. Ela estava prestes a completar vinte anos e não havia sido transformada. Ela tomou isso como uma decisão dela. Disse que precisava de mais tempo para se adaptar e que ainda tinha uma experiência humana pendente. Ninguém nunca soube qual era. Alex estava ansioso para transformá-la. Ele havia dado a data do casamento como ultimo prazo para sua existência humana. E por falar em Alex, durante esse tempo, ele aperfeiçoou suas habilidades e acabou descobrindo que podia se comunicar telepaticamente com as pessoas. Claro que isso tirou um pouco da privacidade de nós todos no começo, mas logo depois, descobrimos que ele só pode ler a mente de um indivíduo quando este estiver “pensando” nele. Isso nos deixou muito mais aliviados. Não que nós tivéssemos segredos a guardar.
Michaelo entrelaçou suas mãos nas minhas e chegou mais perto de mim. Inúmeras situações passaram pela minha mente naquele instante. Pensei em começar o assunto.
- O que acham de nos casarmos na próxima primavera? – Blair começou outro assunto, para meu alívio.
- Na próxima primavera? – Valeria respondeu. – Por que tão longe?
- É a época em que os ursos saem da hibernação. Não vou ficar caçando em pleno inverno.
Blair respondeu num tom tão espontâneo, que parecia que ela não havia aprendido nada nesses quatro anos.
- Se bem que... Do jeito que você é teimosa, vai acordar os ursos dentro das cavernas só pra devorá-los. – Alex brincou risonho enquanto alisava o braço de Blair.
- Não achei graça. – Ela fez sua tradicional cara de raposa.
Alex a encarou com um olhar doce e então ela começou a rir. Ela sempre fora um pouco volúvel.
- Você é quem decide, Blair. – Peter disse sem tirar os olhos do volante. – Nós só achamos que você não deveria adiar tanto. Nunca se sabe quando eles vão querer fazer uma visitinha...
Senti um arrepio percorrer pela minha espinha. E sem olhar para Michaelo, disse tudo o que veio na mente naquele instante.
- Michaelo e eu vamos nos casar. – Pronto, falei. Não foi tão difícil assim, foi?
Peter parou bruscamente e o carro rodopiou na pista.
- O que?! – Peter perguntou num ato súbito.
- É isso mesmo, Sr. Wolf. – Michaelo tomou a iniciativa.
- Isso é coisa séria, sabia? – Valeria ficou cara-a-cara conosco.
- Nós estamos realmente decididos. – Eu tinha certeza. – Vocês não têm algo contra isso... Ou têm?
Capítulo 2 – Exageros
Eu desfrutava da melhor - e ao mesmo tempo, a pior - época de minha vida: a Época pré-matrimonial. Apesar de meus pais ainda terem certos receios – eles tinham esse direito – o romance proibido se consolidou. O romance entre a caça, e o caçador. Entre a luz e a escuridão. A lei e o crime. Michaelo e Eu.
É claro que só a nossa família – e alguns conhecidos – sabiam do casamento.
Nós não queríamos que certas pessoas tomassem conhecimento das novidades.
- Ansiosa? – Ele acariciava as costas das minhas mãos com seus dedos gélidos.
- Muito. – Eu chegava a tremer de pensar nisso.
- Está nervosa de novo? – Ele sabia que aquele assunto dava borboletas em meu estômago.
- Sim. – Suspirei.
- Eu posso te acalmar... – Ele disse chegando mais perto de mim, se encostando cada vez mais.
- Por favor... – Sussurrei.
Ele chegou mais perto, de um modo que eu não teria como fugir.
- De novo não! – Lucy berrou, assustando a nós dois. Por vezes, eu pensava que ela fazia essas coisas de propósito.
- O que foi dessa vez, Lucy? – Nós dissemos no mesmo tom de cansaço pelas atitudes infantis dela.
- Vocês podem deixar toda essa demonstração excessiva de carinho –ela marcou bem a expressão– para outra hora? Isso cansa, sabia?
- Não é nossa culpa se você não tem para quem demonstrar carinho, Lucy. – Michaelo adorava provocá-la.
Ela bufou e saiu da sala. Odiava que dissessem na frente dela que ela não tinha uma companhia, no entanto, em reuniões casuais, ela sempre dizia que estava solteira.
- Ela não gosta disso. – Eu disse enquanto me desviava de Michaelo.
- Eu também não gosto que me atrapalhem sabia? – Ele disse um pouco bravo.
Eu sabia do que ele estava falando, e no fundo, Lucy sempre chegava em uma hora propícia para atrapalhar.
- Ainda quer que eu tente te acalmar? – Ele sorria mostrando os dentes afiados.
- Não. Já estou calma. – Eu o ignorei e subi as escadas em direção ao meu quarto.
Não era a primeira e nem a ultima vez que eu fazia isso. Michaelo, apesar de todas suas qualidades, possuía um grande efeito, remanescente de sua vida com os Volturi: não tinha controle. E eu dizia isso em todos os sentidos.
Não tinha controle das ações, dos pensamentos, das palavras. Por vezes, eu me perguntava o que tanto me encantava nele a ponto de estar me casando com ele.
Mais uma vez, eu me afundava no travesseiro, só para não ouvir a voz dele, o que era muito difícil, já que eu tinha uma audição extremamente bem desenvolvida.
- Reneé, Eu... – Ele dizia da porta pra mim.
- Me deixa! – Reclamei.
Coloquei o travesseiro em minha cabeça. Por vezes, eu era mais humana do que eu poderia imaginar que eu fosse.
Minutos depois, Ouvi passos no corredor, pelo ritmo gracioso e imponente, só poderia ser Valeria.
- Querida, está tudo bem? – Ela disse da porta.
- Sim, mamãe. – Está certo, eu ainda era a filhinha da mamãe.
- Tem certeza? – Era uma pergunta retórica?
- Tenho.
- Tudo bem. Eu só queria te avisar que as Cullen chegaram. Elas estão te esperando no quarto da Blair.
Sim, ela disse as Cullen. Ou seja, Rosalie, Alice e Bella.
Elas estavam envolvidas diretamente nos preparativos de meu casamento.
Cheguei no quarto de Blair e elas estavam me esperando. Alice trazia uma grande caixa branca, com uma fita vermelha. Eu podia supor o que era.
- Reneé! – Ela disse em seu tom adorável. – Trouxemos algo para você.
- Oh, o que pode ser? – Eu fiz um leve deboche.
- Abra logo, e você vai saber. – Rosalie disse num entusiasmo que não era próprio dela.
Se ela estava se comportando daquele jeito, não era boa coisa.
Olhei a caixa por um tempo, e elas me fitavam curiosas.
- Não vai abrir o seu presente? – Bella fitava curiosa.
- Sim... – “Já que insistem”. Completei mentalmente.
A minha sorte era a de não ter Edward por perto, ou ele estragaria minhas respostas mentais.
Tirei a fita, e abri a caixa, era um longo vestido de noiva, branco e cheio de detalhes, parecia ser desenhado por um daqueles estilistas caríssimos que Blair sempre comentava.
Mas ele não me agradou.
- Não é maravilhoso? – Alice saltitou de alegria ao ver o vestido em minhas mãos.
- É... Amável. – Completei com um nó na garganta.
- Eu te disse Alice, esse vestido tem babados demais. – Bella opinou.
- Nada que eu não possa resolver. – Ela tomou o vestido e o guardou na caixa. – Talvez eu tenha exagerado um pouco. Mas eu vou consertar! – Ela disse esperançosa.
Elas tinham a expectativa de que se consertassem o vestido, eu gostaria mais dele. Mas mesmo assim, elas não pediram minha opinião direta.
Eu me sentia um pouco envergonhada de pedir que elas não exagerassem em meu casamento, mas parecia que elas se divertiam enquanto preparavam a festa.
E se elas estavam tão bem assim, por que eu deveria atrapalhar?
Todos os preparativos da festa corriam em segredo. Mas eu fazia questão de pensar em coisas bem objetivas para que assim, Alice tivesse uma visão com elas.
Saí do quarto para que elas pudessem tramar sem a minha interferência.
“O que há, Reneé?” – Alex tentou puxar alguma conversa mental comigo.
“Nada de mais, Alex.” – Evitei assunto.
“Reneé...” – Até mesmo o seu tom nos pensamentos denunciava leve repressão.
Procurei não pensar em mais nada. Não estava a fim de mais aborrecimentos.
Caminhei lentamente para fora de casa e então sentei na porta. Observei o sol se pôr escondido entre as nuvens espessas no céu. Fiquei alguns minutos por ali, imóvel, intacta, observei as Cullen saírem de casa no carro de Alice, animadas com o meu casamento.
Escutei passos atrás de mim. Alguém se sentou do meu lado. Era Peter.
Ele parecia não se preocupar em se expor ao por do sol. Afinal, a rua estava quase deserta.
- O que aflige a minha garotinha? – Ele disse enquanto passava o braço por cima de meu ombro.
- Eu estou cansada de tantos exageros... – Eu disse enquanto me encostava nele.
Capitulo 3 – Noite das Garotas
Os dias se passaram. Era véspera do meu casamento e eu estava realmente ansiosa.
Alice havia planejado uma noite em Port Angeles para todas nós: Alice, Bella, Rosalie, Blair, Lucy e eu. Era como uma noite de “garotas”. Uma espécie de despedida de solteira.
As meninas estavam em meu quarto, me fazendo de cobaia para maquiagens.
- Acho que agora está bom. – Rosalie saiu da minha frente, com um batom vermelho escarlate.
Estiquei o pescoço para encontrar o espelho na penteadeira, mas Alice se jogou na minha frente.
- Bom trabalho, Rose! – Ela disse com os olhos dourados brilhando de alegria.
- Está muito bom mesmo. – Blair chegou mais perto.
- Fabuloso! – Lucy se aproximou.
- A minha opinião conta? – Eu debochei.
- Meninas, a Reneé quer se ver no espelho. – Bella disse sufocando um pouco de riso.
Elas riram, e se afastaram. Então, eu tive um choque ao me olhar no espelho.
Eu não parecia comigo.
Eu não parecia a garota semi-humana ingênua, do cabelo dourado, olhos vermelhos e pele clara.
Eu parecia mais velha – como se isso fosse possível de acontecer –. Meu cabelo estava esticado, quase na altura das minhas costas, longos cachos nas pontas, um vestido vermelho, com babados e um salto agulha, o batom vermelho chamava muita atenção. Isso me lembrava muito de como as vampiras se arrumavam.
Estaria toda aquela produção tentando me passar alguma mensagem?
- Estou muito diferente. – Eu disse enquanto me observava no espelho.
- Essa sempre foi você, Reneé. – Blair disse com um sorriso.
- Não, definitivamente não. Eu não sou tão ousada assim.
Todas riram.
- Qual a graça? – Eu disse me virando na direção delas.
- Você é ousada sim. – Lucy disse reprimindo uma risada. – Só que não quer deixar esse lado aparecer.
- Será? – Duvidei por um instante. – Ah, é claro que não. São vocês que ficam colocando essas coisas em minha cabeça!
- Vamos meninas, ou vamos nos atrasar... – Bella cortou o assunto.
Fiquei muito grata a Bella naquele momento.
Como se fosse possível nós chegarmos atrasadas com a direção louca de Alice. Mas mesmo assim, as lojas tinham horário para fechamento.
Descemos a escada, na direção da garagem e entramos na van de Valeria. Valeria trocou o carro, pois como a família foi “modificada” e com certeza aumentaria, precisaríamos de um carro maior para levar todos.
Mas ela só deixou usarmos a van naquela noite. Valeria era um pouco ciumenta com relação aos automóveis dela.
- Meninas... – Valeria apareceu na garagem.
- Sim...? – Nós estávamos prestando atenção.
- Por favor, nada de lanches, bebidas ou perfumes muito fortes dentro do meu carro. Também não quero arranhões na lataria. Vocês podem descuidar da vida de vocês, mas não do meu carro.
- Tudo bem... Nós entendemos. – Alice disse enquanto pegava as chaves.
- E, por favor, poupem o motor. Eu não gosto de exigir muito dele, apesar dele ter capacidade pra isso.
- Quantas restrições. – Rosalie debochou. – Como vamos nos divertir assim?
- Vocês encontrarão um meio. – Valeria sorriu e saiu da garagem. – Boa diversão, meninas!
Valeria sabia como ser uma boa mãe. Mas ela também sabia ser chata quando queria.
Saímos com a van, Alice dirigia e todas nós estávamos atrás.
Era um fato um pouco humilhante, Lucy e eu sabíamos dirigir, mas não tínhamos carro.
E Valeria não confiava em nós a ponto de nos emprestar o carro dela.
Fiquei alguns minutos apenas observando como elas estavam tão arrumadas. Alice usava um vestido preto, de um material brilhante, aparentemente, couro. E usava um brinco com diamantes. Pra que ela precisaria de mais diamantes? Rosalie usava um vestido azul-petróleo aberto nas costas, e salto agulha na mesma cor. Obviamente ela não precisava de muita coisa para estar bonita. Blair usava um vestido amarelo e preto, na altura dos joelhos, um salto não muito alto e luvas nas mãos. Ela usava uma tiara no cabelo, como de costume.
Lucy usava um macacão de couro muito justo ao corpo, parecia uma daquelas modelos esculturais de propaganda de moto. Ela deixou o cabelo esticado cair sobre suas costas, estava inumanamente bonita. Bella estava magnífica, ao seu próprio modo. Um vestido branco simples, e enfeitado com pérolas e rendas.
Algumas pessoas não precisavam de muita coisa para ficar bonitas.
O pneu cantou no asfalto. Logo estávamos chegando a Port Angeles. Obviamente, nós, seis moças muito bonitas, chamamos a atenção, mas tentávamos manter a descrição.
- E então, aonde vamos primeiro? – O sorriso malicioso de Alice se espelhou pelo carro.
- À loja de lingeries, é claro! – Rosalie abriu um sorriso largo.
- Vocês têm certeza de que isso é preciso? – Eu corei ao sair da van.
Elas me fitaram como se a resposta fosse óbvia.
- Não, eu não vou usar uma coisa dessas! – Eu cruzei os braços e fechei a cara para Alice.
- Ah, Reneé, nós só queremos ajudar você. – Alice dizia enquanto balançava uma camisola com detalhes extravagantes em renda vermelha.
- Podem me ajudar de outro jeito. Não atrapalhando! – Eu disse enquanto devolvia o cabide ao seu devido lugar.
- Acho melhor vocês pegarem leve com a Reneé... – Bella sugeriu, mantendo-se distante da conversa.
- Por que temos a impressão de que você não está entusiasmada? – Rosalie cruzou os braços.
Bufei.
- É claro que estou... Entusiasmada. Mas não do jeito que vocês pensam. – Eu abaixei o tom de voz.
Elas ficaram em silêncio, umas fitando as outras.
- Então por que não propõem algo... Menos extravagante a ela? – Blair sugeriu.
- Se isso a agradar... – Alice disse num tom azedo.
- Isso vai me agradar. – Menti.
- Ótimo. – A face de Alice ficou iluminada. – O que acha desse rosa? – Alice já tinha outra proposta em mãos.
Sinalizei com um não. Lucy me fitou com repressão.
- É a minha opinião... Pelo menos isso vocês deveriam respeitar. – Eu disse enquanto pegava algo mais discreto ainda.
As outras compras não foram tão inconvenientes como a primeira, pelo motivo destas terem sido essencialmente de roupas e sapatos.
Mas eu realmente fiz o possível para que elas não tivessem uma recaída e retornassem à loja de lingeries.
Se eu ignorasse o clima tenso, poderia ter dito que aquela noite fora maravilhosa e que eu estava apenas tímida demais. Mas isso não era verdade. Eu não queria mais nenhuma interferência.
Capitulo 4 – Fora de controle
Ao chegar em casa deixei minhas sacolas de roupas acima das malas já preparadas para a viagem após o casamento e subi para o meu quarto.
Lucy e Blair estavam na garagem, Valeria, Peter e Alex não estavam em casa.
Eu estava tecnicamente sozinha. Tecnicamente.
Entrei no meu quarto. Michaelo me esperava, em pé, feito uma estátua.
Ele sorriu. Caminhei na direção dele. Ele deu dois passos á frente. Tocou minhas mãos e se aproximou mais. Alisou as costas da minha mão, e a colocou de encontro com seu rosto gélido.
- Os rapazes não te arrastaram para nenhum tipo de diversão? – Eu disse sorrindo levemente.
- Já fomos e já voltamos. – Ele riu. – Mas nem um tipo de diversão poderia ter graça hoje.
- Por quê? – Perguntei de forma ingênua.
- Estive tão longe de você...
Fechei meus olhos, encostei minha cabeça no pescoço dele. Ele segurou minhas mãos e começou a se mexer suavemente. Bailávamos ao som do nada. Um ritmo intenso e doce ao mesmo tempo. Ele me inclinou como num daqueles filmes de dança. Meus olhos se abriram lentamente, encontrando-se com os dele que percorriam lentamente o meu pescoço.
Vi suas presas percorrerem pela minha pele.
Arregalei os olhos ao sentir seu hálito gelado.
Locomovi-me rapidamente e senti meu pescoço ser rasgado. Coloquei a mão e senti um pouco de sangue. A expressão dele mudou. Agora estava sedento e muito mais feroz. Ele se aproximou, guiado pelo meu sangue. Eu recuei, a penteadeira era o limite. Ele me encurralou.
Ele estava fora de si, e prestes a fazer uma besteira.
Eu também. Minha respiração estava muito rápida, precisava de oxigênio para encontrar uma saída que não envolvesse uma fogueira. Tateei a mesa até encontrar um vidro de perfume, derrubei-o no chão. Aquilo confundiria o olfato dele por um instante. Ele recuou. Meu próximo passo doeria mais a mim do que a ele.
Eu o empurrei violentamente contra a parede.
Fui rápida. Corri, saí do quarto e tranquei a porta.
E se tivesse acontecido algo mais? Eu poderia não estar viva. Eu não sabia se o veneno havia entrado em contato com minhas veias... E se por um acaso, apenas um acaso, ele tivesse entrado em contato com meu sangue... O que aconteceria a mim?
Pensei em procurar Carlisle, mas aquilo poderia gerar uma confusão. Então corri para o banheiro, lavei meu pescoço e coloquei um curativo, apostando na sorte de que nada pior poderia acontecer.
As cenas se repetiam em meu subconsciente, era tudo forte demais para ser esquecido tão subitamente.
Com o cabelo jogado estrategicamente por cima do meu pescoço, segui para o quarto de Lucy, a fim de passar a noite por lá.
Não estava a fim de muitos esclarecimentos.
- Ansiosa para o grande dia? – Ela sussurrou em meu ouvido antes de me deixar dormir.
- Nem um pouco – Eu murmurei, puxando a coberta grossa para cima de mim.
Demorei muito para dormir naquela noite.
Passei a maior parte dela pensando. Em como eu não conhecia Michaelo. A ponto de não saber que ele estava condicionado a me matar, que o instinto animal era mais forte que a razão dentro dele. E quem sem ele eu era incapaz de sobreviver.
Doía saber disso, que ele era minha alma gêmea, primeiro e único amor, e que agora, tudo estava perdido. Não havia outra saída e eu não estava disposta a me arriscar por amor, por mais forte que fosse esse sentimento.
E o quão forte era esse sentimento, a ponto de não resistir a uma desilusão?
Chorei em silêncio, sufocando as lágrimas num travesseiro que não era meu. Chorei tanto que acabei dormindo.
Tive um pesadelo. Nele, Michaelo e eu estávamos na campina dos Cullen. O sol parecia queimar a minha pele, e refletia em Michaelo fazendo-o brilhar. Tão intensamente que eu não conseguia nem se quer encará-lo. O vento soprava ao meu favor, mas de repente, começou a fazer o caminho contrário. Michaelo mudou de posição e começou a me circundar como um tigre faz quando encontra sua presa. Disparei em corrida sem olhar para trás. Pude ouvir os passos espaçados me seguindo e em seguida um trotar pesado e muito mais rápido. Eu não conseguia parar, algo me dizia que não devia parar. Mas de repente, um exército encapuzado que vinha ao meu encontro me fez parar. Presas perfuraram meu pescoço ao som de um uivo.
