"New Blood"



Prólogo

Eu costumava dizer que problemas nunca vinham isolados. Nunca estive tão certa disso. E se por algum acaso, para proteger quem amo fosse preciso arriscar a minha vida... Eu o faria sem pensar duas vezes.


Capítulo 1 – Novo Destino

Não era meu desejo sair do Tibet. Nem da minha família. Era desejo de uma espécie. Eu não suportava passar tanto tempo naquela cordilheira gelada. Mas agora sentia falta dela. Sentia falta do tempo em que tinha que sair de casa superprotegida – Com vários casacos, no mínimo! – para não me congelar, mas agora, já me sentia tão acostumada com aquilo...
- Eu estava começando a gostar do Tibet agora... – Comecei.
- Eu sabia que um dia você ia admitir, mas não pensava que fosse tão tarde! – Peter respondeu, tirando os olhos do volante e os fixando em mim.
- Ah querido, todos nós demoramos a nos acostumar, não lembra? – Valeria colocou a mão em seu braço e a sua face se iluminou num sorriso.
- Se fazem tanta questão, podemos voltar em alguns anos... – Ele sugeriu.
- Ah, que lindo, vamos voltar em alguns anos... – Debochei.
- Você tem que entender, Reneé, não foi uma decisão minha. Mas veja pelo lado bom, podemos conhecer o mundo inteiro durante esse tempo!
- Ou pelo menos a parte mais gelada dele. – Alex emendou.
Ele ignorou o deboche de Alex e continuou:
- Vocês vão ver, os anos vão passar mais rápido do que vocês imaginam!
- Não tão rápido quanto a nossa velocidade nessa estrada, eu suponho. – Lucy debochou, olhando-o nos olhos.
- Lucy, você nunca reclamou do jeito como eu dirijo rápido. O que houve?
- Quer mesmo que eu diga? – Indagou.
- Atreva-se, queridinha.
Ele mostrou todos os seus dentes brilhantes em um único meio sorriso. Lucy se encolheu no banco e tampou os olhos com as mãos. Eu já não me surpreendia com os atos de Peter que o faziam parecer tão... Selvagem. Já era normal pra mim. Mesmo eu sendo meses mais nova do que Alex e Lucy, os gêmeos. Peter sempre disse que dos três, eu era a que tinha estômago mais forte
– mais uma vez, era por que isso já se tornava normal pra mim –, então eu poderia me tornar um membro “de verdade” da família Wolf. Parece contraditório o fato de uma família de vampiros – ou melhor, majoritariamente formada por eles – ter como sobrenome Wolf. Mas parece que o destino não escolhe sobrenome.
- Querido, não seja tão rígido com Lucy. Ela vai entender, apenas dê tempo a ela. – Valeria tentou acalmá-lo.
- Mas, querida, não posso perder tempo.
- Mas eu posso. – Lucy sussurrou. Peter soltou um rosnado baixo, mas alto o suficiente para fazer Lucy ficar com medo e encolher-se novamente.
- Eu não vou perder mais o meu tempo discutindo com vocês três. Estamos indo para Forks e ponto final.
Peter virou-se para o volante e parecia não prestar mais atenção em nós. Valeria olhava sem reação enquanto tentava tranqüilizar Lucy. Mais uma vez.
Por mais que parecesse normal pra mim, eu não estava acostumada com duas coisas. A primeira, de me tornar vampira algum dia. A segunda, de estar indo para uma cidade tão desanimadora e pouco atraente. Nós poderíamos muito bem estar indo para uma cidade ensolarada. Rio de Janeiro. Meu sonho desde pequena. Valeria disse que minha família era de lá, e que veio num avião de pequeno porte para o Tibet. Porém, o avião caiu e – milagrosamente – eu fui a única sobrevivente. Meus pais viraram “o banquete”. Depois de certo tempo, essa história chega a ser até engraçada. Humor Trágico. Então, desde que Peter anunciou nossa saída do Tibet, eu alimentava esperanças de um dia conhecer aquele lugar. Não foi dessa vez. Ao chegarmos em Forks, nos deparamos com nossa casa. Era opaca, mas era nossa casa. Mas aquele certamente não seria o lugar que eu chamaria de “nosso lar”.