Acordei abalada. Sem noção do tempo.
Valeria abriu a porta no mesmo instante.
- Acorde... Reneé! Que bom que já está acordada! Hoje é o grande dia! – A voz de Valeria parecia mais melodiosa do que o som de sinos do vento.
Estremeci.
- As meninas esperam por você no meu quarto.
- Tudo bem. – Eu murmurei.
Andei a passos lentos, sem saber o que fazer. Abri a porta do quarto com desânimo.
Alice pulou em mim com alegria, segurando o vestido de noiva.
- Bom dia Srta. Wolf! Ou eu deveria dizer...
- Volturi. – Eu completei no tom mais sombrio que pude.
O clima ficou pesado de repente. Não só pela má energia na qual eu me encontrava, mas pela energia imposta pelo meu futuro sobrenome.
- Vamos lá meninas. Não podemos perder tempo. – Rosalie dissipou a má energia.
Então elas me cobriram de atenção. Fazendo as unhas, maquiagem, penteado... Nem se preocupando com meu baixo astral... Ou minha nova cicatriz.
Em poucos minutos eu estava pronta, não podia dizer que não estava bonita. Mas eu não me sentia bonita.
Aos poucos, as garotas foram saindo do quarto. Blair ficou, e se aproximou de mim.
- O que há? – Ela disse.
- Não me sinto bem. – Eu disse enquanto passava a mão por sobre meu curativo, a impressão de um formigamento.
- Você sabe que pode contar comigo. – Ela já me olhava com sua expressão de raposa.
- Eu não acho que você vá...
-... Diga-me algo que eu não suportei. – Ela sorriu levemente.
- Bem... Está vendo isso? – Eu tirei o curativo levemente e deixei a cicatriz à mostra.
- O que foi? – Ela reprimiu a curiosidade de encostar na cicatriz.
- Michaelo me atacou.
- Impossível. – Ela disse incrédula.
- É possível. Agora percebi o quanto ele pode me fazer mal. Tudo o que ele quis todo esse tempo, foi ter uma oportunidade para tentar me matar. Agora eu entendo os preconceitos implícitos de meus pais. Se eu não tivesse tomado uma atitude, ele poderia ter me atirado em uma fogueira!
- Mas ele é sua...
- Alma gêmea? Eu não acho. – Cruzei os braços.
- Você não está pensando em...
- Sim.
- Não faça isso! – Ela aumentou o tom.
- Eu faço. E você não dirá nada a ninguém.
- Como tem tanta certeza? – Ela cruzou os braços e voltou a me encarar com sua expressão de raposa.
- Por que eu – Eu disse colocando a mão no pescoço dela e apertando levemente – posso ser muito, muito perigosa se eu quiser. Lembre-se disso.
Eu larguei o pescoço dela.
Estava claro que eu não tinha a intenção, nem a coragem. Mas era preciso ameaçá-la, ou meu plano seria arruinado. Ela me fuzilou com os olhos e saiu do quarto. Em seguida encontrou com Alex e eles desceram a escada.
Fiquei alguns minutos fitando a minha imagem no espelho, como se eu pudesse sair do meu corpo e desse uma bronca em mim mesma. Por todos os problemas que eu havia causado a mim.
- Querida... – Valeria disse em seu tom amável quando abriu a porta.
Eu me virei na direção dela com um pouco de lágrimas nos olhos.
- Por que choras?
- Saudade. – Suspirei.
- Oh, querida. – Ela me abraçou – Você não vai para tão longe. Só será um mês em Dubai.
- Eu sei... – Suspirei outra vez.
- Aliás, quem deveria estar emocionada sou eu. Mas infelizmente eu não tenho lágrimas para isso. – Ela sorriu.
Eu retribuí o sorriso.
- Agora, pare de chorar ou vai arruinar a maquiagem. Você não vai querer desapontar Alice e Rose, vai?
- Não.
- Tudo bem. Esteja preparada. Sairemos em alguns minutos.
- Está bem – Assenti.
Capítulo 5 – Noiva em fuga
Eu não queria desapontar ninguém, mas era preciso. Aquela foi a ultima coisa em que pensei antes de bloquear meus pensamentos.
Pois afinal, Alex e Edward poderiam me “ouvir” e Alice poderia “ver” alguma coisa.
Se eu não fizesse tudo certo, teria arriscado minha amizade por nada.
Ao entrar na igreja, encarei as expressões, todos esperavam algo de mim. Até Blair. Ela parecia pensar que aquela conversa fora apenas um pesadelo e que tudo estava bem.
Fitei as expressões de Edward, Alice e Alex, pareciam um pouco inexpressivos, logo, comecei a pensar repetidas vezes no “Sim” a fim de mudar suas expressões.
Ouvi falar que se podia mentir em pensamentos. Certamente era o que eu estava fazendo agora.
Peter me acompanhava, com um sorriso largo no rosto, a passos lentos, parecia que aquele momento não chegaria nunca. Ao chegar ao altar os olhos de Michaelo estavam mais suaves – mas não menos perigosos – do que ontem. Isso não foi capaz de mudar minha opinião.
A cerimônia correu tão rápida que nem percebi o que estava fazendo. Quando dei por mim, Michaelo estava sendo questionado se ele me aceitaria como esposa, para me amar e respeitar, até que a morte nos separasse. Que irônico.
- Eu aceito. – Os olhos dele estavam incendiando.
Era a minha vez. Perdi minha expressão, meus olhos percorreram toda a igreja em um único instante antes de retornarem aos de Michaelo.
- Não. – Eu pensava não ser capaz de dizer isso.
Murmúrios começaram. Eles eram inevitáveis, é claro.
Michaelo parecia espantado.
Deixei minha cicatriz à mostra para todos.
- Por quê? – Ele olhou atônito.
- Você não é bom para mim. – Cuspi as palavras.
Eu dei um passo, ele me pegou pela mão. Os olhos queimavam numa mistura de vários sentimentos.
- Você prometeu amor e respeito. – Eu consegui me livrar das mãos fortes.
- Eu... Eu... – Ele estava assustado agora.
- Nunca mais terá que pensar em mim como um problema, Michaelo. Nem você nem eles irão me achar. – Eu arranquei o véu.
- M-m-mas... – Ele gaguejou.
Eu dei as costas.
- Eu te amo. – Ele disse quase inaudivelmente.
Mas era tarde demais, eu já havia ido embora.
Peguei uma mala no carro e disparei em corrida. A discrição era a última coisa com a qual eu me preocupava agora.
A imagem daqueles olhos vermelhos não saía da minha mente. Os mesmos olhos que outrora me encantavam, agora me assombravam. Eu não merecia aquilo. E agora eu estava fugindo, com uma mala e o vestido de noiva. O sol brilhava fortemente, de um modo nunca antes visto na península Olympic. Eles certamente estariam intimidados agora.
Continuei em minha rota para o sul, o mais longe possível, o mais perto do sol que eu poderia estar.
O dinheiro era pouco, então não me alimentei durante minha “corrida”. Mas a sede começava a me pressionar a parar. E eu não estava disposta a tentar algo diferente por mais que eu estivesse necessitada de alimento. Lutei contra a sede. E continuei me locomovendo para o sul. Eu não sabia para onde estava indo, mas sabia que já estava no estado da Califórnia.
Eu sentei na calçada, para descansar um pouco a minha pobre mente.
As pessoas me encaravam na rua, afinal, não era fácil encontrar uma noiva andarilha. Mas ninguém realmente se importava.
O sol estava se pondo eu agora podia dar o meu limite, correr de uma forma que eu me tornasse quase invisível aos olhos humanos.
Por falar em olhos, fitei meu rosto numa poça d’água. Meus olhos incendiavam, eu precisava encontrar uma área florestada urgentemente.
Enquanto eu fitava a poça, ouvi duas moças conversando.
- Kevin disse que vai nos levar ao Parque Nacional de Yosemite...
- Eu já visitei esse lugar... Não é muito longe daqui.
- Parque Nacional de Yosemite? – Eu me intrometi, elas olharam com receio de que eu fosse alguma ameaça.
- Sim... Parque Nacional de Yosemite.
- Onde fica?
- P-por que você quer s-saber? – Pude notar que a garota mais nova tinha medo de mim.
- Estou perdida, preciso encontrar com uma pessoa nesse lugar, ainda hoje.
- Não acho que você vá chegar a tempo, o parque deve estar fechando agora. Mas não há como errar, é só seguir até o limite da cidade.
- Muito obrigada. –Eu sorri, peguei minha mala e parti em caminhada.
Segui as orientações e cheguei ao Parque Nacional de Yosemite.
Esperei que escurecesse o bastante para entrar no parque sem ser vista.
O parque estava repleto das mais diversas plantas e animais. Não foi preciso demorar muito para que eu encontrasse um Urso-negro. Calculei que dois seriam suficientes para alguns dias de caminhada. Eu já havia drenado meu primeiro urso e agora esperava pelo segundo.
Escutei passos leves nas folhas, poderia ser um novo urso, então fiquei pronta para o ataque.
Para minha surpresa, não era um urso, mas tinha o tamanho de um. Era longo como um cachorro e tinha a altura de um cavalo de competição. Era como... Um lobo. Ainda havia um pouco de sangue em meus lábios quando vi o lobo correr para cima de mim.
Ele parecia incrivelmente rápido e furioso. Parecia que por algum motivo, eu era como uma presa para ele. Preferi me jogar no chão a ser pega pelo pescoço. Para a minha sorte, alguns trapos de meu vestido foram o suficiente para distraí-lo por um instante. Milímetros de diferença que poderiam me custar um braço ou até mesmo os dois.
Reagi. E consegui jogá-lo com violência contra as pedras do parque.
Então eu fugi sem esperar por um novo urso.
Estava muito escuro, então pude correr muito mais, continuei indo para o sul, mas dessa vez, me movimentei a leste.
Cerca de quatro dias depois avistei a ponte Golden Gate. Eu estava chegando a San Francisco. Atravessei a ponte, vaguei pelas ruas da cidade. Eu ameaçava a ficar com fome novamente. O sol parecia queimar a minha pele clara, foi quando tudo começou a ficar muito, muito escuro.
Estava prestes a cair quando alguém me segurou. Um rapaz muito alto, moreno e de cabelo curto e muito escuro.
- Opa. – Ele disse ao me segurar e então me colocar de pé. – Está se sentindo bem?
- Estou, claro! – Tentei me recuperar.
- Tudo bem.
Ele me largou. Tentei dar mais alguns passos, mas cambaleei.
- Você não parece bem. – Agora ele estava do meu lado, me segurando novamente.
- Talvez eu não esteja...
- Onde é a sua casa?
- Não tenho casa. Sou andarilha.
“A que ponto cheguei”. Pensei.
Ele franziu a testa por um momento e então sua expressão se suavizou.
- Eu te levo pro meu apartamento. Não é longe daqui.
- Tudo bem. – Eu estava receosa, mas na verdade, não tinha nada a perder.
Ele morava no campus de uma universidade. Confesso que passar pelos seguranças não foi fácil, mas ao que tudo indicava, eu fora confundida com uma caloura.
- Lar, doce lar! – Ele disse respirando forte e abrindo os pulmões ao abrir a porta.
Entrei timidamente. Respirei fundo. Aquele lugar tinha um cheiro horrível. Cheirava a cachorro molhado.
Olhei em volta. Roupas jogadas no sofá, uma embalagem de pizza aberta jogada numa mesinha. O telefone fora do gancho e a televisão ligada.
Capitulo 6 – Em casa de estranhos
- Não repare na bagunça.
“Difícil não reparar!”. Pensei.
- Você se sente melhor? – Ele disse ao caminhar para a cozinha.
- Um pouco. – Eu o segui.
A cozinha não era grande, e assim como a sala, ela estava bagunçada. Panelas engorduradas jogadas em cima da pia, o microondas aberto, a mesa ainda tinha pratos.
- Precisa de alguma coisa? – Ele disse enquanto lavava um copo.
- De um banho. – Suspirei ingenuamente.
- O banheiro é a primeira porta da esquerda. – Ele apontou com o copo ensaboado na mão.
- Tudo bem.
Se a sala e a cozinha eram daquele jeito, eu não gostaria de imaginar o banheiro.
Peguei minhas coisas na mala. Até que o banheiro não estava mal, ele só não tinha água quente.
Saí do banho com uma roupa nova e carregando o que restou do vestido de noiva em minhas mãos.
- Hm... Vai querer colocar isso para lavar? – Ele apontou para o vestido sujo e rasgado.
- Não... Eu vou jogar fora.
Era o mínimo que eu podia fazer agora.
- Está com fome? – Ele mudou de assunto.
- Sim. Muita.
- Era de se imaginar. – Ele trouxe um prato com bacon e ovos mexidos – Você deve ter andado por dias.
Fiz minha refeição em silêncio, sentada num canto da poltrona cinza, de frente para a televisão.
- Que falta de educação a minha... – Ele sorriu – Meu nome é Manu Nakana. – Ele estendeu a mão.
- O meu é Reneé. – Omiti meu sobrenome e estendi a mão.
Ao apertar a mão dele, senti algo estranho. Ou eu estava delirando, ou ele estava muito quente. Era muito mais provável que fosse um delírio meu.
- Manu é um belo nome. – Sorri.
- Significa “amigo” em havaiano. – Ele retribuiu o sorriso.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, ele começou a recolher as roupas no sofá. Eu me levantei para ajudá-lo.
Então percebi: pares de sapatos diferentes, camisas rasgadas e retalhos por todo lado. Não interferi.
- De onde você veio? – Ele disse ao enrolar tudo numa trouxa.
- De muito longe. Sou uma andarilha... – Eu disse ao fazer uma trouxa de roupas.
- Você tem família? – Ele se aproximou.
Eu não disse nada, apenas o entreguei minha trouxa.
Eu já estava me acostumando com o cheiro forte, mas agora ele era intenso.
Ouvi uma conversa alta no corredor.
- Eu disse! Owena é o cara! Vocês viram o gol que ele fez? – Uma voz grave iniciou a conversa
- Puxa saco. Foi só um golpe de sorte!
- Só to dizendo que ele é fera!
- Credo! – Uma voz mais fina interrompeu, parecia de um rapaz novo – Esse corredor está com cheiro de perfume de mulher!
- Temo que não seja isso, Iwin. – Uma voz de trovão interrompeu – Isso tem cheiro de...
Ao abrir a porta, o primeiro rapaz parou. Os outros pararam em seguida, perfeita sincronia. O primeiro rapaz parecia ser o que falou por ultimo, pois estava de boca aberta. Parece que minha presença o surpreendeu.
Eram quatro rapazes, muito semelhantes, todos altos, morenos e aparentavam ser muito fortes.
- Manu!! – O Ultimo rapaz tentou imitar a voz de trovão do primeiro.
- Palani, eu...
- Você está doido? Não pode trazer essa... Estranha para dentro do campus! – Os olhos dele incendiaram de raiva ao olhar para mim. Ele tremeu. O rapaz que estava à sua frente, virou-se para tentar acalmá-lo.
- Calma, Palani, eu explico! – Manu parecia assustado.
- Você vai precisar de uma explicação muito boa, Manu. – Aquilo não foi uma exclamação, mas poderia ter sido.
Todos os rapazes agora estavam no apartamento. O ultimo trancou a porta e pôs a chave no bolso.
- Palani tem razão, agora eu quero ouvir o que você tem a dizer. – O que parecia mais velho deu um passo à frente e cruzou os braços.
- Ela é andarilha. – Ele apontou para mim, indefesa no sofá. – Ela quase desmaiou na rua! Eu não podia deixá-la!
- Sua solidariedade me comove, Manu. – O ultimo cruzou os braços, o sarcasmo era evidente. Ele continuava prestando atenção em mim.
- Garotos, garotos... Não vamos perder o foco... – O terceiro rapaz se pôs entre os rapazes, estava um pouco receoso. – E você menina, o que tem a dizer? – Ele apontou com a cabeça para mim.
- Eu não quis incomodar...
- Pode nos contar um pouco sobre como você chegou aqui? – Ele se aproximou – Não tenha medo. Não vamos machucá-la.
- Eu andei por dias, passei muita fome na estrada. Estava fraca. – O medo ajudou a reforçar minha fragilidade.
O rapaz balançou a cabeça e virou-se para os outros.
- Não seria mal se ela ficasse alguns dias conosco.
- Você está certo. – O mais jovem concordou. – Desde que ela faça por onde merecer a estadia.
- E nós estamos mesmo precisando de uma empregada. – O ultimo sorriu maliciosamente enquanto me fitava.
“Antes empregada do que morta”. Eu pensei.
- Bem... Acho que não nos apresentamos formalmente. – O mais velho veio em minha direção. – Meu nome é Kimo Ikaika. Eu sou meio que o líder aqui... Afinal, eu é que pago as contas dessa casa. – Ele sorriu.
Ele parecia mais velho e sério, mas seu rosto era muito suave e jovem quando sorria.
- Este – Ele continuou, puxando o garoto mais novo. – é meu irmão, Iwin Ikaika. Ele ainda está no ensino médio. – Ele disse passando a mão na cabeça do irmão. – Mas breve vai se juntar ao time da faculdade, não é rapazes?
- É claro! – Eles disseram em coro. Era como o som de um trovão rasgando o céu.
- Esse brincalhão aí – Ele disse apontando para o rapaz que outrora intercedeu pela minha permanência – É Owena Mansur. Grande astro do futebol, gosta de curtir a vida, vive cheio de garotas. Cuidado com ele.
Todos riram.
- Bom, como eu acho que você e Manu já foram apresentados, então, bem, aquele ali – Ele apontou para o último, um rapaz que parecia extremamente incomodado comigo - é Palani Wapasha. Ele é... Gente boa.
Aquilo não parecia convincente.
Capitulo 7 – Pesadelo
Eles olhavam para mim – com exceção de Manu e Kimo – como se eu fosse capaz de fazer algum mal a eles. Passei a tarde arrumando a casa, isso me mantinha bastante ocupada. Os garotos não tinham aula. Eu não tinha mais a noção dos dias. Nem percebi que aquele era um domingo.
No começo da noite, quando terminei meus afazeres, me juntei aos garotos na sala para assistir à televisão. A poltrona estava ocupada por eles, então me sentei no chão.
Os garotos estavam inquietos.
- Um lanche seria muito bom agora. – Palani começou.
- Cara, você acabou de lanchar! – Iwin parecia alienado, mas mesmo assim, incomodado.
- Tudo bem, eu faço algo para vocês. – Eu me levantei.
- Eu ajudo! – Manu me levantou, indo comigo até a cozinha.
Agora tudo estava arrumado. Nada como um toque feminino.
Mas por onde começar? Eu nunca preparei nada!
- Você parece um pouco perdida. – Ele percebeu.
- Um pouco. Não conheço as preferências dos seus amigos. – Disfarcei.
- Ao contrário do que pode parecer, eles gostam de salada. – Ele brincou.
- Tudo bem. – Eu me dirigi a geladeira.
Peguei alface e alguns tomates.
Eu lavava os alimentos e Manu cortava-os. Quando terminei de lavar o que restava de alimentos, me virei para a mesa. Vi Manu limpar a mão na beira da camisa, vi um pingo de sangue.
Coloquei os alimentos na bandeja e segurei na mão quente de Manu.
- Você se machucou. – Eu disse enquanto examinava as mãos dele.
- Não é nada. – Ele retirou a mão rapidamente e a colocou no bolso da calça jeans.
- Claro que é! – Eu peguei a mão dele novamente.
Mas o machucado parecia ter sumido.
Meus olhos se arregalaram e ele escondeu a mão no bolso novamente.
- Pode continuar? – Ele sugeriu.
- Sim, eu continuo.
E eu continuei. Entreguei o lanche dos garotos.
Fiquei um pouco assustada, as porções grandes de salada haviam acabado muito rápido.
Pouco tempo depois, senti meu corpo pesar, era o sono.
Eu não havia dormido enquanto estava na estrada.
- Se não for incômodo, eu gostaria de poder dormir no sofá. – Eu não estava a fim de incomodar.
- Você não vai dormir no sofá. – Kimo retrucou.
- Onde então? – Eu olhava um pouco receosa de que eles me mandassem para a rua.
- Eu vou desocupar meu quarto. Pode ficar nele.
- Mas...
- Sem problemas! – Ele bloqueou.
- Obrigada, Kimo. – Sorri sinceramente.
Depois que ele tirou todas as coisas do quarto, eu entrei.
Havia uma cama grande e uma cômoda pequena. A cama ocupava a maior parte do quarto.
Esvaziei minha mala e troquei de roupa. Coloquei uma camisola rosa, aquele fora o presente de casamento dado por Alice. Aquilo não só me trazia lembranças divertidas, como lembranças desagradáveis. Refleti por um momento se eu seria capaz de esquecer tudo aquilo um dia. Bom, eu ainda tinha toda a eternidade pela frente...
Deitei na cama. O colchão era fino, pouco denso. E, além disso, fedia a cachorro. Me perguntei se por um acaso eles tinham algum animal e não me contaram.
Apesar de tudo isso, dormi rapidamente.
Dormi e sonhei.
O pesadelo da minha noite de casamento se repetiu. Mas dessa vez eu não acordei. Não fui capaz. Os uivos prosseguiram. Estava frágil no chão quando a minha destruição cessou. Virei os olhos, de forma tão fraca que não podia ver quase nada. Mas vi o suficiente para saber que uma alcatéia estava atacando Michaelo. E ele estava sendo destruído.
Acordei chorando, Manu estava na porta.
- O que há? – Manu olhou preocupado para mim.
Não respondi.
Manu sentou-se ao meu lado. Continuei em choque.
Ele delicadamente tentou me puxar para perto de si. Me afastei.
- Pode falar. – Ele começou. – O que houve?
- Só um pesadelo...
Ele me puxou para si, ignorando minhas objeções. A sensação de calor era indescritível.
- Você pode não querer me contar. Mas eu sei que está com medo. – Ele disse enquanto me segurava.
- Muito. – Confessei.
- Isso, continue... Do que estava com medo?
Não respondi. Provoquei o choro para que então ele se abstivesse de qualquer pergunta.
Ele simplesmente me abraçou.
- Você agora vai ter um amigo com quem sempre poderá contar. – Ele falou.
Permaneci como estava, até que o sono me encontrasse.
Capitulo 8 – Lembranças Intrigantes
Escutei o despertador tocar, me levantei, tomei um banho. Eu já sabia o que tinha que fazer: Trabalhar.
Era segunda-feira e os rapazes tinham aula. Preparei o café. O primeiro a acordar foi Manu.
- Bom dia – Ele entrou na cozinha a passos largos.
- Bom dia.
- Conseguiu dormir?
- Não, o colchão estava pouco denso.
- Entendo. – Ele parou por um instante. – Kimo ganhou muita massa nos últimos meses, talvez seja por isso, a densidade diminui bastante... Mas não se preocupe, arrumarei um novo!
- Não se incomode!
- Cortesia da casa. – Ele sorriu.
Aos poucos, os meninos foram acordando, tomando café e saindo para estudar.
Fiquei sozinha. Assim que terminei de preparar o almoço, fiz a minha ronda pelo apartamento. Cada cômodo tinha um calor próprio, era em si, muito acolhedor. Isso me trazia lembranças. Ver a cidade crescer através das janelas me lembrava de Blair, seu ritmo agitado e teimoso. Ver a calma com a qual algumas pessoas andavam lá embaixo me lembrava da mesma paciência que Lucy e Alex tiveram comigo por todos esses anos.
O clima nostálgico me invadiu.
Percebi que estava me rendendo às lágrimas quando ouvi passos no corredor e então a porta se abriu. Era Iwin. Ele parecia alienado, não dava muita atenção à sua volta. Parecia um morto-vivo.
- Iwin? – Eu disse duvidosa. – Chegou cedo.
- Ainda estou no ensino médio. – Ele disse num tom monótono. Largou a mochila e sentou-se no sofá, ligou a televisão com o controle e parecia não prestar atenção em mais nada.
- Ah. – Eu não tinha o que dizer.
Fui até o quarto, e deitei na cama. Eu fitava o teto tentando não me render às lembranças e às lágrimas.
Minutos depois escutei as vozes dos rapazes. Eles estavam de volta.
Vi Manu parado na porta do quarto.
- Você está bem? – Ele olhava receoso.
- Estou. – Eu disse ao chegar à frente dele.
- Não vai almoçar conosco? – Ele disse ao passar a mão quente em meu rosto e remover uma lágrima.
- Vou. – Eu sorri, sem jeito.
Ao chegar à cozinha, os rapazes já estavam desfrutando do almoço.
- Espero que tenham deixado algo para nós. – Manu disse com um pouco de raiva.
- Só tem salada agora, Manu. – Palani disse de boca cheia enquanto enchia seu prato.
- Hmpf. – Ele Bufou enquanto fazia o prato – Já estou pensando na possibilidade de me transformar numa zebra.
Isso provocou risos nos rapazes. Eu não havia entendido a piada.
Os rapazes terminaram a refeição antes que eu sequer começasse, deixando muita coisa para lavar.
Enquanto eu lavava os pratos não pude deixar de lembrar dos momentos de minha ascensão à nova vida em Forks. Valeria, Peter, Alex, Lucy.... Eu... Os últimos anos passaram como um flashback em minha mente. Os últimos dias também. Lembranças amargas e intrigantes. Os pesadelos, o Lobo em Yosemite, os momentos de pânico. Nas imagens avulsas, soltas pela minha mente, uma cena insignificante tomou a minha atenção naquele momento. A gota de sangue na camiseta de Manu.
Como era possível um machucado cicatrizar tão rápido? Quase imediatamente? Aquela era uma lembrança muito intrigante. Eu não conseguia entender como. O calor, aquilo também era intrigante. Eu poderia jurar que era quente demais até para mim, que possuía uma temperatura corporal normal. Sem contar da forte impressão que não havia abandonado meu consciente. Eu estava cada vez mais conhecida de que havia um animal naquele apartamento.
Como um raio atravessando o céu, uma idéia surgiu em minha mente. Eu colocaria minhas Lembranças Intrigantes à prova.
Capitulo 9 – O monstro de Yosemite
Naquela noite, após o jantar, eu tinha muito que fazer.
- Eu posso ajudar. – Manu se ofereceu.
- Obrigada. – Eu sorri sem jeito.
Era a chance que eu tinha para colocar minhas lembranças à prova. Quando só restavam os talheres para serem guardados, pus o meu plano em prática: Provocar um machucado acidental.
Então deixei a ponta de uma das facas mais saliente do que as outras. Palani me fitava da sala. Tentei fazer com que aquilo não parecesse proposital.
- Ops. – Eu disse ao passar ao seu lado e acidentalmente criar um corte em Manu. – Me desculpe.
- Não foi nada. – Ele rapidamente colocou uma toalha em volta do braço.
A toalha ensangüentou rapidamente.
Comecei a sentir o impulso da sede.
- Me desculpe por isso. – Eu repeti.
- Não precisa se desculpar por isso. – Ele disse com cara de dor enquanto encarava a toalha ensangüentada. – Vou ficar bem.
Tentei prestar mais atenção no machucado para perceber qualquer alteração.
Ouvi um rosnado forte.
E antes que eu pudesse fazer algo, estava sendo prensada contra o armário por um... Lobo.
O lobo tinha o estranho tom avermelhado nos pêlos. Era estranho também o fato de que ele fosse familiar para mim. Sim, era um dos lobos do meu sonho. Mas ia muito além disso.
Eu não sabia o que fazer, estava em desvantagem. A minha força de reação era nula comparada à dele. Peguei um facão pra tentar qualquer ação intimatória. Ele se afastou de mim. Eu larguei o facão no chão da cozinha e parti para o ataque.
Consegui tomar o controle e arremessá-lo contra a parede. Parte da parede foi quebrada. Nada que não pudesse ser disfarçado com uma estante grande.
Os rapazes estavam atônitos.
Fitei o lobo deslizar pela parede. Me afastei. Quando no chão, pude ver a mutação acontecendo. Toda aquela massa e aqueles pêlos desaparecendo e dando lugar a uma forma não menos frágil, mas humana. Palani era o lobo de Yosemite. Foi um tanto pavoroso perceber que suas roupas já não existiam mais.
- Você é o lobo de Yosemite! – Eu exclamei, tampando os olhos.
- Sua sanguessuga! – Ele não se preocupava em exclamar o mais alto que pudesse. – O que você pretendia? Drenar o sangue de Manu na nossa frente e dizer que ele teve uma grande hemorragia?
- Acalmem-se, ou o síndico vai aparecer por aqui. – A voz de Kimo era baixa, mas ainda sim, lembrava um trovão. – Iwin, vá pegar roupas para Palani.
Permaneci de olhos fechados e com a mão na frente do rosto até que me dissessem que Palani estava vestido.
- Agora, vamos conversar civilizadamente. De pessoa para pessoa. – Kimo acalmou os ânimos.
Tentei respirar.
- Por onde começar... – Ele estava um pouco indeciso com tanto assunto à sua frente.
- Bem, Reneé... Você é mesmo san... Vampira? – Owena tomou a palavra.
- Meio-imortal, para ser exata.
- Como isso é possível? – Owena parecia interessado.
- Minha mãe era humana; meu pai, imortal, e eu sou o resultado disso.
- Seus pais sabem que... – Kimo começou.
- Meus pais biológicos já não existem mais – suspirei –. Fui adotada por dois vampiros quando recém-nascida. Eles me criaram como humana.
- Uau. – Owena estava surpreso. – Então como você chegou aqui?
- Estava prestes a me casar, mas na véspera... – Eu mostrei minha cicatriz e não agüentei, comecei a chorar.
Manu se aproximou e me abraçou.
- Não precisa contar se não quiser. – Ele me consolou.
- Ele sempre quis me matar! Nunca gostou de mim de verdade! E eu nunca fui capaz de perceber! Estava tão cega! – Eu estava alterada, e chorando.
Os rapazes pareciam ter ouvido alguma coisa.
- O síndico vem aí! – Owena disse um tanto assustado.
- Reneé, vá para o quarto, rápido! E não saia de lá até que eu diga que pode sair! – Manu estava apressado.
Ao chegar no quarto, pude ouvir toda a conversa na sala.
- O que se passa aqui, rapazes? – Aquela era a voz do síndico – Posso ouvir as vozes de vocês por todo o prédio!
- Minhas desculpas, Sr. Hilton. – Kimo estava formal – Estamos ensaiando para a peça de Iwin.
- Sabe como é, o grande dia está chegando. – Palani pareceu querer distraí-lo.
- Oh claro. – Ele deu uma risada – Mas da próxima vez, não ensaiem tão alto.
- Tomaremos mais cuidado. – Kimo estava um pouco tenso.
Ouvi a porta ser fechada. E logo, Manu estava na porta do quarto.
- O Sr. Hilton pensa que Iwin é um ator iniciante. – Ele riu da própria mentira.
Eu sorri, mesmo com lágrimas no rosto.
- Não chore mais. – Ele disse ao sentar-se do meu lado e me inclinar para que eu apoiasse minha cabeça em sua perna – Já passou. – Ele afagou meu rosto.
Eu solucei.
- Não há o que temer. Você é parte da família agora.
Sorri um pouco. Era bom saber que pelo menos uma pessoa me protegeria nesse mundo.
Logo, os rapazes estavam no meu quarto.
- Acho bom que tenhamos uma conversa rápida. – Kimo começou. A face rígida.
- Sobre...? – Murmurei.
- Você. – Manu tranqüilizou.
- Eu? – Perguntei assustada, no escuro.
- É. – Pude ouvir Owena.
- Agora que nós sabemos o que você é, nos resta saber o que fazer com você. – A voz de Palani era assustadoramente ácida.
- Eu... Eu... Nunca faria mal a ninguém. – Isso era uma meia verdade.
- Tem certeza? – Palani induziu meu pensamento a onde ele queria chegar.
Minha expressão mudou e eu sabia que ele tinha visto.
- Por mais que seja difícil de aceitar, Palani está certo. Não posso assumir a responsabilidade sobre você se não tiver certeza de que você irá se comportar.
- Eu não faria mal a nenhum de vocês. – Mudei meu raciocínio enquanto olhava piedosamente para Manu.
- Ela pode estar mentindo. – Iwin disse de com sua expressão morta, feito um zumbi à meia-luz.
- É. Não temos como ler a mente dela para ter certeza. – Palani cruzou os braços.
Grunhi. Se eu não pudesse ficar por ali, para onde eu iria?
Por um instante pensei na possibilidade de me tornar uma nômade... Carnívora.
Delicadamente, Manu me levantou um pouco para que ele então pudesse ficar de pé.
- Eu tomo a responsabilidade sobre ela.
Arregalei os olhos.
- O que? – Iwin estava tão surpreso quanto eu. – Está ficando maluco?
- Essa é a minha decisão, rapazes. Eu assumo a responsabilidade por ela. Se ela ousar em cometer algum deslize, que sua punição caia sobre mim também.
Não, eu não podia estar ouvindo aquilo.
- Então está bem, Manu. Posso sentir que você está sendo sincero. – Kimo apertou as mãos de Manu.
Manu assentiu levemente.
- Vamos, rapazes, já está tarde. – Kimo disse enquanto sinalizava para que os rapazes pudessem sair do quarto.
- E a nossa patrulha? – Owena perguntou assustado.
- Pode esperar por hoje. – Kimo disse com a voz um poço cansada, talvez tentando reorganizar as idéias em sua mente. – Não faríamos um bom trabalho no estado em que nos encontramos.
Capitulo 10 – Reunião
- Reunião? Que reunião? – Eu disse enquanto lavava os pratos.
- É como uma reunião de família. Nós vamos contar nossas coisas de lobo e nada mais. – Manu parecia tão sincero que isso chegava a me assustar.
- Por que isso é tão importante? – Eu continuava lavando os pratos.
- Se você está conosco, tem que entender o que acontece.
- Tudo bem, onde vai ser a reunião? – Eu havia desistido de tentar me manter por fora.
- Aqui mesmo. Daqui a pouco.
- Daqui a pouco? – Arregalei os olhos e parei de lavar os pratos mecanicamente.
- Sim. Só estamos esperando uma pessoa.
- Esperando por quem? – Eu não sabia o que sentia naquele momento.
A campainha tocou.
Kimo atravessou a sala correndo, como um cachorro faminto quando vê sua refeição.
- Aí vem a deusa... – Palani disse entre risos.
Kimo abriu a porta com um largo sorriso no rosto. Palani estava certo quando usou a palavra deusa para se referir a ela...
Ela era linda. Alta e morena. Tinha o cabelo de cor bronze. Parecia uma modelo. Tinha o cabelo cacheado e armado numa espécie de pequeno black-power. Usava um vestido de verão colorido, sandálias baixas, muitos acessórios e uma flor amarela no cabelo.
- Uau. – Era tudo o que eu conseguira dizer agora.
- Venha, Lua. – Kimo a tomou pelo braço, numa doçura incrível.
Ela sorriu.
- Olha só, se não é a dona que veio cuidar do cachorrinho! – Palani provocou.
- Você diz isso por que não achou sua dona... – Kimo rosnou, mesmo sorrindo. – Quando você encontrar, terei o prazer de provocá-lo.
- Vai sonhando, Kimo...
- Meninos, por favor... – Ela interrompeu com a voz mais doce que eu já havia ouvido.
Eles ficaram em silêncio.
- Afinal, por que me chamaram até aqui? – Ela tinha uma expressão calma.
- Temos que te apresentar o mais novo membro da nossa família! – Kimo sorriu.
- Quem? – Ela olhou para os lados.
Os rapazes apontaram para mim, à frente dela.
- Oh. – Ela olhou surpresa. – Olá. Eu me chamo Lua. E você?
- Reneé.
Ela me fitou por alguns instantes, mas não disse nada.
Nos reunimos na mesa. Lua e Kimo sentavam nas pontas, em seguida, Iwin, Owena, Manu, Palani e eu. Eu não entendia a ordem.
Eles a explicaram sobre mim. Lua parecia surpresa.
- Lua, você por acaso é uma... Loba? – Eu disse para satisfazer minha curiosidade.
Ela riu.
- Não, eu não sou...
- Então como você...
- Nós a explicaremos, Reneé. – Kimo foi paciente.
Parei para prestar atenção.
- Explicarei desde os nossos antepassados. – Ele estava sério, agora. – Nossos antepassados não eram indígenas naturalmente havaianos. Nossos antepassados mais distantes vieram da península Olympic. De um lugar hoje chamado La Push.
- La Push? A reserva de La Push? – Era uma grande coincidência.
- Sim. Durante um ataque de Frios em massa, poucos nativos conseguiram escapar com suas embarcações. – Ele fez uma pequena pausa. – Foram esses nativos que fundaram um pequeno vilarejo no Havaí. Infelizmente, muitos de nós perdemos nossas identidades originais através das gerações. Então, todos adotamos nomes e sobrenomes Havaianos.
- Uau. – Eu estava surpresa.
- Por muitos anos, ficamos sem lobos na nossa pequena tribo. Afinal, o Havaí era o lugar perfeito para nós que queríamos manter distância dos frios.
- Mas tudo mudou nos últimos quatro anos. – Owena interrompeu.
Enquanto Kimo relatava, cada fato passava diante dos meus olhos, era como se eu estivesse presenciando aquilo. Owena me tirou desses pensamentos. Passei os olhos pela mesa, examinei cada um. Eles esperavam pela minha reação. Exceto Iwin, que estava debruçado sobre a mesa, com o rosto fora do meu campo de visão. Ele não parecia bem.
- O que aconteceu nos últimos quatro anos? – Indaguei.
- Um casal de frios chegou até a nossa região. Isso provocou transformações em nós. Eu fui o primeiro. – Kimo parecia lembrar-se dos fatos com nitidez – Felizmente, não tivemos grandes problemas com os frios. Só não sabemos até quando.
- Se é tarefa dos lobisomens confrontarem os vampiros, por que vocês estão aqui?
- Nós, bem... Além de lobos, somos todos humanos. Um dia nós iremos seguir nossas carreiras profissionais, e... – Ele não parecia convincente. – Na verdade, estamos tendo problemas com eles.
Engoli seco.
- A população de frios tem subido nos últimos quatro anos. Os confrontos que eram gerados entre alguns lobos novos e recém-nascidos causavam prejuízos à nossa tribo, por isso nós fomos mandados para longe. Mas mantemos o contato com nossa tribo constantemente.
- E como anda a situação por lá? – Eu estava preocupada.
- Os conflitos cessaram há cerca de dois anos. Mas as ameaças são constantes. Não sabemos onde eles estão escondidos, eles parecem saber muito bem como camuflar o cheiro deles. – Palani explicou com um pouco de raiva no olhar.
- Toda a tribo sofre ameaças?
- Não, só os humanos, digo, os que não se transformam. Os frios os usam como forma de nos alertar que eles estão à espreita.
Abaixei a cabeça. Estava com vergonha da minha espécie.
- Mas sabe, você nos fez perceber que nem todos eles são maus. – Manu disse carinhosamente.
- E... Quanto à Lua, por que ela sabe disso tudo? – Mudei de assunto.
- Eu sofri imprinting com ela.
- Imp... O quê?
- Imprinting. É uma coisa de lobo. Como um amor à primeira vista, só que muito mais forte. Assim, podemos contar nosso segredo à pessoa com a qual sofremos imprinting.
- Uau. – Era a única coisa que eu poderia dizer.
- E quanto a ele...? – Eu apontei para Iwin, que continuava debruçado na mesa.
- Ele anda sofrendo uma espécie de preparação interior... A transformação dele deve estar muito próxima. É por isso que ele anda assim...
- Feito um morto-vivo. – Palani completou.
- Ele parece não gostar disso... – Observei receosa.
- Ele não quer. Mas infelizmente, ele é o segundo na linha de sucessão da tribo. – Kimo desabafou
- O segundo?!