Capitulo 2 – Programa em família
Era tarde, sinal disso é que eu estava começando a ficar com sono, mas não estava preocupada com o relógio. Na verdade, eu preferia que as horas se arrastassem, até que o dia seguinte não chegasse. Mas infelizmente, ele chegaria. Eu estava vendo televisão com Lucy e Alex, sob o olhar atento e carinhoso dos olhos cor-de-mel de Valeria.
Porém, minha atenção saiu dos olhos de Valeria para os olhos cor de fogo de Peter. Ele queria caçar.
- Acho melhor não. Nós não conhecemos a região ainda. – Valeria sugeriu.
- Não quero caçar com você. Você nem está com sede. – Ele revidou.
- Vai sozinho então?
- Não, vou levar uma das crianças.
Crianças. Era assim que ele nos tratava, pelo simples fato de não sermos iguais a ele. Ainda me pergunto por que eu fui salva e por que ele se casou...
- Se alguma delas realmente quiser ir...
- Eu vou. – Respondi apenas para proteger Lucy e Alex. Por algum motivo, eu me sentia como a irmã mais velha. Mesmo, obviamente, sendo mais nova e nem sendo da mesma família que eles.
- Não precisa por hoje, Reneé. Você caçou comigo durante o ultimo mês inteiro. Pode descansar um pouco.
- Não, papai. – Implorei pelo seu lado sentimental, mesmo que aquilo fosse entediante pra mim. – Eu quero ir com você.
- Mas eu não.
Ele era cheio de respostas. Eu também. Mas não havia como discutir mais. Ele simplesmente ia puxar um dos gêmeos pelo braço e levar para caçar no meio do mato. Eu estava com medo de saber qual deles.
Mas alguma parte de mim já sabia a resposta.
- Lucy, vem comigo.
Lucy olhou com os mesmos olhos assustados de sempre, mas já não conseguia mais lutar contra as imposições.
Alex me olhou profundamente e se levantou.
- Eu quero ir junto.
- Se ele pode ir, eu vou também! – Reclamei enquanto deixava o tom o mais convincente possível.
- Se vocês todos vão caçar, eu quero ir junto, vai ser um programa de família! – Valeria dizia enquanto de levantava da poltrona.
Peter não tinha saída. Ele não podia negar uma caçada em família. Aposto que esse era o sonho dele se realizando. Saímos juntos, Peter na frente, os gêmeos atrás, Valeria e eu atrás deles. Chegamos até uma pequena clareira. Era pouco iluminada, apenas alguns feixes de luz da lua passavam por entre as árvores altas que cobriam a maior parte do local.
- É o local perfeito. Vamos caçar por aqui esta noite.
Eu me sentei no chão, enquanto distraía os gêmeos que tentavam abrir os botões das flores que cobriam a campina. Peter e Valeria procuravam pelo cheiro de algum animal. Nosso sistema de caçadas não era muito complexo: As crianças eram as iscas e os adultos os caçadores.
Era por este motivo, que não era bom deixar Lucy sozinha. Se por um lado eu era a mais forte, Lucy era mais frágil do que porcelana. Ela poderia se machucar facilmente, e não era preciso ter poderes para prever o que aconteceria com ela se ela se machucasse durante a caçada.
- Acho que não escolhemos um bom lugar, não devem existir muitos animais por aqui. – Valeria comentou.
- É uma questão de tempo. Eles vão aparecer. Vamos nos esconder, talvez eles nos viram.
Eles saíram do meu campo de visão, então estávamos os três (os gêmeos e eu) sozinhos.
Uma movimentação surgiu por entre as folhas, e nós nos preparamos para correr. Mas para o nosso bem – ou não – não era exatamente um animal. Era uma silhueta humana, acompanhada de um cão de caça. A pessoa portava de uma arma, e ao se aproximar de nós, Valeria e Peter cercaram o homem por trás. Pobre homem. O cão de caça fugiu. Mas os caninos não eram os favoritos de Peter. Era o que parecia.