- Sim. Por que acha que estamos todos sentados nessa ordem? – Ele gesticulou para a mesa.
Fitei sem dizer nada.
- É hierárquico. – Manu respondeu.
- Isso é muita informação para uma única noite.
- Agora você pode nos entender, certo? – Pela primeira vez Palani pareceu baixar a guarda.
- Estou fazendo o possível. – E realmente estava. Era muita informação a respeito deles.
- Você... Disse que conhecia os lobos de La Push... – Kimo comentou curioso.
- Não realmente. Eu não era muito fã deles. – Torci levemente o nariz – Mas meus... – engasguei mentalmente – pais...
Eles são bem experientes, conhecem muito deles. Ou ao menos eram. – Corrigi de imediato.
- Nunca manteve nenhum tipo de contato com eles? – Owena também estava curioso.
- Acho que nunca tentei. – Confessei. – Acho que isso não ajuda muito, não é? Me desculpe.
- Não há problema. – Kimo interrompeu – Já é bom saber que ainda não estamos sozinhos.
Capitulo 11 – Linei
O telefone tocou. Kimo levantou num pulo, atendeu ao telefone e respondia calmamente com as expressões “Sim” e “entendo”. Mas ele parecia preocupado.
- Tudo bem. Eu vou. Tchau. – Ele respondeu pela ultima vez e então colocou o telefone no gancho.
Ele se voltou para nós e olhou sério.
- Rapazes... E garotas... – Ele fez uma pausa maior do que a necessária – Vou me ausentar por alguns dias.
- Por quê, o que há? – Palani ficou nervoso.
- Tenho que buscar Linei Ikaika. – Ele disse um pouco tenso.
- Está falando da... Nossa pequena lobinha? – Manu e Owena ficaram nervosos também.
- Acalmem-se, rapazes, ele deve ter algo mais a dizer. – Lua se manifestou, levantando da mesa.
- E tenho. – Ele pausou – Os frios voltaram a ameaçar. Meus avós acham que é melhor que ela esteja conosco. Ela é um alvo muito fácil para eles.
- Ela é uma humana frágil? – Indaguei.
Os rapazes olharam com receio.
- Não. – Kimo disse para mim, confiante. – Linei, por ser minha irmã, ela pode... – Ele mordeu os lábios, fechou os olhos e as mãos em punho.
Então, abriu os olhos e disse angustiado.
- Ela pode vir a se tornar uma loba!
Isso foi um choque. Como isso era possível?
- Ela já tem idade para se transformar? – Eu disse preocupada, imaginando um lobo sair de dentro de uma garota. Era uma imagem um tanto perturbadora.
- Não, ela tem sete anos ainda. Mas não deixa de ser um alvo fácil. – Palani respondeu.
- E, além disso, a alcatéia está aumentando surpreendentemente. Meus avós temem que ela seja a próxima. Já ouve casos de garotos de treze anos se transformarem... Isso realmente me perturba.
- Quando você vai embora? – Lua perguntou com preocupação evidente.
- O quanto antes. Se possível, ainda hoje.
- Já é tarde. – Eu lembrei.
- Se eu não me apressar, aí sim, será tarde demais. – Ele disse num tom ácido. – Vou embora agora. – Ele tremeu.
- Cuidado, Kimo... – Lua tentou acamá-lo. – Pode ir agora, não se preocupe conosco. – Ela fitou rapidamente todos nós. – Reneé e eu cuidaremos de tudo! – Ela olhou para mim – Não é?
- S-sim. É claro.
Kimo relaxou. E saiu.
* * *
- Vamos lá, rapazes! Ajudem, por favor! – Lua e eu gritávamos em coro, implorando pela cooperação dos rapazes.
- Estamos fazendo a nossa parte. – Owena e Palani disseram enquanto empurravam os sofás com facilidade.
- Por ali! Por ali! – Lua apontava assustada.
- Onde? – Manu estava confuso.
- À sua direita, Manu! – Eu gritei, quando subi no sofá.
- Ah... Estão falando desse ratinho? – Ele pegou o rato pelo rabo como se fosse a coisa mais natural do mundo.
- Tire esse bicho horroroso daqui! – Lua gritava histérica.
- Não entendo. Depois de tantas coisas horrorosas que vocês já presenciaram, vocês ficam com medo desse ratinho?
Eles riram.
- Por favor, tirem esse rato daqui. – Implorei.
- Tudo bem, suas choronas. Eu o tiro daqui. Vamos, Frederico, elas não desejam a sua presença por aqui. – Manu disse enquanto passava pela porta carregando o roedor.
- O rato se chama Frederico, ou é uma impressão minha? – Eu disse ao descer do sofá.
- Foi o nome que o calouro deu pra ele. – Owena ria incessantemente.
- Calouros... Pfft, quem consegue entendê-los? – Bufei de braços cruzados.
Os rapazes riram outra vez.
Fazia uma semana que Kimo havia saído de casa. Sob a promessa de que cuidaríamos da casa como se ela fosse nossa, Lua e eu ao menos tentamos...
O telefone tocou. Palani atendeu.
- Alô... Oi, Kimo!... Que ótimo! Tudo bem, eu digo. Esperamos você!
Todos fitamos Palani.
- Kimo disse que acabou de chegar, está no aeroporto. Deve chegar em menos de trinta minutos.
- Oh meu deus! Vamos arrumar essa casa! – Eu disse histérica.
Não demoramos em arrumar a casa toda. Agora o apartamento estava tão arrumado quanto fora deixado.
Em pouco tempo, ouvimos que alguém vinha pelo corredor.
E logo, Kimo abriu a porta. Linei estava com ele.
Ela era linda. Era pequena, tinha a pele morena, assim como Kimo, tinha o cabelo preto, longo e liso. Seus olhos tinham cor de chocolate. Ela parecia frágil e amedrontada. Olhou para todos nós com um pouco de receio. Então seus olhos se encontraram com os meus.
Sua face se suavizou num leve sorriso, seus dentes brancos ficaram à mostra.
Ela correu até mim e se segurou em minha perna.
Todos olhavam sem saber o que dizer.
- Vamos lá, Kimo! Conte como foi a viagem! – Owena disse casualmente, enquanto o arrastava para a cozinha junto com os outros rapazes.
Linei permaneceu ao meu lado.
- Qual o seu nome? – Ela perguntou com uma voz meiga.
- Reneé. E o seu? – Eu perguntei como se ainda não soubesse.
- Linei. – Ela sorriu e seus olhos brilharam por um instante.
– Uau, você tem olhos vermelhos... – Ela fitava meus olhos com certa admiração.
- Gosta dessa cor? – Perguntei espantada. Fazia dias que eu não me alimentava de sangue.
- Não. Mas a cor é linda. – Ela sorriu.
- Sabe que terá que passar um tempo aqui, não sabe?
- Sei... – Sua face infantil entristeceu-se rapidamente. – Tenho saudades de casa, do papai e da mamãe... Mas a vovó disse que eles não vão mais voltar. – Ela estava choramingando.
Eu a abracei, reconfortando-a.
- Reneé... – Ela se moveu e agora olhava nos meus olhos.
- Diga... – Eu estava sendo compreensiva.
- Quer ser a minha mãe?
Eu fitei surpresa.
- Por favor... – Ela implorou.
Eu não disse nada, apenas a encostei mais perto de mim.
Visto que provavelmente eu não poderia ter filhos, nunca pensei na possibilidade de ter um. Mas para mim, as crianças eram as coisas mais adoráveis com as quais se poderia lidar. Acho que isso poderia ser explicado pelo meu crescimento inumano e o pouco amadurecimento do lado infantil durante esse tempo. Crianças se dão bem com outras crianças, afinal.
Anoiteceu rápido, e os rapazes ainda estavam na cozinha. Linei sentiu-se sonolenta, então eu a carreguei nos braços e a levei para o quarto. Apareci rapidamente na cozinha.
- Até que enfim você ficou longe dela... – Manu disse num tom que não era próprio dele.
- Por quê?
- Você passou o dia todo com ela... – Palani completou.
- Isso é ciúme? – Assim que eu perguntei, eles olharam uns para os outros.
- Claro que não. – Disseram em coro.
- Claro que não é... É só minha imaginação... – Debochei e saí da cozinha.
Fui até a porta do quarto. Fiquei observando Linei enquanto dormia. Ela dormia sem problemas, sem preocupações. Um sono que eu desejava ter a muito tempo.
- Ela não parece um anjinho? - Manu sussurrou perto de mim.
- Sim... – Eu sussurrei. – Ela me perguntou se eu gostaria de ser a mãe dela...
- Você pode ser... Se quiser. – Ele murmurou.
- Eu quero... – Murmurei também.
Ele saiu, não pude ler sua reação.
Linei se mexeu, então, deixei o quarto para dormir no sofá.
Capítulo 12 – Imprinting
Acordei desconcertada no sofá.
O sol ainda não havia nascido, e eu estava mal-humorada.
- Por que afinal vocês me acordaram? – Eu estava procurando o culpado para dar-lhe uma boa mordida no pescoço.
- Precisamos de ajuda... – Manu estava sem expressão. Era difícil vê-lo assim.
- O que se... Oh! – Eu olhei assustada, para Iwin contorcendo-se no meio da sala. – O que há com ele?
- A hora dele chegou... – Kimo estava preocupado.
- A... Hora? Que hora? – Eu esfreguei os olhos, ainda sob o efeito do sono.
Então pude ver, em uma fração de segundos, um lobo negro, gigante e descontrolado no meio da sala.
- Oh... Meu... Deus! – Eu disse desesperada ao me levantar.
Iwin rosnou e se virou para mim.
- Calma aí, colega... Nós podemos conversar... – Tentei amenizar a tensão enquanto eu recuava.
Iwin estava descontrolado. Mostrou os dentes para mim e rosnou de forma violenta.
Pude ver Manu, Palani e Kimo se preparando para a transformação. Em um momento de pânico, o pudor já não importava muito.
Iwin estava prestes a avançar em meu pescoço quando os lobos o seguraram.
Corri para o quarto de Linei.
De lá, pude escutar tudo. E à medida que o som ficava mais próximo da porta do quarto, mais eu me aproximava de Linei. Eu queria protegê-la.
A porta abriu de repente. Eu já estava em posição de ataque, à frente da porta, quando vi Manu.
- Me desculpe, pensei que era Iwin... – Eu disse voltando ao normal.
- Na verdade... Eu só vim avisar que está tudo bem...
- Oh...
- Você parece querer realmente protegê-la.
- Mais do que eu posso explicar...
- Então venha comigo. – Ele sinalizou com a cabeça.
Eu fechei a porta com cuidado e o segui.
Estavam todos na cozinha, tomando café. Iwin estava com a face enterrada entre as mãos. Eu podia entendê-lo, mas não gostaria de arriscar a minha vida para consolá-lo.
- Rapazes... Ela disse que quer cuidar de Linei.
Eles olharam uns aos outros.
- Seria uma ótima idéia, Manu... Se ela não fosse uma Fria... – Palani restringiu.
- Não sou uma fria por completo. – Lembrei.
- Por acaso você sabe se controlar? – Palani provocou.
- Olha quem fala. – Eu debochei.
- Sanguessuga pela metade. – Ele alfinetou.
- Vira-lata do mato. – Retribuí.
- Calma, calma... Não vamos perder o foco... – Kimo interrompeu.
Bufei.
- Então, Reneé, você está mesmo disposta a cuidar de Linei? – Kimo prosseguiu.
- Mais do que eu posso explicar...
- Sabe dos riscos que corre, não é? – Kimo olhou sério. –
Terá uma batalha e tanto pela frente.
- Nem um risco é grande o suficiente pra me fazer desistir.
- Você fica com ela. Mas com uma condição: Terá de se casar com um dos lobos.
Arregalei os olhos.
- Casar? – Eu estava chocada.
- Sim. É a única condição que estou impondo.
- Mas que tipo de condição é essa afinal? – Eu estava nervosa.
- Estava pensando que nós daríamos um membro da nossa família para uma Fria assim tão facilmente? – Palani provocou.
- Como se casar surtisse efeito... – Debochei.
- Surte efeitos. – Manu intrometeu-se.
- Hã?
- Entenda, se dissermos que você está casando com um de nós por imprinting... Ninguém pode contestar esse casamento.
- Mas nenhum de vocês sofreu imprinting comigo...
- Nada que um bom fingimento não resolva... – Manu disse sorrindo. – Agora você só tem de escolher a um de nós...
Fitei cada um na cozinha.
Obviamente eu não escolheria Kimo. Nem Palani. Iwin parecia não gostar muito da minha presença na casa. Owena, apesar de ter se mostrado muito prestativo comigo, parecia não estar gostando muito dessa idéia. Então só me restava...
- M... Manu? – Sussurrei.
Ele sorriu e segurou a minha mão.
Um capítulo à parte
# Kimo Ikaika’s P.O.V #
Estava claro que ela não o amava. Nunca o amou e nunca o amaria.
Se ele ao menos tivesse um imprinting de verdade com ela, as coisas seriam mais fáceis.
A cada vez que eu me transformava, eu o ouvia.
“Ela diz que não quer casar agora” – Ele me mostrou mentalmente toda a cena de discussão.
“Dê tempo a ela, cara.” – Eu tranqüilizei. Não era bom com esse tipo de conselho.
“Quanto tempo? Estamos nisso há meses.” – Ele parecia angustiado.
“Você sabe que ela é teimosa. Deixe que ela entenda sozinha.” – Paciência não era uma característica típica de nós, lobos.
“Tenho medo de que ela nunca entenda” – Ele desabafou.
“Ela tem toda a eternidade para entender” – Brinquei.
“Mas eu não tenho” – Ele disse rabugento.
“Você também não está ajudando...” – Eu disse.
Não houve resposta. Ele havia voltado à sua forma humana.
Voltei à minha forma humana também, me vesti e fui até a casa de Lua. Ela era a única pessoa que me fazia esquecer dos meus problemas. Mas parece que dessa vez, foi uma tentativa frustrada de escapar da realidade.
- Desabafe. – Ela deslizou para o meu lado.
- Eu vim aqui para esquecer dos meus problemas.
- Se você lembrou de que tem que esquecê-los, talvez não deva.
- Tem razão.
- Como sempre... – Ela sorriu. – Então, diga.
- Manu está tendo problemas com Reneé.
- De novo? – Ela parecia entediada com isso, tanto quanto eu.
- Sim. Reneé não quer casar agora.
- Será que ela não percebe que quanto mais cedo se casar, mais cedo terá Linei?
- Provavelmente não. Ela é muito orgulhosa.
- Tanto quanto eu fui. – Ela suspirou.
- Acho que fui um tanto precipitado com essa história de imprinting...
- Não acho. – Ela sorriu. – Se não fosse por você, talvez eu nunca tivesse me divertido...
- Por quê? – Disse enquanto a abraçava e a puxava para mais perto.
- Gosto de ver o jeito com o qual os meus ex-namorados olham torto para você... – Ela riu.
Eu ri também. Até que em fim, um momento de distração.
Ela me olhou com más intenções.
Ou melhor... Dois momentos de distração.
# End of Kimo Ikaika’s P.O.V #
Capítulo 13 – Recaída
- Não demore, querida. – Manu sorriu ao me deixar na porta.
- Eu só vou caçar, não há nada demais. E por favor, não me chame assim. Só estamos fingindo.
- Precisamos ser realistas. – Ele provocou.
- Não agora. – Insisti.
- De qualquer modo, não demore... As passagens já estão compradas.
- Serei rápida.
Fiquei parada por um minuto, apenas o observando. Ele se aproveitou e encostou seu rosto quente no meu, dando um beijo em minha bochecha. Era agradável e ao mesmo tempo, repulsivo.
Ele me olhou com os olhos castanhos esperançosos.
Dei as costas deixei o apartamento.
Desci as escadas rapidamente, e logo estava em contato com a rua. . Eu parecia ter passado anos longe da sociedade, mas eu só havia passado meses. De certa forma, eu estava um pouco mais sociável do que há algum tempo atrás.
Eu havia me esquecido de como eu cintilava ao sol. Eu me sentia perfeitamente humana, fazia coisas humanas e me relacionava como humana. Os rapazes haviam me mudado completamente. Mas infelizmente, havia coisas das quais eu não podia escapar.
Andei a passos largos pela rua, as pessoas me olhavam frequentemente. Talvez essa fosse a única reação humana com a qual eu estava completamente desacostumada. Resolvi correr.
Meu plano era ir até o parque de Yosemite, como eu sempre fazia.
Mas tive de refazer meus planos. Era alta temporada e o parque estava cheio de turistas.
Eu não saberia quanto tempo eu poderia agüentar sem fazer alguma besteira. Decidir ir em direção ao noroeste. No primeiro lugar em que eu parasse, era onde eu faria a minha refeição.
Eu corria sem parar. Eu podia ter corrido um dia, dois ou três... Não sei ao certo. A concentração na corrida distraía a minha sede.
Mas agora sede já não podia esperar.
Parei.
Qualquer que fosse aquele lugar, era muito familiar para mim.
O céu estava coberto por uma espessa cortina de nuvens escuras, o ar era úmido, o chão estava molhado.
Eu estava de frente para a floresta.
Entrei e iniciei minha caçada. Leões da montanha, cervos e ursos... Eles não escaparam de mim dessa vez. A violência com a qual eu atacava os animais me fez pensar no que eu não faria se estivesse em Yosemite naquele momento.
Depois de saciada, prestei atenção à minhas roupas. Estavam rasgadas e ensangüentadas. Eu realmente não sabia como me comportar durante as refeições.
Tirei toda a roupa e a deixei no chão. Logo, peguei uma que eu carregava comigo, por precaução. Aquela roupa já tinha um cheiro próprio, um pouco do meu e dos lobos. Não era tão mal assim. Eu já estava acostumada com o cheiro deles.
Enterrei a roupa suja e me preparei para seguir viagem.
Escutei uma movimentação entre as folhas.
- Alguém aí? – Perguntei.
Nenhuma resposta.
Pude ouvir uma respiração profunda e nada mais. Saí correndo.
Quando tomei uma grande distância, percebi que estava na entrada de Forks.
- Forks?! – Eu perguntei a mim mesma, como se eu tivesse acabado de ser pega em flagrante. – Droga, eu não devia ter ido tão longe assim!
Era bom que eu fugisse enquanto pudesse. Eu não sabia o que poderia acontecer de agora em diante. Mas de uma coisa eu estava certa: seria tudo culpa minha.
Capitulo 14 – Havaí
Por que tanto entusiasmo? – Manu perguntava enquanto descia a escada.
- Não posso ficar feliz? – Eu disse abrindo um sorriso.
- Reneé, desde que você voltou da caçada, não parece a minha Reneé...
- E como era a sua Reneé? – Eu torci o nariz.
Ele sorriu e tentou me dar um beijo. Eu virei o rosto, ele se esquivou tímido.
- Me desculpe. – Ele sabia que eu não gostava disso.
- Não use nosso casamento como desculpa para abusos. – Eu cruzei os braços.
Ele riu.
- É assim que era a minha Reneé. Que bom saber que ela ainda está aí. – Ele riu de novo.
Kimo e Lua nos esperavam no táxi.
- Fico feliz por vocês finalmente decidirem viajar. – Lua sorriu.
- É. Eu pensei que nós fossemos viajar sozinhos outra vez. – Kimo completou.
- Vocês terão outras oportunidades... – Manu disse ao entrar no táxi junto comigo.
O motorista deu a partida.
- Não acredito que vocês sobreviveram a sete meses de... – Kimo pigarreou. – Noivado, namoro ou o que quer que seja.
- É verdade... Como eu pude sobreviver ao lado dela? – Manu riu alto enquanto segurava minha mão.
- Senhor motorista, poderia ser mais rápido? – Eu sugeri.
- Olha garota, não se pode correr a velocidades inumanas pelas ruas de São Francisco!
Nós rimos. Mas o motorista pareceu não entender a piada.
Ficamos em silêncio toda a viagem de carro até o aeroporto. De lá, pegamos um avião com destino ao Havaí.
Apoiei minha cabeça no ombro quente de Manu durante a viagem.
Ele pareceu gostar disso.