Capítulo 3 – Sangue novo na área
No dia seguinte, fomos à escola acompanhados de nossos pais. Estava chovendo e por isso eles poderiam se expor normalmente. Eu parecia não ser a única que não estava gostando da idéia de enfrentar dias longe do sol. Lucy e Alex também. Desconsiderando o fato de que eles pensavam quase sempre de uma mesma forma.
Éramos notícia na escola. Os novatos. Os estrangeiros. O sangue novo na área. Vários alunos resolveram se apresentar a nós. Não éramos muito sociáveis, mas acho que conseguimos fazer alguma amizade. Mas na maior parte do tempo, passávamos os três juntos. Durante nossa primeira aula de educação física, estávamos dispostos a trapacear colocando todas nossas técnicas de sobrevivência na caça em jogo. Mas isso poderia ser um pouco arriscado. Alex e eu fazíamos revezamento para a segurança de Lucy. Não gostaríamos de vê-la machucada, mesmo perto de vários humanos... Como nós.
Com o fim da aula de educação física, me troquei rápido e deixei Alex esperando Lucy, enquanto eu saí em direção ao refeitório para guardar uma mesa para nós. Mas eles não apareceram.
Fiquei alguns minutos esperando, então um grupo de alunos – que por sinal, eram da mesma sala que eu – passou perto de minha mesa comentando.
- Coitada da novata... Ela deve estar na enfermaria agora.
- Novata? – Levantei da mesa num pulo – Você quer dizer... Lucy Wolf?
- Sim, é ela.
- Onde ela está? – Se eu estivesse fora do meu corpo, poderia ver a cor dos meus olhos mudando. Do castanho para o dourado e depois para o rubi.
- Ela está na enfermaria, é claro.
- Mas onde é a enfermaria?! – Tive o impulso de segurar no braço da aluna, mas seria muito perigoso, se eu perdesse o controle poderia destroçar o braço dela.
Fui guiada pela mesma aluna até a enfermaria, onde entrei abrindo caminho e fazendo barulho, sem respeitar as placas de silêncio. Encontrei uma porta aberta e entrei, e lá estavam Alex, Lucy na maca e o médico.
Jovem, louro e pálido, com uma beleza que até então eu achava que só encontraria no cinema. Um cheiro familiar rapidamente passou pelo nariz, mas antes que eu o pudesse reconhecer, foi substituído pelo cheiro da medicação forte.
- Lucy! O que houve? – A pergunta saiu no mesmo tom de uma exclamação.
- Ela bateu com a cabeça no banco do vestiário depois de escorregar. – Alex respondeu num tom de derrota.
- Ela vai ficar bem. Foi um machucado superficial. – O médico virou-se na minha direção
– Você é...
- Sou irmã deles.
Ele me olhou tentando encontrar alguma semelhança notável.
- Sou filha adotiva. – Esclareci.
- Acho melhor ligarem para os pais de vocês. É melhor não saírem sozinhos com a irmã de vocês assim.
- Está bem. Ligaremos para eles. – Concluí.
Fomos até o balcão da sala de espera para ligar para os nossos pais. Agora era só esperar que eles chegassem. Considerando a direção louca de Peter, eles estariam aqui em menos tempo do que eu poderia imaginar, mas não foi bem assim.

Capítulo 4 – Semelhanças entre espécies
Ficamos um tempo esperando por nossos pais. O relógio indicava que era hora do almoço. Agora eles deveriam aparecer. Estávamos sentados num banco de frente para a porta, Lucy estava com a cabeça apoiada no meu ombro e Alex tentava acalmá-la do choque da queda. Foi quando eu senti um cheiro, o mesmo cheiro que eu havia sentido ao entrar na sala do médico. Agora estava ficando forte, próximo. Logo reconheci a familiaridade. Era o mesmo cheiro que ficava em minhas roupas depois de uma caçada. Cheiro de sangue de presa. Cheiro de predador. Cheiro de Vampiro.
Foi quando dois jovens extremamente bonitos – um rapaz e uma moça – passaram pela porta da enfermaria. O rapaz era pálido, olhos dourados, olheiras não muito profundas e o cabelo tinha um tom quase-ruivo. A moça era baixinha, cabelo curto, feições de fada e andava em passos de bailarina. Quando nossos olhares se cruzaram, ambos pararam e começaram a falar; baixo e muito rápido. Mas consegui entender algo que o rapaz disse: “A menina tem sangue, mas não tem cheiro de ser humano”. Cheirei a minha jaqueta. Eu a havia colocado várias vezes para lavar, mas ainda tinha cheiro de sangue de animal. Droga.
Alex me olhava surpreso, como se seus olhos expressivos pudessem dizer: “O que são eles?”. Nunca soube como responder às perguntas de Alex com os olhos. Era como se você soubesse falar, mas fosse um analfabeto.
Então fiquei em silêncio, olhando os ponteiros do relógio, retendo meus pensamentos a quando nossos pais chegariam.
Não muito tempo depois, Valeria chegou. Cruzou a porta com seus passos de modelo chamando a atenção de todos. Principalmente dos jovens e do médico.
Ela nos levou embora sem muitas explicações, me entreguei à curiosidade de olhar pra trás e ainda ver os dois jovens conversando. Nós éramos o assunto principal hoje.
Em casa, eu fazia as minhas tarefas: ciências, história, geografia. Peter ainda estava trabalhando, Valeria estava ajudando Lucy, e Alex estava ao meu lado.
- Já terminou suas atividades, Alex? – Senti o peso de estar sendo observada.
- Já. – Ele abriu um sorriso expressivo no rosto. Contagiante.
- Não tem algo mais interessante para fazer? – Fui sincera.
- Não. – Ele também foi sincero, pude perceber isso.
Fechei o livro de geografia e propus:
- Quer dar um passeio comigo então?
- E o seu dever de casa?
- Eu copio de você amanhã.
- Tudo bem, então. Mas até onde vamos?
Até onde? Boa pergunta. Eu não conhecia absolutamente nada de Forks.
- Veremos até onde vamos, é uma boa chance de conhecer a cidade. – Respondi.
- Então está bem.
Saímos com nossas capas de chuva – dessa vez, estava sem a minha jaqueta – sem algum destino em mente. Apenas para conhecer a cidade.
Mas nós parecíamos estar andando ao lado contrário da cidade. Deparamos-nos com uma estrada com diversas aberturas para trilhas.
- Acho que estamos indo para o lado errado. – Comecei.
- E você sabe qual é o lado certo, por acaso? – Ele interrompeu.
- Não, mas eu suponho que seja...
De repente, parei de falar. Alex me olhou, esperando que eu completasse a frase, ou desse alguma resposta á pergunta mental “Por que você parou?”. De repente, o mesmo cheiro do hospital veio em minha direção, agora de um sentido que eu não podia saber qual era. Ventava bastante e a chuva atrapalhava meu olfato. Puxei Alex pelo braço e nos escondemos atrás de uma árvore.
- Por que você...
- Shhhh! – Interrompi com a mão na frente da boca.
Um carro passou pela estrada a uma velocidade absurda. Um volvo prata. Ao parar, dele saíram duas pessoas, uma menina, branca de cabelo escuro e um pouco longo, de face inocente, e o mesmo rapaz que eu havia visto no hospital. Era ele.
Ele a deixou na porta, conversaram por instantes, então ele voltou ao seu carro, e partiu a uma velocidade extrema. Então o cheiro cessou.
Certifiquei-me de que a garota havia entrado, então puxei Alex de volta para a estrada.
- O que foi isso? Medo de ser atropelada? – Ele debochou.
- Você não sentiu? – Perguntei.
- Senti o quê?
- Um cheiro... Não sei como explicar, é algo estranho.
- Se estiver falando do cheiro de madeira podre que tem essas árvores...
- Não estou falando de árvores, Alex.
- Está falando de quê?
- Ah, esqueça disso, Alex.
Por um minuto, pensei estar ficando doida.
Era como se todos os atos por mim testemunhados se misturassem, sendo impossível de identificar qual problema eu deveria resolver primeiro. Qual dúvida esclarecer. A única coisa de que eu sabia naquele momento era que eu estava ficando doida. Apenas isso.