Kimo dormia em sua poltrona e Lua me fitava de um modo diferente. Havia algo nela que me fazia perguntar o porquê dela ser tão especial para os lobos.
Aterrissamos no Havaí.
- Lar, doce lar! – Kimo disse ao sair do avião. Ele parecia feliz, incrivelmente mais jovem. Provavelmente não estava usando sua máscara de serenidade.
- Vamos pegar um táxi, certo? – Eu disse enquanto pegava minhas malas.
Kimo riu alto.
- Está brincando? Nós vamos correndo!
- Correndo? Mas deve ser muito longe...
- Como se você não tivesse corrido distâncias maiores... – Manu debochou.
- Não é tão longe... Eu agüentei a corrida! – Lua disse com um sorriso iluminador.
- Podemos apostar quem é mais rápido... – Manu sugeriu.
- Ah, isso eu gostaria de ver. – Cruzei os braços.
- Duvida? – Kimo insinuou.
- Completamente.
Havia um senhor se aproximando. Ele acenou para nós.
- Que bom que duvida... – Kimo riu.
- Covarde. - Eu debochei.
- Manu! Kimo! – O senhor de pele clara e cabelos brancos, vinha se aproximando.
- Sr. Farell! – Kimo parecia conhecê-lo – Que surpresa!
- Essa era a intenção, meu rapaz. – Ele sorriu.
Fitei curiosa.
- Ah, sim... – Manu começou. – Reneé, esse é Jack Farell. Amigo da família.
- Muito prazer. Sou Reneé. – Estendi a mão para cumprimentá-lo.
- O prazer é todo meu. – Ele olhou para todos nós. – A propósito, meu carro está esperando por vocês.
Nós o seguimos.
Era uma caminhonete antiga e azul. Completamente desgastada pelo tempo. E além de tudo, tinha cheiro de peixe.
- Se importariam em ter que dividir a caminhonete com os peixes? – Ele disse ao abrir a porta da cabine.
- Claro que não! – Manu disse abrindo um sorriso largo.
- Só não vá comer os peixes, Manu...
- Sim senhor. – Ele riu.
Nós subimos na caminhonete. Era a primeira vez em que eu andava num veículo como aquele. Eu desejaria que aquela fosse também a última.
Logo avistei os casebres simples e alegres. E uma senhora simpática na porta de uma das casas.
Paramos e descemos.
- Vovó! – Kimo disse alegre ao descer da caminhonete.
- Kimo... – Ela disse num tom suave enquanto chegava mais perto para abraçá-lo. Kimo teve de encurvar-se para abraçá-la.
- Eu não disse à senhora que traria Manu e sua noiva? Aqui está. – Ele apontou para mim.
Ela me fitou com um olhar um tanto estranho.
- Vamos entrar... – Ela convidou.
- Um minuto, Sra. Ikaika. Vou levar Reneé para conhecer a vila.
- Não demore... Estamos tendo problemas a partir de certo horário por aqui... – Ela disse num tom amargo ao entrar em casa.
- Estou ciente disso. – Ele disse ao me guiar para o caminho contrário.
- Para onde está me levando? – Eu disse um pouco assustada pelo tom amargo da avó de Kimo.
- Não gostaria de conhecer a praia?
- A avó do Kimo disse que...
Manu segurou meu braço num movimento repentino, inspirou forte e torceu o nariz.
- Ela está certa. Vamos entrar. – Ele me puxou para dentro de casa.
Capítulo 15 – Cicatrizes
Estávamos sentados à mesa do jantar. Eu comia pouco de meu prato, enquanto Manu repetia o seu terceiro.
- Então essa é a Fria? – A senhora apontou com o pescoço para mim.
- Sim e não. – Manu disse de boca cheia.
A mulher o fitou rabugenta.
- Ela é meio-imortal... – Ele explicou.
- É possível? – Ela parecia curiosa.
- Sim. Uma longa história... – Kimo cortou o assunto.
- O que a trouxe para perto de Manu? – A pergunta era diretamente para mim.
- Um imprinting.
- E você acha que pode cuidar bem de Linei? Que nunca a colocará em perigo? Que saberá respeitar a escolha dela, caso ela queira pertencer à outra espécie que não seja a sua?
- Sim, sim e sim. – Eu respondi às perguntas em ordem, para a irritação da senhora.
- O que você realmente sente por ela? – Ela se inclinou na minha direção.
- O mesmo tipo de amor que uma mãe sentiria por um filho.
- Está ciente que filhos dão trabalho, não está?
- Nem um trabalho pode ser desanimador o suficiente para mudar a minha opinião, senhora. Eu realmente sinto que devo protegê-la.
Ela pareceu chocada com o meu discurso.
- Terá que demonstrar que realmente ama Manu para que eu confie em você... – Ela disse enquanto saía da sala de jantar.
Fitei Manu. Para que não fosse obrigada a dizer alguma coisa, voltei a comer.
Ainda naquela noite, Manu, Kimo e sua avó saíram.
Lua e eu ficamos sozinhas em casa.
- Reneé... – Ela disse enquanto fechava o jornal e o colocava ao seu lado na poltrona.
- Diga. – Eu prestava atenção na televisão.
- Tenho que aproveitar enquanto eles não estão em casa para te perguntar... Você ama Manu?
- O que? – Fui pega de surpresa. – Isto é uma brincadeira?
- Diga a verdade. Eu sei sobre essa história de imprinting.
- Não, eu não o amo. – Falei a verdade.
- Por que não? – Parecia um pouco óbvio isso.
- Assuntos mal-resolvidos. – Resumi. – Os outros lobos sabem do que estou falando.
- Diga. Não posso ler a mente deles. – Ela sorriu.
- Ainda estou presa ao meu ex-noivo, de certa forma.
- Por amor?
- Não. Por trauma. – Eu lhe mostrei minha cicatriz.
- Eu também estive numa situação como essas. – Ela disse ao olhar para minha cicatriz.
- Não, você não tem noção do que eu passei...
- Tem certeza? – Ela desenrolou uma pulseira grossa de seu pulso.
Assim como eu, ela tinha uma cicatriz. Só que era mais profunda, em forma de meia lua, e gelada. Era estranho.
- Como conseguiu? – Eu estava curiosa agora.
Ela sentou-se ao meu lado e começou a contar.
- Há cerca de um ano atrás, Kimo me trouxe para conhecer sua família. Tudo era muito feliz, até eu conhecer sua ex-namorada... Molly Marshal. – Ela se arrepiou só de pronunciar o nome.
- Qual o problema?
- Molly era possessivamente obcecada por Kimo. Ela não admitia que ele a trocasse por outra garota, nesse caso, eu. Todas as ex-namoradas de Kimo tinham medo dela. Eu não.
- O que aconteceu?
- Certa ocasião, nós nos encontramos na praia. Eu não entendia como ela podia ter tanta inveja de mim, se ela era infinitamente mais forte e bonita do que eu. Então eu percebi...
Ela fez uma pausa, e apertou a pulseira com uma força que assustou até a mim, depois relaxou o braço lentamente.
- Molly era uma vampira. Tinha inveja de mim por que eu ou qualquer garota poderia ter Kimo, mas ela não. Molly me raptou com o objetivo de me matar, mas Kimo me salvou...
Tudo o que me resta desse acontecimento é essa cicatriz. E uma lembrança dolorosa.
- E o que aconteceu com Molly?
- Ela fugiu e não foi vista desde aquele dia.
- Molly sempre foi vampira?
- Não, Kimo disse que ela era humana. Deve ter se juntado aos
Frios que chegaram há quatro anos atrás.
- Nossa... – Eu estava sem palavras.
Lua engoliu seco e prosseguiu.
- Então... Eu quero te pedir... – Ela disse enquanto enrolava a pulseira em seu pulso novamente – Tente dar uma chance a si mesma. Não seja tão falsa... A Sra. Ikaika pode notar alguma coisa...
- Está bem... Eu tentarei. – Aceitei, pelo bem de Linei.
- Ótimo. – Ela sorriu.
Ela saiu da sala, logo, os outros chegaram.
Capítulo 16 – Problemas
No dia seguinte, eu relaxava na praia, enquanto apreciava o mar e suas ondas altas. Fechei os olhos e eu podia imaginar aquela imensidão azul em minha frente. Apenas o som do mar já me satisfazia. Ouvi passos na areia.
- Se bronzeando, futura Sra. Nakana? – Manu disse ao sentar-se ao meu lado.
- Apenas Reneé, por favor.
- Ok... Minha Reneé.
- E sem possessivos.
- Assim não tem graça. – Ele fez um biquinho.
- Quem disse que deveria ter? – Eu disse enquanto deitava de bruços em minha toalha.
- Você também tem que cumprir com a sua parte. Lembre-se, nós somos um casal...
- Você não cumpre com a sua. – Retruquei.
- No que consiste a minha parte? – Ele disse ao deitar-se e aproximar-se de mim.
- Me dar total liberdade de ficar em paz quando eu quiser. Só isso! – Eu disse enquanto levantava e saía correndo estressada.
Se não fosse por esse tal casamento arranjado, Linei e eu estaríamos longe daqui.
Andei alguns metros e encontrei um rastro curioso. Tinha um cheiro diferente. Não era de lobo e nem humano. Era de vampiro.
Vampiros? Assim tão perto?
Lembrei-me de minhas conversas com os rapazes. Deviam ser os frios dos quais eles estavam falando.
Tentei seguir o rastro forte. Mas ele se ramificou por toda a floresta. Como eu ainda era inexperiente em rastreamento, era como achar uma agulha num monte de palha.
Senti um vulto me circundar. Mas podia ser só uma impressão minha. Por via das dúvidas corri até a praia.
Manu me esperava.
- Você parece pálida. – Manu disse ao me receber e me tocar. – E fria... O que houve?
- Um mal passageiro, talvez...
Ele me abraçou para regular minha temperatura.
- E... Credo! – Ele virou o rosto torcendo o nariz – Você está fedendo.
- Estou?
- Muito.
Tentei sentir o cheiro em minha roupa. O rastro do Frio estava impregnado nela.
Tanto tempo com lobisomens já me fazia pensar como uma.
- Talvez seja melhor eu tomar um banho... – Sugeri.
- Talvez sim. – Ele varreu a floresta com os olhos. – É melhor irmos embora.
Naquela noite, Manu e eu fomos para a praia.
- Eu espero que a gente se entenda.
- Desejo o mesmo. – Suspirei.
Ele cheirou meu cabelo.
- Está bem melhor agora. –Ele sorriu.
- Obrigada. – Sorri também.
Ele deitou na areia.
- O céu está muito limpo hoje. – Observei.
- É assim que ele está na maioria dos dias.
- Em Forks seria difícil ver algo assim. – Eu disse para mim mesma, mas ele pareceu ouvir.
- Mas sabe... Eu não gosto do céu estrelado...
- Por quê? – A observação repentina me surpreendeu.
- Eu prefiro o sol. O calor, a vida.
- Idem. – Suspirei.
- Que bom que temos um ao outro, então. – Ele sorriu.
Continuei observando as estrelas, estava distraída, até que um rugido se formou de dentro da floresta, e um lobo uivou ao longe.
- Problemas? – Perguntei.
Manu levantou num pulo.
- Feche os olhos. – Ele recomendou.
Eu fechei. Ouvi um rosnado. E quando abri os olhos, um lobo corria em direção à floresta. As roupas de Manu estavam inteiras e bem à minha frente.
O que havia acontecido? Tremi de repulsa só de pensar.
E permaneci sentada, até que ele retornasse.
- Acorda, Reneé! – Lua estava à minha frente.
- Hã? Onde estou? – Eu disse enquanto varria o espaço com meus olhos.
- Em casa. Sabe, você dormiu na praia.
- Ah sim... – Eu me lembrei – Quem me trouxe até aqui?
- Eu. – Ela disse sincera.
Arregalei os olhos.
-... E alguns pescadores. – Ela completou.
- Onde está Manu?
- Ele ainda não voltou. Mas não se preocupe, Kimo está com ele.
- O que pode ter acontecido?
- Não sei ao certo. Kimo não deu detalhes antes de sair.
- Dormi por muito tempo? – Eu estava envergonhada.
- Não faz nem uma hora que você chegou.
- Ah, bem. E a Sra. Ikaika sabe o que está acontecendo?
- Infelizmente sim. Mas ela não pode fazer nada.
Então um barulho podia ser ouvido do lado de fora da casa, homens falando alto e rápido. Eu não sabia o que podia ser aquilo.
- Problemas... – Ela disse, mas obviamente não era para mim.
Ela seguiu o som e parou diante do quarto em que Manu havia passado a noite. A janela estava aberta e ela pôde ver Kimo.
Nós nos aproximamos da janela. Kimo vinha acompanhado de dois homens. Eles não pareciam ser lobisomens. Ao virar meus olhos para o chão, encontrei Manu.
Capitulo 17 – Trégua
Ele possuía vestimentas rasgadas e estava coberto de machucados. Era impossível não ficar assustada com o estado no qual ele se encontrava. Tentei não passar essa impressão.
Mas ele sabia que era isso o que eu estava sentindo.
- Me ajude a passar o corpo dele pela janela. – Kimo pediu um pouco constrangido.
Eu não disse nada, apenas apontei com o meu pescoço para os dois homens.
- Eles não vão conseguir levantá-lo. – Kimo respondeu de imediato.
Coube a mim a tarefa de manusear Manu sem que ele parecesse um boneco de pano em minhas mãos. E sem que eu me sentisse constrangida com isso.
Observar a máscara de dor na face de Manu parecia doer mais em mim do que todos aqueles machucados nele.
- Lua, preciso da sua ajuda. – Kimo disse num tom indecifrável.
Mas afinal, em que ela poderia ajudar agora? Não era a hora propícia para contestar.
Lua saiu e voltou para o quarto num intervalo que pareceu curto demais até pra mim, uma meio-imortal. Talvez meu processo de Humanização estivesse tão intenso, que era como se eu estivesse olhando para ela com os olhos de uma mortal. Ainda sim, era rápido demais.
Ela colocou uma mala de primeiros socorros na cama.
- O que pensa que vai...? – Eu não consegui terminar.
- Eu sou médica. – Ela me surpreendeu. – Fui praticamente criada no corredor de um hospital. – Ela riu. – Seus dentes muito brancos cintilaram na luz fraca.
- Eu não vou agüentar ver isso. – Eu disse enquanto caminhava lentamente em direção da porta.
- São os riscos da vida... – Lua suspirou.
Aquilo me provocou um arrepio, eu só não sabia exatamente por que.
Caminhei até a sala e me pendurei ao telefone.
Apenas uma voz poderia me acalmar agora. A doce voz da minha Linei.
Disquei o número da casa dos rapazes.
- Alô? – Uma voz sonolenta respondeu do outro lado. Era Owena.
- Owena? Eu te acordei?
- Não exatamente. – Ele pausou. – O que há?
- Eu... Eu queria conversar com Linei. Mas eu acho que ela já foi dormir...
- Sim, ela já foi. – Ouvi um barulho no telefone. Parecia que ele fora trocado de mão.
- Alô?! – Uma voz furiosa tomou a linha. Era Palani.
- Palani, sou eu, Reneé.
- Escute aqui, sua Fria! Diga-me o que aconteceu à Manu e Kimo!
- Como você sabe?
- Eu pude ler a mente deles. Eu estava transformado há minutos atrás quando escutei as vozes deles. O que houve?! – Senti que ele fosse começar uma briga.
- Problemas com frios.
- Você perdeu o controle?! – Tive a impressão de que era Palani quem estava perdendo o controle.
- Não, eu não fiz nada. Ao que tudo indica, existem frios nessa região. Mas eu não sei exatamente o que aconteceu. Eu não estava com eles e Kimo ainda não me disse nada.
- Menos mau. Mas ainda sim, preocupante.
- Tenho que desligar. Essas ligações são caras. – Eu arrumei um jeito de escapar. – Boa noite.
E pus o telefone no gancho.
Pelo canto do olho, vi Kimo se aproximar.
- O que aconteceu? – Eu comecei.
- O Sr. Farell foi atacado. – Ele disse num fio de voz.
- O Sr. Farell? – Eu fui pega de surpresa. – Como ele está? Ele foi mordido?
- Felizmente, não foi mordido. Mas acredito que ele tenha quebrado alguns ossos. – Ele disse num tom derrotado. – Ele foi levado para o hospital.
- Eram quantos?
- Era uma só. Uma fêmea.
- M... Molly Marshall? – Tremi só de pronunciar o nome.
- Como sabe dela? – Ele arregalou os olhos.
- Lua tomou a liberdade de me contar algumas coisas.
Kimo ficou em silencio por alguns instantes.
- Sim, foi ela. Nunca pensei que ela fosse se tornar tão vingativa. Nem minhas outras ex-namoradas reagiram do mesmo modo.
- Ela não foi sua ultima ex-namorada... Foi?
- Não. Felizmente.
Eu não sabia dizer se aquilo era bom ou mau.
Fiquei em silêncio.
- Venha comigo. – Ele quebrou o silêncio – Acho que Lua já terminou a parte que coube a ela.
Acompanhei Kimo até o quarto, em silêncio. Kimo sinalizou para Lua. Então os dois me deixaram sozinha com Manu.
Ele estava coberto de machucados. Era nojento olhar para ele assim. Mas ele estava acordado.
- Sente-se melhor? – Era uma pergunta retórica.
- Com você aqui, sim. – Ele disse com um pouco de dificuldade.
Não reagi. Ele gemeu.
- O que há? – Eu estava nitidamente preocupada.
- Aquela fria deu trabalho dessa vez.
- Sabe que eu não quero que se meta em confusão.
- Vai bancar a protetora? – Ele tentou sorrir por baixo da máscara intensa de dor.
- Se preciso for... – Eu sentei ao seu lado.
- Não quero que se meta em m... ai. – Ele gemeu.
- Não se esforce. – Lembrei.
Ele parecia muito cansado.
- Você deveria dormir. – Eu disse ao alisar sua testa, tirando os fios de cabelos quase colados pelo suor. – Teve um dia pesado.
- Você também. Já se preocupou demais comigo.
- Ainda estou preocupada. – Confessei.
- Não se preocupe m...ais.
Ele virou o rosto lentamente, procurando meus olhos.
- Você é como um sol pra mim. – Ele tentou sorrir. – Iluminou cada dia meu.
- Tenho que confessar que sinto o mesmo.
Naquele instante, a palavra sol me trouxe uma lembrança desagradável: O colar de ouro da família Vittore em minhas mãos. Reprimi a lembrança. Dei um sorriso amarelado. E no fundo, eu estava mentindo. Um lado na minha mente queria que eu dissesse “Você só pode estar delirando”, mas, no entanto, era fraco demais para se manifestar.
- Me sinto como um idiota por não ter tido um imprinting com você.
- Não se culpe. – Eu ri. – Agora durma. – Eu disse enquanto o cobria.
- Você também tem que dormir.
- Eu sei. – Sussurrei.
Ele fechou os olhos. Permaneci ao seu lado até que eu caísse no sono.
Acordei por mim mesma. Eu podia ouvir Manu roncar.
Tive vontade de me levantar. Mas uma vontade ainda maior de permanecer ali.
Ele abriu os olhos lentamente e ao encontrar os meus, ele sorriu.
- Vejo que o sol chegou para alegrar o meu dia. – Ele já estava sorrindo. A máscara de dor havia ido embora.
- Sente-se melhor? – Perguntei.
- Muito. – Ele sorriu.
Ouvimos passos no corredor. Logo, a Sra. Ikaika estava na porta.
- O que há? – Manu indagou.
- Problemas. Kimo quer que vocês o encontrem na casa de Jack Farell.
- Tudo bem... Nós estamos indo... – Eu disse ao me levantar.
A senhora desapareceu pelo corredor. Enquanto isso, eu esperava em pé para que Manu se levantasse.
- Precisa de ajuda? – Eu ironizei.
- Não, obrigado. Prefiro ficar para ajudar a avó de Kimo. Você pode ir. Conte-me tudo.
- Tudo bem. – Eu disse ao sair do quarto.
Por sorte, ao sair de casa, encontrei com Lua. Ela me acompanhou à casa de Jack
Kimo estava encostado na caminhonete azul.
- Qual o problema? – Eu podia prever que havia um problema.
- Houve mais ataques durante a noite. Eu tentei seguir os rastros, mas agora eram muitos. Deveriam ser três ou quatro. Molly também estava lá. E eles pegaram mais uma pessoa.
- Por que motivo eles estão fazendo isso? – Indaguei.
Ninguém respondeu. Kimo parecia sério.
- Tem algo a mais, Kimo? – Persisti.
- O Sr. Farell terá de usar cadeira de rodas. Por tempo indeterminado. – Ele fitou o nada por um tempo.
- Isso é mau... – Eu não tinha palavras agora.
Kimo permaneceu olhando para a paisagem, então segurou no braço de Lua e a puxou.
- Acho melhor nós voltarmos para casa.
Assenti, mas não fui junto com eles.
- Não vem? – Lua questionou.
- Encontro vocês em casa. – Garanti.
Esperei que eles sumissem do meu campo de vista para entrar na floresta atrás da casa de Jack.
Como eu suspeitava, o rastro Frio era muito forte. Continuei seguindo. Ele parecia mais forte a cada vez que ficava mais interno na floresta. Encontrei uma espécie de celeiro. Era grande e alto. Eu não sabia quem poderia ter planejado uma coisa dessas, mas parecia estratégico.
Fiquei escondida no meio das árvores, apesar do meu cheiro forte não poder ser ‘escondido’. Eu sabia que seria descoberta em breve.
Pude ver uma mulher abrir o grande celeiro. Ela tinha o cabelo longo e cor de vinho. Ela era familiar. Eu só não sabia dizer de onde.
Ela varreu o espaço com os olhos. Fugi antes que pudesse ser vista. Pelo menos era o que eu pensava.
Capitulo 18 – Humana por uma noite
Permaneci com a imagem daquela mulher durante todo o dia em minha mente. Eu precisava saber de onde ela me parecia familiar. Provavelmente eu havia passado todo o meu dia presa em meus devaneios. Nesse momento isso não me incomodava.
- Reneé? – Manu começou a conversa. – Quer dar um passeio? Você passou todo o dia sem fazer nada.
- Hã... É... Sim. – Eu disse enquanto dissipava a nuvem densa de pensamentos de minha mente.
Só então percebi que ele estava extremamente bem arrumado.
- Não posso sair assim com você. – Eu disse num ato súbito.
- Por quê? – Ele disse num ato tão súbito quanto o meu.
- Veja como está. – Eu apontei para ele. – Está tão bem arrumado. Eu não posso sair no estado em que me encontro. Não sabia que teríamos um jantar de gala por aqui.
Ele riu.
- Não precisa de muito para estar bonita, Reneé. Mas ainda sim, se quiser...
- Eu já volto. – Eu disse levantando o dedo indicador e correndo para o quarto de Lua.
Ela me recebeu com um sorriso no rosto.
- Ajuda? – Ela ainda estava sorrindo.
- Claro! – Eu estava com uma pontada de pressa. – O que posso usar num jantar chique?
- Use isto – Ela me entregou um vestido branco de alças e em seguida um casaquinho de crochê – É simples, mas vai ficar lindo em você, acredite.
Me vesti rapidamente, e penteei o cabelo mais rápido ainda.
- Vá de cabelo solto. – Ela sugeriu. – Manu adora vê-la assim.
Sorri e saí correndo do quarto. A tempo de ouvi-la dizendo “Me agradeça depois!”.
- Aqui estou. – Apareci como um raio ao lado de Manu. – Não demorei, demorei?
- Nem um pouco. – Ele riu. – Mas eu a esperaria mesmo assim.
Ele me girou para ver como eu estava.
- Eu disse que não precisava de muito, não disse? – Ele riu. – Fabulosa.
- Como deveriam parecer as Frias, eu suponho. – Não pude me controlar.
- Não. – Ele balançou a cabeça. – Como uma humana de beleza extraordinária. Esqueça de tudo. Essa noite você será humana.
Não havia como negar.
Estávamos a caminho de um restaurante no centro da cidade. Num ponto em que a existência do vilarejo poderia ser desconsiderada. Estávamos na caminhonete do Sr. Farell. Ele foi muito gentil em emprestá-la a Manu por uma noite. Quando nos afastamos do vilarejo, e entramos na estrada com direção à cidade, ouvimos uivos. Sim, Uivos. Altos, finos, baixos e graves. Não pareciam feitos por um mesmo animal.
- Eles terão de esquecer que eu existo essa noite. – Manu disse enquanto olhava firme para a estrada e acelerava com a caminhonete.
Estremeci à medida que os uivos se tornavam mais freqüentes. Pensei na possibilidade de estarmos fazendo algo errado.
Quando chegamos ao restaurante, a tensão da viagem já havia se acabado.
Havia uma mesa reservada para nós. A mais enfeitada, a mais bonita. Me senti mal por não estar de acordo com aquilo tudo. Manu puxou a cadeira para que eu me sentasse. Ele se sentou em seguida, e então chamou a garçonete.
Ela era jovem e magra, parecia ter dezesseis anos. Tinha uma face delicada, em simetria com um corte de cabelo preto e liso no comprimento de sua própria face. O jeito com o qual ela andava – desajeitada, mas tomando cuidado para não demonstrar – me dizia que ela era muito frágil. Algo também me dizia que aquela noite não acabaria bem.
Já satisfeitos com a nossa refeição, nós esperávamos pela conta.
- E então, quando nos casamos? – Manu foi objetivo.
- Dentro de um mês, o que acha? – Propus.
- Tanto tempo?
- Acha que podemos organizar uma cerimônia em o que... Duas semanas? – Aquilo não era para ser exatamente um deboche.
- Sei que não está tão entusiasmada com isso. Por isso não faremos uma cerimônia.
- Eu estou. – Tentei fazer com que isso parecesse natural. Afinal, ele não poderia ler meus pensamentos mesmo.
Um sorriso iluminou seu rosto.
- Fico feliz por ouvir isso. – Ele sorriu – Mas... O real motivo... É que no momento não temos condições. Será um casamento no judicial, apenas isso. Podemos fazer uma cerimônia formal no fim do período. Está bem para você?
- Está.
Estranhamos a demora da conta. Estiquei o pescoço para procurar pela garçonete, e então ela apareceu, saindo de uma porta que dava para a rua. Ela tinha um olhar diferente do de minutos atrás. Parecia abalada. E gelada.
Manu pagou a conta, e assim que saímos do restaurante ele comentou:
- Impressão minha ou aquela garçonete pareceu mudar de uma hora para a outra?
- Não, não foi só uma impressão.
Manu passou o seu braço pelo meu ombro e nós nos dirigíamos até a caminhonete azul quando um ruído chamou a nossa atenção.
- Escutou isso? – Eu comecei.
- Sim. O que poderia ser?
- Não tenho certeza. Um grito talvez? – Especulei.
- Um grito?
Agora o som era alto. Definitivamente, um grito.
- O som vem dali. – Manu apontou para um beco escuro e então começou a correr em sua direção.
A garçonete estava acuada á meia luz. Tremendo. Gritando.
Três vultos nos circundavam.
- Eles estão por todo o lugar. Temos que ir embora. – Manu me puxou pelo braço.
- Não podemos. – Apontei para o braço da garçonete, sangrando e com uma marca de meia lua.
Ele arregalou os olhos.
- Não vou deixar que isso aconteça com ela. – Decidi.
- Eles vão nos exterminar se continuarmos aqui. – Manu me puxou outra vez.
- Não se eu não for mais humana esta noite. – Tirei meu casaco e pus nas mãos de Manu.
Corri na direção da garçonete.
Segurei seu pulso. Não tinha muito tempo para pensar. Era hora de por o meu limite à prova. Até onde eu seria humana? A partir de que ponto eu seria um monstro?
Sem pensar muito, cravei meus dentes em seu pulso para sugar o veneno. Em casos de transformações como essa, o ataque não passaria de um mero pesadelo para o indivíduo. No máximo ela se perguntaria como ela havia conseguido aquela cicatriz. Assim eu esperava. Manu estava cercado por eles. Vultos dançantes, perigosamente graciosos, circundando, prontos para atacar. Eu não podia parar, não conseguia parar. A luz era intensa em meus olhos, apenas podia distinguir as sombras. A imagem do vulto de cabelos cor de vinho sondando para atacar Manu me fez encontrar a determinação para parar.
Não, ele não. Pensei.
Larguei a garçonete, quase sem sangue agora, o veneno fora drenado, mas a tentação do sangue me fizera sugar mais do que o necessário.
Me uni a ele no circulo de luta enquanto ele se transformava. No momento em que Manu uivou, eles fugiram. Corri para segurar a garota enquanto Manu voltava à sua forma normal. Nós a levamos para a caminhonete e então partimos para a vila. Os lobos uivavam ruidosamente no caminho.
- Eu sei. O trabalho em primeiro lugar. A diversão vem depois. – Manu resmungou alto ao volante, como se isso talvez fosse parar os uivos.
E parou. Por um instante.
Capitulo 19 - Perseguição
Procurei nos documentos da garota qualquer coisa que pudesse lhe dar uma informação sobre a sua casa. Provavelmente ela passaria a noite no hospital. Por fim, descobri que seu nome era Elora Harriet. Havia um telefone com ela. Liguei. Ao que tudo indicava, ela possuía um irmão, Kyle Harriet. Este, agora estava a caminho do hospital.
Numa lufada de vento um cheiro forte me fez lembrar dos rastros dos Frios. A porta se abriu e um rapaz entrou no quarto onde Manu e eu estávamos com Elora.
O rapaz era alto e forte, pálido, tinha cabelo escuro e curto assim como a irmã. Estava com óculos escuros e um casaco grande e preto que o cobria completamente.
- Kyle Harriet. – Ele mostrou um documento em mãos.
- Ah, sim. – Manu então lhe entregou a papelada dos médicos. – Nós a encontramos gritando por ajuda. Talvez uma gangue de rua tenha a agredido. Você deveria...
- Podem se retirar. – Kyle disse num tom ácido.
- O que? – Manu foi pego de surpresa.
- Podem se retirar. Você e essa sua... Garota. Saiam daqui. – Kyle apontou para a porta – Já fizeram o que queriam, não é? Salvaram o dia. Agora, vão embora. – Ele apontou outra vez para a porta.
Segurei no braço de Manu. Saímos sem revidar.
Ao sair do quarto, espiei pelo vidro e as frestas da cortina persiana.
Kyle observou Elora por um instante, e quando viu que esta abriu os olhos, ele tirou seus óculos. Vi seus olhos arderem em sede. Arregalei os olhos. Mas Manu era mais forte do que eu, ele já estava me arrastando pelos corredores do hospital de volta para casa.
- Acorde quem estiver em casa e diga que estamos indo embora. – Manu disse ao me empurrar com pressa quando chegamos em casa.
- O que? – Eu estava sem noção.
- Apenas faça isso. Veja se Lua está por aí, arrume as malas, rápido, encontre-me o mais rápido possível no aeroporto. –
Manu largou a minha mão e se dirigiu à caminhonete.
- Aonde vai? – Meu coração se apertou.
- Ligar para os rapazes e... Procurar pelo Kimo. Não vou demorar... Muito.
- Tenha cuidado. – Murmurei.
Ele sumiu na escuridão. Corri para dentro de casa. Fiz barulho ao entrar. Logo, Lua estava curiosa para saber o que era.
- O que há? – Ela estava com os olhos arregalados.
- Faça suas malas. – Ordenei enquanto arfava.
- O que?
- Nós vamos embora. – Eu peguei seu braço e fui correndo na direção do quarto.
- Como assim? Agora?
- Sim. O quanto antes. Kimo e Manu vão nos encontrar no aeroporto. – Eu disse enquanto esvaziava as gavetas.
- E... E... E a Sra. Ikaika?
- A gente deixa um bilhete para ela, sei lá. Mas a gente precisa ir agora. – Eu disse enquanto fechava minha primeira mala.
- Por que nós precisamos ir? – Ela insistiu.
- Eu... Acho que sei... Mas não tenho como explicar. – Fui sincera. – Apenas confie em mim, está bem?
Ela assentiu, e logo nossas malas estavam prontas.
Ela escreveu um bilhete com pressa e o colocou na cômoda da avó de Kimo. Ela certamente entenderia ao acordar. Assim eu esperava.
Fechamos a porta e fitamos a escuridão. Nem mesmo a lua estava no céu.
- E agora? – Ela apertou a minha mão.
- Corra junto comigo... – Eu tive a sensação de estarmos sendo observadas – E não olhe para trás.
Ela assentiu.
Corríamos ao mesmo tempo. Lado a lado, mesmo ritmo. Eu sabia que estava correndo a uma velocidade muito superior à que a caminhonete provavelmente agüentaria. Então comecei a pensar na possibilidade de estar tirando Lua do chão, uma vez que ela ainda segurava minha mão para não perdermos contato.
Não, ela não estava perdendo contato com o chão. Ela estava correndo como eu.
Avistar as luzes suaves da cidade me deu um alívio inumano.
Diminuímos nossa velocidade para a de uma corrida quase normal. Chegamos ao aeroporto e felizmente encontramos com Kimo e Manu esperando por nós. Saber que tudo tinha ocorrido bem fora a melhor noticia que meu coração poderia receber naquele instante.
Manu me abraçou. E Kimo e Lua se abraçaram também.
- Eles estão por todo lugar. – Eu comecei, entrando num estado de pânico.
- Não se preocupe mais. – Ele me acalmou. – Nós vamos fugir daqui e tudo ficará bem.
* * *
No avião, a certeza de que todos os passageiros eram humanos era reconfortante. Sabíamos que pelo menos, a nossa saga não terminaria com um acidente aéreo.
Apesar de todas as situações que poderiam me compensar, não quis dormir no vôo. Eu só descansaria em terra firme, longe de qualquer ameaça. E convencida de que elas não voltariam a nos atormentar. A segunda exigência não fazia lá muito sentido nessas circunstâncias. Tentando me manter acordada, comecei uma conversa:
- Manu... Será que ela deixou que eu ficasse com Linei? – Perguntei.
- Está claro que sim. Ela vai ter que deixar. Ninguém conseguiria protegê-la como você, Reneé.
Outra sensação de recompensa. Agora eu certamente não conseguiria dormir.
Não até encontrá-la.
Capitulo 20 – Visitantes
Logo estávamos em San Francisco. Aquele apartamento apertado agora era o meu lar.
Eu nem sequer pensava nessa possibilidade quando cheguei aqui, há sete meses. E agora eu estava familiarizada. Manu deixou que eu abrisse a porta. Linei veio me receber com um abraço.
- Linei! – Eu a peguei no colo. Era nunca seria pesada para mim. – Senti saudades de você, minha... Pequena lobinha. – Eu disse como se aquilo já fosse natural para mim. Ela era inocente e não sabia o porquê do apelido.
Os rapazes pareciam ansiosos pela nossa chegada. Eu podia imaginar por que.
- Que bom que estão de volta! – Owena nos recebeu.
- Como foi de viagem? – Palani perguntou, enquanto alternava goles de refrigerante em sua pergunta.
- Cansativa. – Manu respondeu.
- Por que resolveram voltar tão cedo? – Iwin estava de braços cruzados. Não tinha uma expressão muito amigável.
- Isso é... – Kimo olhou para mim e Linei, logo percebi que aquela não seria uma conversa apropriada para crianças. – Uma conversa em particular.
Levei Linei para o quarto.
- Eu não quero dormir. Quero ficar com você. – Ela fez um biquinho quando a coloquei em cima da cama.
- Está tarde. E estarei aqui de manhã. Nunca vou me afastar de você.
Ela sentiu-se confortada, e se deitou. Esperei que ela caísse no sono para então sair do quarto.
Os rapazes me esperavam sentados à mesa. Eu já tinha minha cadeira garantida.
- Agora acho que nosso assunto pode começar. – Kimo comentou.
- E como foi a viagem? A velha não deu crise com a Reneé? – Palani satirizou.
- Não tivemos nenhuma resposta dela, mas com certeza, Reneé já tem a guarda de Linei. Posso garantir. – Manu repassou tudo o que me disse no avião.
- Como assim? Não tivemos nenhuma resposta dela? – Owena ficou atento ao comentário.
- É aí que entra o motivo pelo qual chegamos tão cedo. – Kimo interrompeu. Todos olharam para ele.
- Por quê? – Iwin o encarou de braços cruzados.
- Nós fugimos.
- Fugiram? Como? Por quê? – Owena arregalou os olhos.
- A melhor pergunta seria “de quem”. – Bufei.
- De quem? – Palani, Owena e Iwin perguntaram em uníssono.
- Frios. – Manu disse entre os dentes.
- O que? – Palani estava surpreso, prestes a se alterar.
- A culpa é minha. Eu admito. – Eu levantei a mão. O olhar alterado de Palani se voltou para mim. – Se não fosse a crise de heroísmo, estaríamos muito bem agora.
- Não foi sua culpa. – Manu tentou me tranqüilizar. – Se eu não tivesse trocado a minha obrigação pela diversão, não teríamos visto aquilo.
Os rapazes pareciam confusos.
- A história é essa. – Kimo começou a esclarecer. – Estava fazendo a ronda com os dois lobos restantes da reserva...
- Dois lobos? Só restaram dois lobos na reserva? – Iwin se alterou.
- Acalme-se Iwin, essa não vai ser a pior informação que você vai receber.
Iwin rosnou e permaneceu em sua posição. Kimo prosseguiu.
- Então encontramos um rastro de frios. Ordenei a eles que fossem buscar Manu. Mas ele já tinha saído com Reneé para um jantar na cidade. Uivamos, na esperança de fazê-lo mudar de idéia. Alguns frios conseguiram nos atacar.
- E o que aconteceu com vocês? – Owena ficou preocupado.
- Nada demais. Eles só nos atacaram para nos distrair. Assim, outra parte deles se dirigiu à cidade, e lá atacaram uma moça.
- E Manu não fez nada? – Iwin bateu forte com o punho na mesa.
- Ele fez sim. – Defendi, mostrando os dentes. – Suguei o veneno das veias da moça, os vampiros fugiram. Nós a levamos para o hospital, mas... – Eu parei, não sabia se devia transmitir a ultima informação.
- Reneé? O que foi? – Lua perguntou, fitando a minha expressão.
- Mas o que? – Manu olhou para mim.
- Elora não está mais viva. – Eu disse sem expressão.
- O que? – Manu arregalou os olhos.
- Eu... Eu pensei que soubesse. Nós comentemos um erro em ligar para Kyle. Ele é um vampiro. Você lembra do jeito com o qual ele falou conosco? Ele sabe sobre nós.
- Mas o que te leva a dizer que ela...
- Quando nós saímos do quarto, eu olhei pela persiana, Kyle tirou os óculos. Ele tem olhos vermelhos.
- Droga, droga. Droga, droga! – Manu enterrou suas mãos no rosto.
- Outro ponto para eles. – Iwin disse num tom sarcástico.
- É por isso que eles estavam nos seguindo! Nós estávamos atrapalhando os planos deles! Eles a pegariam de qualquer jeito...
Assenti.
- Acha que há uma possibilidade deles virem atrás de nós? – Kimo fez a pergunta, e obviamente ela era para mim.
- Acho que não. A menos que eles guardem muito rancor de nós. – Tentei fazer piada da situação. – Logo eles vão esquecer disso. Mas é importante que também não os façamos se lembrarem.
- Como assim? – Kimo franziu a testa.
- Não podemos manter muito contato com a tribo. Agora eles têm olhos e ouvidos por toda a parte.
Ele suspirou, preocupado.
- E... Como foram esses dias sem nós? – Kimo quis mudar de assunto.
- Nada de especial... – Owena apoiou seu rosto na mão, provavelmente entediado.
- Eu sei que tem algo de especial... Para vocês, sempre tem.
- Ah, sim, é claro. – Palani mostrou os dentes brancos num sorriso largo, pela expressão, deduzi que não seria uma boa coisa. – Chegou uma garota acompanhada de um rapaz. Não consegui vê-la de perto, mas o outro... Quem diria... É um frio! – Estremeci.
- Um frio? – Manu franziu a testa.
- Ah sim. Esses sanguessugas acham que podem encarar anos de faculdade sem serem descobertos. Aqui em San Francisco? É impossível. Tsc Tsc... – Ele debochou. –
Bobinhos...
Eu não estava tendo uma boa sensação naquele momento.
Capitulo 21 – Mudanças de comportamento
Alguns dias se passaram. E em tão poucos dias, muitas mudanças foram feitas. Manu, que ao chegar do Havaí estava tão entusiasmado com nosso casamento, não demonstrava esse sentimento. Ele parecia não ligar muito para mim. Como se eu fosse... Apenas amiga. Mas eu podia jurar, – e tinha tanto provas quanto testemunhas disso – que ele sentia algo por mim. Não que agora eu estivesse demonstrando qualquer sentimento por ele... Mas Manu simplesmente não era o mesmo.
Naquele dia eu estava em casa com Linei.
Iwin havia chegado da escola há poucos minutos e parecia alterado. Não quis falar com ele.
- Por que Iwin parece nervoso? – Ela me perguntou inocentemente.
- Ele, bem... – Eu não sabia o que dizer e como dizer – Ele deve ter tido um mau dia na escola. Isso acontece...
- Por que não vai falar com ele? – Eu estava doida para trocar de assunto o mais rápido possível.
- Acho que ele quer ficar sozinho por enquanto... – Procurei dizer de um modo sutil a frase “por que ele me odeia”.
Ouvi passos e um falatório no corredor. Sorri.
- Eles estão chegando, Linei.
Ela sorriu também.
Owena foi o primeiro a passar pela porta. Brincalhão e sorridente, ele me cumprimentou, então pegou Linei em seus braços e a girou.
- E como vai a Minha Linei? – Ele tinha um sorriso grande em seu rosto.
Linei começou a rir. O jeito bobo de Owena a deixava assim. Ele era o único dos lobos que a conseguia fazer rir dessa forma. Ele demonstrava muito carinho por ela. Mas era um carinho diferente do que todos – que a mimavam e a protegiam – demonstravam por ela. Eu não sabia descrever.
- Está tão feliz. – Observei Owena. – Ganharam alguma partida de futebol? – Eu brinquei.
Ele apenas sorriu para mim, mas não respondeu à minha pergunta. Palani e Kimo chegaram depois. Não vi Manu.
- E Manu? – Perguntei ao esticar o pescoço para procurá-lo.
Ninguém respondeu.
O dia passou mais rápido do que eu esperava. E Manu ainda não havia chegado. Eu cheguei ao ponto de sentir a sua falta. E se eu já estava demonstrando algum sentimento – por menor que ele fosse – é por que as coisas já não estavam indo tão bem quanto deveriam.
Era noite eu já estava cansada de andar em círculos sem protestar.
- Onde ele está? – Finalmente falei.
- Manu deve estar por aí. – Palani foi franco. Isso me deixou assustada.
- Ele costuma fazer isso? – Me preocupei. Para mim, essa era a primeira vez que isso acontecia.
- Quando está em patrulha, sim.
- Quer dizer que ele está em patrulha, certo?
Ninguém respondeu.
Fui para o meu quarto improvisado, um colchão estendido no quarto apertado de Manu. Já que agora Linei estava no quarto que antes fora meu, eu não poderia dormir para sempre no sofá. Insisti em não dormir na cama. Elas eram fracas demais para mim. E por fim, Manu me comprou um colchão bem denso.
Deitei-me no colchão, olhando para o teto, lembrando dos meus últimos dias, até que a imaginação se misturou com a realidade. Adormeci.
No sonho, eu estava no Havaí. O sol escaldante fazendo a minha pele brilhar. Manu estava longe de mim, apenas me observando. Eu acenei para ele, tentando chamar alguma atenção. Ele parecia não prestar atenção em mim. Tentei acenar outra vez, mas meu movimento fora interrompido por uma mão gélida e forte em meu braço. Virei meu pescoço e ele estava lá. Michaelo me encarava com fúria. Abri a boca para gritar, ele colocou a mão em minha boca. O grito preso em minha garganta se minimizava à medida que ele se aproximava para cravar suas presas em mim. No entanto, ele largou a mão, gritei com toda a minha força. Manu deu as costas para mim.
Acordei arfando.
Manu estava á minha frente, parado em meio a uma ação.
- Eu te acordei? – Ele disse um pouco envergonhado.
- Sim... Mas foi bom ter me acordado. – Confessei.
Ele sorriu de leve.
- Onde esteve? – Eu disse ao sentar no colchão.
Ele não respondeu.
- Estava fazendo ronda? – Perguntei.
Ele parou por um instante e então balançou a cabeça levemente.
- Volte a dormir, Reneé... Ainda é tarde.
Não foi preciso um segundo pedido para que eu então caísse no sono.
No dia seguinte, quando acordei, estava sozinha novamente. Mais um dia como o anterior.
Ele não voltaria até que a noite chegasse. E eu não agüentaria esperar por ele. Eu dormiria, e se eu acordasse a história se repetiria como na noite anterior.
Naquela noite, acordei com um barulho na cozinha. Um falatório, grave, mas muito rápido, eu estava sonolenta e ainda não conseguia entender. Levantei rápido, mas minha pressa no escuro me fez tropeçar na cama. Gemi.
- Ah, droga! – Falei enquanto segurava meu pé num ato mecânico.
Minha fala fora alta o suficiente para ser ouvida e então o falatório cessar subitamente.
Não havia mais motivos para que eu tentasse saber o que acontecia.
Poderia ser só mais uma farra de lobo. Eu disse a mim mesma. Mas mesmo assim, por que eles não me convidaram?
Voltei para o colchão. Deitei e tentei organizar a minha mente. Como as peças de um quebra-cabeça que não se encaixam. Como uma investigação criminal: tão perto de chegar ao fim, e então você descobre que seguiu uma pista falsa e que vai ter que começar tudo de novo.
Era assim que eu me sentia. Incerta.
Ouvi passos fortes a caminho do quarto. Não me mexi. Uma sombra tampou a luz que vinha do corredor. Eu estava sendo observada. Logo, esse alguém se foi. Então eu adormeci. Na esperança de que o dia seguinte fosse diferente.
E foi.
Eu não sabia que horas eram, mas sabia que estava sendo acordada.
- Reneé? – Manu apareceu gentilmente na minha frente.
- Manu... – Eu abri um leve sorriso, afinal, ele estava em casa. A menos que isso fosse um sonho meu...
- Me desculpe pelos últimos dias... Eu estive tão ocupado com as patrulhas... Isso... Não vai se repetir... Eu juro. –
Ele realmente demonstrava culpa na voz. Era bom que ele admitisse.
- Manu... Você ainda está aqui... Você deveria...
- Eu sei, eu deveria estar na faculdade agora... – Ele mudou a expressão. – Mas eu não vou hoje. Um dia ou dois não vão me matar. – Ele zombou.
- Mas você já faltou demais... – Contestei.
- Não tem problema. Vou ter outra chance no ano que vem. – Ele riu.
Ele estendeu sua mão e me levantou suavemente. Eu o acompanhei até a cozinha. Ele já estava com o café pronto.
- Como foi a patrulha? – Eu perguntei enquanto tomava meu café.
Ele pigarreou, mas não respondeu.
- Como foi? – Insisti.
- Foi... Foi... – Ele parecia enrolado com suas próprias palavras.
- Foi o quê? – Incentivei. – Chato? Divertido? Difícil? Fácil? – Coloquei as palavras na ponta de sua língua, era só escolher uma e dizer. Tão simples!
E mesmo assim, ele não disse.
Afastei o café forte de mim. Um cheiro mais forte me atraiu para ele. Eu o rodeei, meu nariz ficando próximo de sua camisa. Ele tinha um rastro consigo. E ele era muito familiar para mim.
- Se anda saindo para se divertir... Pode me dizer, eu sei que não temos nada. – Incentivei. Não sei o que doeria mais a mim. Uma negação, ou uma confissão.
- Foi só um rastro. – Ele disse tenso.
- Eu acredito em você. – Segurei a sua mão quente e trêmula.
Escutei um barulho no quarto de Linei, ela havia acordado. Fui vê-la. E quando voltei à cozinha, Manu já não estava mais lá.
Capitulo 22 – Frutos da Imaginação
Apesar de todas as idas e voltas, altos e baixos, os preparativos para o casamento iam a todo vapor. Lua conseguiu me convencer a usar um vestido de noiva na cerimônia, apesar de que nós poderíamos muito bem nos casar de calça jeans e uma camiseta branca.
- Só espero que você não apronte com o meu vestido. – Cruzei os braços. Enquanto via Lua correr como uma louca entregando os ternos recém chegados da lavanderia nos quartos dos rapazes.
- Não fiz nada de maldoso. Eu juro. – Ela acabara de entregar o ultimo terno no quarto de Owena.
- Assim espero. Ou vai enfrentar a minha fúria depois... – Eu brinquei.
- Terá que enfrentar a fúria do meu noivo se quiser se vingar de mim.
- Dele eu cuido depois. – Eu ri. – Vai demorar muito até que o vestido chegue?
- Não, não. A lavanderia prometeu entregar ainda hoje. Sabe... São muitos detalhes no vestido...
- Muitos detalhes? Oh, não... Você não me fez uma fantasia de carnaval, fez? – Perguntei emburrada.
- Não, eu não fiz. – Ela disse sorrindo. – Só quero por pânico em você, queridinha. É tão bom deixar a noiva ansiosa... Você não sabe como é tão bom sentir o que estou sentindo agora. – Ela disse enquanto sentava ao meu lado no sofá.
Olhei maliciosamente para ela.
- Ah, eu posso não saber agora. Mas certamente vou saber quando chegar a minha hora de aterrorizá-la.
- Pelo jeito eu não posso dar muitas idéias pra você... Você as capta facilmente. Você é um monstro. – Ela riu.
- Obrigada, mas eu já sabia disso. – Eu ri também.
Era tão fácil rir com ela.
- Ah, droga! – Ela se levantou do sofá num pulo. – Eu sabia que estava esquecendo de uma coisa!
- O que? O que? – Eu me senti curiosa.
- Hm... Nada em... Especial. Eu estou cuidando do meu próprio casamento também, entende? Há algumas coisas das quais eu preciso tratar agora. Desculpe o inconveniente, mas você vai ter que ficar sozinha...
- Sem problemas... Vou tentar sobreviver sozinha. – Eu brinquei.
Lua já estava na porta agora.
- Se a lavanderia trouxer o vestido, pode pegá-lo e experimentá-lo.
Fiz um sinal de positivo com o dedo.
Então ela saiu.
No ultimo mês, não permaneci um momento sequer sozinha. Nem saí do apartamento. Não era muito agradável estar enclausurada por conta própria, mas era o melhor para mim naquele momento. O medo de que minhas suspeitas a respeito dos novos universitários fosse verdade me mantinha nesse estado.
O que os olhos não vêem, o coração não sente.
E por que eu tinha tanto medo de estar sozinha? Tinha medo de ser... Visitada.
Apesar de todos os meus esforços – não só os meus, os de Lua também – evitar a bagunça após as farras de lobo às sextas-feiras era impossível.
Então o jeito era me conformar e esperar as farras de sábado para então arrumar a casa no domingo. Sentei-me na poltrona bagunçada e liguei a televisão.
Senti um cheiro estranho... Será que... Não, não. Era só imaginação, pensei.
Alguém bateu à porta.
- Lavanderia! – Um tom distorcido gritou de fora.
Abri a porta.
- Seu vestido de casamento. – Minha entregadora colocou o vestido na frente de seu rosto. Como ela sabia que era para mim?
Peguei o vestido e ao levantar meus olhos, tive uma surpresa.
Eu podia jurar tê-lo visto atrás de minha entregadora, em segundo plano, de braços cruzados, me encarando com sua face mais selvagem.
Pisquei os meus olhos, ele já não estava mais lá. Estaria eu tendo alucinações?
Eu realmente precisava de uma dose de coragem para sair de minha prisão domiciliar e encarar o mundo lá fora. Precisava provar para mim mesma: Eu não estava sendo vigiada, nem seguida, e todas as ameaças eram frutos da minha imaginação.
- É só assinar aqui, senhora. – A entregadora me tirou de minha reflexão.
Ela jogou a caneta na minha mão e me apontou uma linha para assinar.
- O pagamento já foi feito. – Ela lembrou.
Assenti.
- Obrigada. – Agradeci, segurando o vestido com cuidado. – Tenha uma boa tarde.
- A senhora também. – Ela disse enquanto descia a escada fazendo com que o eco de seus chinelos bagunçassem minhas idéias.
Balancei a minha cabeça. E olhei para os lados antes de fechar a porta. Ele não estava ali.
Ao entrar novamente em casa vi um vulto passando pelo corredor. Corri em sua direção.
Parei no meio do corredor, entre os quartos de Manu e o que agora era de Linei. Tive a sensação de que se eu fosse como os rapazes, um lobo estaria saindo de dentro de mim a qualquer instante. Olhei para os lados e entrei no quarto de Linei primeiro. Estava intacto, e não havia rastro nenhum nele. Já no quarto de Manu... A organização estava intacta. Mas o rastro denunciava. Estava em todo lugar. Ele esteve aqui. E se vinha procurar alguma coisa, sabia muito bem o que procurava. Pois eu era incapaz de descobrir.
Capitulo 23 – Se você me ama, diga agora ou cale-se para sempre.
Menos de uma semana depois, o grande dia havia chegado. Sem ao menos me darem o direito de ter uma despedida de solteira digna – eu passei o dia anterior correndo pelas lojas de um mercado popular. É claro que Manu teve a sua, provavelmente, muito mais elaborada e complexa do que a minha. Cachorro estúpido.
Acordei cedo. Sozinha, a casa estava vazia e tudo indicava que os rapazes só voltariam depois do casamento. Eles se encontrariam comigo no cartório.
Linei ainda dormia em seu quarto. Não quis acordá-la. Lua viria mais tarde para me ajudar com o vestido. Se fosse preciso.
Tudo o que eu queria – e que eu precisava – ouvir nesse momento era a voz de Manu. Dizendo-me que tudo ficaria bem. E que sua mudança de comportamento não passava da mais pura demonstração de tensão pré-matrimonial. Segurei a raiva para mim mesma antes que eu descontasse em algo que não deveria. Quem sabe nas coisas de Manu? Não era uma má idéia.
Senti algo puxando a barra de minha bata. Era Linei. Eu a peguei no colo e a fitei maravilhada. Como eu sempre fazia.
- Bom dia, Linei. – Eu disse abrindo um sorriso no rosto. Meu mau-humor não era e nunca seria por culpa dela.
- Bom dia mamãe. – Ela sorriu.
Era tão lindo quando ela sorria. Seus dentes muito brancos contrastavam com a pele morena e seus cabelos negros. Seus olhos amendoados tornavam nossas diferenças contrastantes. Que tipo de mãe que não envelhece tem uma filha completamente diferente de si? Sim, eu estaria preparada para este tipo de pergunta.
Fiz o café para nós duas.
- Cadê o Manu? – Ela perguntou ingenuamente.
- Com os rapazes. Mas não se preocupe, querida, você vai se encontrar com eles hoje. Eles nos encontrarão no cartório.
Ela arregalou os olhos.
- Tão tarde? – Eu também pensava a mesma coisa.
- Sim... – Bufei. – Mas o tempo passa rápido, anjinho.
Assim eu esperava.
Mas o dia se arrastou. Como se o tempo não quisesse passar. Tudo o que eu queria era que ele passasse. E rápido. E mais rápido e mais rápido.
Enquanto Linei assistia um desenho qualquer na televisão, corri para o banheiro para tomar o meu banho. Levei comigo meu estojo e meu vestido de noiva. Eu não havia provado até então. Consegui me arrumar rapidamente, mas ainda sim, ao me olhar no espelho, parecia horrível. Minhas olheiras que podiam ser facilmente disfarçadas, agora pareciam incorrigíveis. Nenhum dos meus produtos de beleza parecia funcionar. O celular de Lua estava desligado. Cansei lutar contra minhas olheiras. Eu estava indo para uma cerimônia simples, não um coquetel de gala. Tinha que colocar isso em minha mente. E o mais importante: tinha que permanecer. Juntei meus produtos no estojo e disparei para o quarto pensando que o tempo teria passado tanto a ponto de eu estar atrasada.
Eu não havia demorado nem dez minutos no banheiro.
Pedi para que Linei fosse tomar um banho para eu então arrumá-la. Tive todo cuidado de vesti-la como uma bonequinha e demorar muito tempo enquanto fazia isso. Ela pareça irritada com a minha lentidão.
Então os ponteiros giraram de modo considerável. Eram duas e quarenta e cinco.
Peguei na mão de Linei e nós saímos juntas de casa.
Respirei fundo e começamos a descer as escadas juntas. Pensei em atrasar o passo logo no começo. Mas uma noiva à toa nas ruas de San Francisco não me parecia de bom tom.
Novamente o relógio estava contra mim.
Andamos pelas ruas até chegar ao cartório. Lua e os rapazes estavam lá. Manu também.
Sua expressão me tranqüilizou, parecia que tudo não passava de um mal entendido. Ou melhor, uma crise de tensões pré-matrimoniais.
- Chegou cedo. – Lua observou.
- O relógio não estava de bem comigo hoje. – Eu disse dando os ombros.
- Está com sorte. – Manu disse quando chegou ao meu lado. – Somos os próximos.
O ar me pareceu rarefeito. Uma tontura me surpreendeu, seguida de um arrepio. Não era um arrepio qualquer.
- Eu... Preciso de um pouco de ar... – Eu disse tombando um pouco.
Manu e Owena me seguraram.
- Agüente firme, é só o salão que está cheio. Vamos entrar daqui a pouco. – Manu tentou me tranqüilizar.
Respirei fundo, várias vezes seguidas. Mas a sensação ruim não tinha ido embora.
Então a grande porta pesada se abriu, um casal feliz e suas testemunhas saíram de lá.
Sim, era agora.
Manu me puxou suavemente e segui. Linei estava do meu outro lado ao passarmos por um corredor ela encarou com os olhos arregalados e se agarrou ao meu vestido. Olhei para o mesmo lado que ela, mas não vi nada.
O casamento começou de imediato, afinal, nós tínhamos tudo em mãos.
Quando o juiz perguntou se havia alguma objeção a aquele matrimônio, a porta se abriu. A luz se dominou o salão e uma sombra masculina se impôs entre faíscas de diamante.
- Eu tenho uma objeção. – A sombra falou.
Capitulo 24 – Toda ação recebe uma reação
O vento soprou a meu favor. Literalmente. O ar doce e gélido me invadiu. Não tinha escapatória. Era ele mesmo. Tremi ao lado de Manu.
Os lábios de Michaelo se repuxaram num sorriso assustador. Linei se agarrou ao meu vestido outra vez.
- Qual a sua objeção, senhor? – O juiz pareceu ignorar o fato de que fagulhas pareciam sair da pele de Michaelo.
- Esse cara – ele apontou para Manu – está traindo ela.
Meus olhos se arregalaram, meu queixo caiu e nada mais parecia ter sentido para mim.
- Eu? – Manu estava incrédulo. – Traindo? Você só pode estar brincando... – O tom de Manu fraquejou.
- Eu até gostaria que isso fosse uma brincadeira. – Michaelo cruzou os braços e soltou uma risada.
Afastei levemente Linei de mim e então segurei o meu vestido. Disparei pelo salão na direção de Michaelo. Entrei com ele na primeira sala vazia do corredor.
- O que você está pensando? – Eu estava visivelmente furiosa. – Você veio aqui pra fazer uma brincadeira? Tudo bem, você conseguiu, agora suma! – Eu disse entre dentes.
- Não antes de te mostrar uma coisa... – Ele balançou alguma coisa na sua mão, logo vi que era uma câmera digital.
Fotos. De Manu com outra. Com Lucy.
- Lucy? – Minha voz falhou naquele instante.
- O que acha? – Ele olhou nos meus olhos. Esse era o tipo de atitude que eu esperaria do seu irmão, não dele.
Grunhi alto. A sensação de que eu poderia voar no pescoço de alguém não estava muito longe de mim agora. Comecei a arfar, a raiva me subia pela corrente sanguínea. Ouvi passos no corredor. Manu entrou na sala.
- Como explica isso? – Eu disse enquanto colocava as fotos na frente de Manu.
- Eu... Eu... – Ele olhou um pouco desnorteado. Então seus olhos se voltaram para Michaelo. – Sanguessuga! Foi você! Você que armou tudo isso, não foi? Você é cruel!
- Eu? Eu não fiz nada. Você que teve um imprinting com a irmã dela... – Michaelo apontou para mim.
- O quê? – Eu gritei. – Como você pode? Um imprinting com a minha irmã?
- Diga a verdade! – Manu me ignorou. – Foi tudo um plano seu!
- Meu? Não. Eu apenas vim procurar por ela. Você que colocou seus olhos sobre a moça e se apaixonou perdidamente por ela. – Michaelo se aproximou de mim. – Que mau, não é? Trair uma garota com a própria irmã... – Michaelo balançou a cabeça.
- Você sabe muito bem que um imprinting é incontrolável. – Manu disse entre dentes.
- Mas você conseguiu controlar muito bem o fato de não dar com a língua nos dentes, não é? – Michaelo provocou. – Eu a observei. Noites sozinha, esperando você chegar. Eu sempre estive por perto enquanto você a esquecia com Lucy.
- Eu... Não... A esqueci. – Manu trincou os dentes.
- Mas também nunca se lembrou dela. Ah, Logo quando ela estava ficando tão a fim de você... – Michaelo fez um falso suspiro.
- Você estava...? – Manu olhou para mim.
Assenti.
- Ela até estava preocupada contigo, você não sabia? – Michaelo mostrou seus dentes. Ele estava sendo monstruoso. – E sabe do que mais? Ela sempre demonstrou amor verdadeiro por aquela garotinha... Tsc... Como se ela fosse parecer mesmo filha de vocês dois...
Manu olhou para mim e para Michaelo. Dos pés a cabeça.
- Quer saber? Eu assumo. Foi culpa minha sim. – Ele subiu o tom. – Mas e daí? Eu sou homem! Ainda que metade humano, mas eu sou homem! Homens erram todo o tempo! Faz parte de mim! E se você não quer errar... – Ele abaixou a voz. – Fique com esse... Senhor Perfeição aí do seu lado. – Ele disse sua ultima frase olhando nos meus olhos e apontando para mim.
Os olhos de Michaelo se voltaram para mim.
Arfei novamente.
E me posicionei no meio dos dois, de um jeito que podia vê-los perfeitamente.
- Querem saber o que eu penso de vocês dois? – Eu comecei.
Não deixei que eles respondessem.
- Vocês são dois monstros. Isso sim. Você, Michaelo, por ser tão cruel. Você consegue ser um lobo numa pele de cordeiro. E você, Manu... Eu pensei que merecesse o significado do seu nome. Por que de amigo, você não tem nada.
Eles me fitaram boquiabertos, sem dizer uma palavra. Fui na direção da porta.
- Aonde você vai? – Eles perguntaram ao mesmo tempo.
- Qualquer lugar onde vocês não me encontrem. Vocês me desejaram tanto, que agora nenhum de vocês vai ter.
Disparei pela porta. Outra vez.
Capítulo 25 – Cena de cinema
A menos que eles quisessem revelar sua identidade ao público de San Francisco, eles não me encontrariam. Mais uma vez eu não tinha planos. A possibilidade de dar um fim a mim mesma era muito tentadora. Mas nada aconteceria. Eu poderia me jogar na frente de um carro em movimento. Mas eu o amassaria e provavelmente mataria o motorista. Pensei em pular da Golden Gate. Muito teatral? Talvez. Mas as hélices dos navios não conseguiriam cortar a minha pele. Provavelmente eu quebraria a hélice e... O navio afundaria. Por fim, lembrei de uma das poucas coisas que Gregor Hartwig me ensinou e que realmente me interessaram: “Só um vampiro pode destruir outro, até mesmo um meio-imortal”.
Um sorriso iluminou meu rosto. Quem seria capaz de fazer isso para mim? Eu tinha duas opções. A primeira, Os Havaianos, os vampiros que me atormentaram na minha jornada pela guarda de Linei. Eles já não estavam sendo muito amigáveis, quem sabe se eu os provocasse...
Infelizmente isso não seria possível. O Havaí seria um dos primeiros lugares onde eles me procurariam. Portanto, de nada valeria meu esforço.
A segunda opção, Os Volturi. Os Vampiros mais temidos por todos. Eu teria duas escolhas a fazer caso fosse para a Itália. Viver como eles. Ou provocá-los. Estava nítido que a qualquer momento eu escutaria um sermão de boas vindas vindo de Aro. Mas eu estava pronta para agüentar isso. Eu estava pronta para agüentar qualquer coisa.
Eu estava andando na Golden Gate quando uma voz masculina chamou a minha atenção.
- Reneé. – A voz grave não era nada além de um sussurro na ventania.
Parei e me virei.
Michaelo correu entre os carros na minha direção. Parou o trânsito na ponte, Literalmente.
Ele me segurou pelo pulso.
- Me escute. – Ele disse para mim. Sem se importar com os motoristas mal-educados.
- Eu não quero escutar. Pra mim já chega. – Eu disse entre dentes.
- Por favor. – Ele implorou.
- Como eu posso escutar quando eu já vi e ouvi o bastante?
- Não, você não viu, e não ouviu o bastante. – Ele retrucou.
- Você não tem provas disso. – Retruquei também.
- Mas eu tenho testemunhas disso.
- T-testemunhas? – Gaguejei.
Ele largou levemente o meu pulso e foi para a borda do círculo de carros que havia se formado à nossa volta. Subiu em um deles. Uma linda Mitsubishi eclipse vermelha. Não provocou um arranhão sequer.
Sua voz leve, que era inaudível aos ouvidos humanos, e por isso formava um circulo deles à nossa volta, se tornou tão forte quanto um trovão.
- Reneé Michelle Wolf! Se antes duvidava de que eu podia ter sentimentos, agora tens a minha prova. Arrependo-me publicamente de qualquer coisa que a ti tenha feito. E assumo a minha culpa. Mas quero que saiba que aquele Michaelo que você conhecia não existe mais. Você está de frente para Michaelo Vittore, o cara que ama você do jeito que você é, incondicionalmente e acima de qualquer coisa. Você é mais do que a vida para mim, Reneé. É a minha existência.
Não foram as suas palavras que me comoveram. Foram seus olhos. Não o seu jeito de me encarar. Foi a cor de seus olhos. Que adquiriram uma textura suave e o tom dourado. Ele realmente havia mudado.
Ele sinalizou com as mãos para que eu subisse no carro também.
Resisti. Mas um grupo de humanas me empurrou até ele. E eu não podia resistir novamente e ficar parada como uma estátua de mármore. Subi no carro também.
- Você me perdoa? – Ele sussurrou enquanto passava a mão delicadamente no meu rosto.
Ele não estava pedindo desculpas. Ele estava pedindo perdão.
Tranquei a minha cara por um instante. Pude ouvir e ver as reações das pessoas num raio de aproximadamente cinco metros.
Eu sempre quis fazer isso, então era melhor fazer certo.
- Eu aceito. – Abri um sorriso.
Ele sorriu também, seus olhos dourados brilharam refletindo meu sorriso. E dessa vez, ele não me abraçou como faria em qualquer situação. Ele me beijou. Para delírio meu e dos humanos expectadores. Eu não estava disposta a me conter agora.
Sabia que não era mais preciso por que agora não havia nada a temer. Ele não era mais um Volturi. Ele nunca mais me ameaçaria, nunca mais me colocaria em perigo. E para sempre me amaria, como o prometido: incondicionalmente. Ele me aceitaria como eu era. Repleta das minhas limitações dos dois lados, o lado vampiro e o lado humano. Com amigos lobisomens e uma... Filha. Ele delicadamente segurou meu rosto para me conter em público. Corei.
Algo me dizia que não acabara por ali. Ele segurou as minhas mãos e olhou nos meus olhos. Vi minha expressão refletida
outra vez.
- Casa comigo? – Ele murmurou.
- Sim. – Eu sorri.
Beijamos-nos outra vez. Como numa cena de cinema.
Capítulo 26 – Retorno
Michaelo e eu andávamos pela rua de mãos dadas. A essa altura eu havia esquecido que estava vestida como noiva. Podíamos muito bem estar nos casando agora.
Ele pareceu ler meu pensamento.
- Sei que pelo modo como está vestida, nós podíamos estar nos casando agora. Mas eu gostaria de dá-la uma festa digna.
Apenas sorri.
- E o que vai ser de nós agora? – Perguntei.
- Como assim? – Ele pareceu confuso.
- Eu quero dizer... Pra onde vamos?
- Nós? – Ele riu – Vamos voltar para casa, é claro.
- Voltar para Forks? – Eu parei.
- Sim, qual o problema?
- Eu... Gostei daqui. Não me leve a mau, mas eu me apeguei aos rapazes também.
Ele riu.
- Acho que apesar de todas as diferenças eles souberam como cuidar de você.
- E... Além disso... Eu tenho uma filha para cuidar.
Michaelo levantou a sobrancelha por um instante e então a abaixou.
- A garotinha? Ela parece amável. Ela pode vir conosco, se você quiser. Ou se os rapazes deixarem.
- E eles vão deixar? – Perguntei sem esperança.
- Eles confiam em você, Reneé. – Ele disse ao passar a mão levemente no meu rosto.
- Io ti amo. – Eu disse segurando sua mão no meu rosto.
Ele sorriu.
- Mia cantante. – Ele disse olhando nos meus olhos. – O sol não é mais brilhante do que os seus olhos... Siete mio sole.
Corei. Por um lado, eu adorava ouvir sua pronúncia musical e fluente de italiano, mas por outro, não entendia o que ele dizia.
- Você é meu raio de sol. – Ele traduziu.
Eu sorri.
Ele me puxou levemente, estávamos no prédio dos rapazes.
Subimos rápido pelos lances de escada até chegarmos ao apartamento deles.
- Eu acho melhor não... – Eu falei.
- Não se preocupe. – Ele tentou me acalmar. – Não é preciso ser a Alice pra saber o que vai acontecer.
- Esse é o meu medo. – Confessei.
- Não vai ser tão difícil assim. – Ele amenizou.
Eles pareciam ter nos ouvido conversar. Owena abriu a porta, com uma expressão não muito amigável.
- Podem entrar. – Owena disse.
Percebi que todos utilizavam da mesma expressão naquela sala. Tremi.
Lua estava segurando Linei para perto de si. Linei parecia querer escapar de seus braços, mas ela não conseguia.
- Viemos só conversar. – Michaelo esclareceu.
- Fiquem à vontade. – Manu não parecia à vontade comigo por perto. Eu podia entender o motivo.
- Er... Manu, eu preciso falar com você primeiro. – Não estava nos meus planos, mas ainda sim uma hora isso teria de acontecer.
Manu não hesitou e foi comigo até o corredor.
- Eu sei sobre o que você quer falar. – Ele disse.
- Mas por favor, não me interrompa. – Eu lhe disse com calma.
Ele assentiu.
- Eu quero que você me perdoe. – Pedi.
- Ei, eu é quem deveria estar te pedindo perdão! – Ele interrompeu.
- Sem interrupções, Manu... – Pedi outra vez.
- Desculpe... – Ele colocou a mão no pescoço, parecia cansado ou um pouco envergonhado.
- Me perdoe por ter sido um monstro com você hoje. Eu realmente não consegui me controlar. Você... Me pegou de surpresa.
- Tudo bem... – Ele disse. – Me desculpe por ter sido infiel, eu mereci ouvir tudo aquilo de você hoje. Eu fui um péssimo amigo para você. Mas eu prometo que de agora em diante, eu serei melhor.
Sorri. E ele me abraçou.
Quando voltamos à sala, Michaelo me esperava ansioso para a conversa. Assenti para que ele começasse.
- Nós viemos comunicar que... – Michaelo fez uma pausa, incerto. – Voltaremos para Forks.
Para minha surpresa, eles pareciam um pouco tristes, com exceção de Iwin.
- Vocês vão? De verdade? – Manu começou a falar. – Eu vou junto com vocês.
- O que? – Era para ser algo estridente, mas eu não consegui.
- Sim, eu não posso ficar mais longe de Lucy. Tenho que estar onde ela estiver. E... Ela está em Forks...
- Não, ela não está. – Falei.
- Está sim. – Michaelo corrigiu.
- Como assim? – Perguntei.
- Ela teve de voltar ontem para Forks. Tinha umas – Ele pigarreou – complicações para resolver.
- Complicações? – Perguntei com receio.
- Falamos sobre isso depois, está bem? – Ele propôs.
Kimo pigarreou, chamando a atenção.
- Se você vai para Forks, nós também vamos.
- O que? – Iwin estava completamente perturbado agora.
- Não podemos separar o nosso bando. E nós também não temos para onde ir. Sobreviver nessa cidade escondendo o que nós somos está ficando muito difícil. Já que Manu vai para Forks, nós vamos junto com ele.
- Parece justo. – Owena concordou.
- É... – Palani parecia sério. – Eu concordo com Kimo.
Iwin permaneceu aborrecido.
- Eu concordo com Kimo também. – Lua respondeu. – Então agora... A Linei é sua de volta, Reneé... – Lua soltou os braços e Linei veio correndo na minha direção.
- Ouviu só, Linei? – Eu disse enquanto a abraçava. – Vamos ficar juntas agora...
Ela sorriu. Olhou nos olhos de Michaelo e sorriu para ele também.
O silêncio prevaleceu por alguns minutos.
- Então... Nós deveríamos estar arrumando nossas malas agora. – Kimo propôs.
- Sim. – Michaelo concordou. – Quanto antes chegarmos em Forks, melhor.
- Por quê? – Perguntei.
Michaelo hesitou, mas então respondeu.
- Na certa, seus pais já sabem da nossa volta. Do jeito que eles estão preocupados, podem acabar vindo nos buscar.
Eu ri. Mas Michaelo parecia tenso. Será que ele estava escondendo alguma coisa?
Capítulo 27 – Impacto
Chegamos em Forks. O céu estava nublado, as nuvens espessas e pesadas pairando sobre nós.
- Eu vou sentir saudade do sol. – Linei disse ao encarar o céu.
- É, eu também. – Comentei.
Os rapazes riram.
Michaelo olhou para mim, e disse sem fazer som, ao fazer sua leitura labial, pude entender o que ele queria dizer: Siete mio sole.
Eu sorri gentilmente e disse:
- Obrigada.
Andávamos a uma velocidade de 100 km/h no carro alugado. Kimo parecia não ter pressa, mas Michaelo queria que ele fosse ágil.
- Agora pegue esse caminho, Kimo. – Manu apontou para uma estrada que fugia à nossa rota.
- Nossa casa não é por ali. – Eu disse.
- Nossa nova casa é por a ali. – Michaelo corrigiu.
- Hã?
- Você vai ter uma hã... Grande novidade. – Michaelo sorriu.
O carro entrou na pequena estrada na floresta, um a rota quase invisível. Ao chegarmos, nos deparamos com um grande casarão.
- Oh. Meu. Deus. – Eu estava boquiaberta.
- Levou menos de uma semana para ser terminada. – Michaelo falava orgulhoso.
- É... Linda. – Eu disse.
Todos os demais pareciam deslumbrados demais para dizer alguma coisa.
Era uma casa branca, não muito chamativa. Toda a sua decoração externa remetia a uma espécie de camuflagem. Como se ela realmente fosse ficar invisível na floresta. Janelas grandes, a porta também. E um belo jardim que diferenciava o tapete verde da floresta.
- O tapete de pedras foi idéia de Emmett. – Ele riu.
Eu abri a porta do carro, ansiosa. Eu queria estar lá dentro.
- Ansiosa para conhecer lá dentro? – Michaelo segurou meu braço. – Vamos fazer isso com calma.
Esperamos que todos saíssem do carro, ainda deslumbrados. Caminhamos tranquilamente pelo caminho de pedras no jardim. Subimos as escadas e eu toquei a campainha.
Num piscar de olhos, Valeria já estava abrindo a porta.
Ela me abraçou. Muito, muito forte.
- Reneé. Minha Filha... – Ela me disse enquanto ainda me abraçava. – Seja bem vinda de volta.
- Mãe... Me desculpe por ter sido tão rebelde... – Eu falei.
Ela sorriu. E então fitou os outros que nos acompanhavam. Seu nariz franziu por um minuto.
- Você trouxe seus... Novos Amigos... Eles vão passar alguns dias conosco?
Ninguém sabia o que dizer.
- Vamos entrar... E conhecer a casa... – Michaelo tomou a iniciativa, fazendo com que todos entrassem.
A casa parecia maior do que eu poderia imaginar, vendo do lado de fora. Eu podia ter certeza que a decoração leve fora uma idéia de Esme. Ela era muito boa com isso. Vi Lucy e Peter sentados na poltrona, os Cullen estavam com eles também. Não vi Alex nem Blair. Mas ainda sim, não perguntei.
- Reneé! – Peter e Lucy sorriram ao me ver. Eles vieram ao meu encontro.
- Papai... Lucy... – Eu dei um abraço duplo e então me virei para ver todos. – Esperem um minuto, ninguém vai ficar bravo, preocupado ou rancoroso comigo?
Valeria riu.
- É claro que vamos, mas a gente ainda tem uma eternidade para resolver isso...
- Ah sim, é claro, agora nós temos todo o tempo do mundo... – Debochei.
Eles riram.
Edward pareceu ler o que eu estava prestes a falar e pareceu um pouco incomodado.
- Alex e Blair? Onde estão?
- E... Eles estão lá em cima com Carlisle. – Lucy respondeu, gaguejando. – Nós vamos falar sobre isso com você mais...
Eu não deixei que ela completasse a frase.
- Alguém precisa levar as novidades para eles. – Disparei pela escada sem mesmo saber onde eles estariam.
Olhei por todo o corredor e todas as portas que estavam abertas. Os quartos eram fabulosamente decorados. Não era como na casa dos Cullen, onde a decoração tinha um traço único. A decoração era única, tinha um traço de cada um que ali morava. Isso me fazia sentir em casa. Mais do que em San Francisco. Ali sim, era o meu lugar.
Dei passos muito leves até escutar o fio de uma conversa. Eram só sussurros, mas ainda sim pude entender alguma coisa.
- Tem alguém vindo... – Era a voz calma de Carlisle.
- Eu sei. – Era a voz de Alex, um pouco perdida de seu tom original. – É ela.
- Vai deixar que ela veja? – Carlisle falhou um pouco.
- O que posso fazer? – Alex falhou.
- Poupá-la. – Carlisle pareça não concordar muito com o próprio tom.
- Ninguém consegue esconder nada nessa casa. É melhor deixar que...
Agora Alex estava na minha frente.
- Oi, Reneé. É bom tê-la de volta.
- Senti saudades de você. – Eu o abracei, tentando olhar pela porta entreaberta, as costas de Carlisle bloqueavam a minha visão.
- Eu também... – Sua voz falhava constantemente.
- E Blair? Onde está?
Alex hesitou. Ouvi um barulho abafado e então uma voz fraca.
- Estou bem aqui. – A voz vinha do quarto onde Carlisle estava.
Apressei-me na direção da voz. Alex me segurou.
- O que deu em você, Alex? – Diversas expressões passaram por nossos rostos naquele instante.
Alex respirou fundo.
- Eu não queria que você visse o que está prestes a ver. – Ele parecia muito abalado.
Nervoso, estressado? Eu não sabia o que melhor poderia defini-lo.
- O que é isso? É algum tipo de...?
Alex não deixou que eu completasse meu raciocínio. Ele me puxou pelo corredor até a porta do quarto. Onde eu provavelmente tivera o maior impacto de minha vida.
Blair estava grávida e em uma cama.
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