Capítulo 5 – Medo
Alguns dias se passaram, e era um dia de sol, Peter nos deixou na escola, mas não saiu de seu carro. Já deveríamos estar nos acostumando com isso, mas ainda parecia recente. Nunca falei diretamente com Peter ou Valeria sobre o acontecimento que Alex havia presenciado. Alex pensava que eu estava ficando doida por que assim como ele eu odiava a cidade e estava criando lendas para tentar sair o mais rápido possível dela. Seria mesmo verdade, que eu estava usando “lendas” como pretexto para sair de Forks? Não seria possível, pois eu convivia diariamente com duas lendas na minha casa. Peter e Valeria.
Fora de questão. Agindo assim, eu estaria com medo da minha família. Medo do meu destino.
Mas era verdade. Uma parte de mim tinha medo do que eu podia ser. Tinha medo que eu me transformasse em algo como o Peter. Por mais que ele fosse meu pai – adotivo, mas era meu pai–, eu não gostaria de sacrificar inocentes –mesmo que animais– para a minha satisfação. Por outro lado, a chama da esperança pelo dia da minha transformação brilhava incessantemente em algum lugar dentro de mim. A esperança de que eu pudesse viver o tempo que eu quisesse, e proteger às pessoas que eu amava. Principalmente Lucy.
Mas por outro lado...
Eu sempre fazia isso. Criava uma corrente de idéias que terminava no mesmo ponto em que começava.
O rapaz e seus irmãos não estavam na escola. A garota sim, estava lá, cercada por outros alunos, mas parecia não prestar a atenção neles.
Naquela noite, Peter e eu fomos caçar. Eu pretendia servir de isca apenas para animais menores, mas mais uma vez me deparei com caçadores. Dessa vez era um trio deles.
Em um golpe, Peter acabou com todos eles. Virou-se pra mim e ofereceu o pouco do sangue que ainda restava.
- Não obrigada. – Me contorci enquanto resistia às imagens fortes que eram projetadas à frente dos meus olhos.
- Tudo bem. Eu dou conta disso sozinho.
Eu fechei os olhos. Mas era capaz de saber o que ele estava fazendo.
Então voltamos para casa. Mas por ele, ficaríamos a noite toda caçando imprudentemente.
Ao chegar em casa, coloquei minhas roupas daquela noite para lavar. Espero que com lavagens consecutivas, eu possa voltar a cheirar como humana.
No dia seguinte, durante o horário de almoço na escola, ouvi alguém comentar numa mesa atrás de mim:
- A cidade está muito violenta. Esse é o sexto caçador que desaparece na floresta.
- Eu não entendo! – Uma menina completou. – Esses caras pareciam tão experientes!
Ao ouvir is relatos, Alex e Lucy olharam para mim. Eu parei de comer e olhei na direção da minha própria testa.
- Pode ter sido um ataque de urso. – Falei entre os dentes.
Mas eles sabiam que não era.

Capitulo 6 – Exposição
Levantei a cabeça e encontrei com os olhos cor-de-ônix de todos os cinco, me encarando. Aquilo era incômodo, levantei da mesa e saí do refeitório. Lucy e Alex me seguiram, cheios de perguntas.
- O que houve? – Lucy começou.
- Não me senti muito bem. – Respondi, tentando manter a calma, mas o sangue insistia em esquentar.
- Foi algo que aqueles alunos disseram? – Alex perguntou envergonhado.
- Não. – Fechei as mãos em punho. Pronta para dar um soco.
- O que foi então? – Lucy disse com sua voz doce e ingênua.
Lucy passou a mão pelo meu braço para me acalmar. Soltei num ato sem pensar. Lucy ficou assustada, e eu mais ainda, por estar me deixando levar por uma simples crise de raiva. Não era por que eu estava brava, que os outros teriam que agüentar as conseqüências.
- Diz. O que foi? – Eles disseram ao mesmo tempo.
Então uma série de imagens inundou a minha mente. O que eu seria capaz de fazer naquele instante se não houvesse saído do refeitório.
Vi a mim mesma virando a mesa, atacando os jovens inocentes e posteriormente, aquela família que me encarava.
- Acho melhor ir embora.
Juntei minhas coisas e fui para casa.
Eu estava brava comigo mesma. Estava virando um monstro. A única diferença era que eu estava viva. Por enquanto.
- O que houve, Reneé? – Valeria perguntou quando entrei no carro.
- Problemas na escola.
Ela começou a acelerar o carro.
- Algo que eu possa resolver, meu anjo? – A doçura dos seus olhos não correspondia com a realidade.
- Acho que não.
Eu virei meus olhos e vi a velocidade do carro aumentando, e do outro lado, o carro da polícia a nos seguir.
- Pare, Valeria, Pare! – Gritei.
Ela parou bruscamente. Um policial veio em nossa direção. Eu já havia visto aquele cara antes. Era o chefe Swan.
- As senhoritas deveriam estar avisadas sobre a velocidade máxima nessas ruas.
- Desculpe, senhor, mas era um caso de emergência. – Valeria disse enquanto tentava usar seu charme sobrenatural.
Ele não olhou, tirou uma caneta do bolso, destacou uma folha do bloco, anotou e entregou.
Ótimo, era uma multa.
Esperei que ele saísse, então falei:
- O que deu em você? Quer se expor?
- Oh, queridinha, quem vai duvidar de uma pobre coitada mulher que não é um ás do volante? – Ela deu um sorriso sincero.
- Faz sentido.
Naquela noite, fiquei em casa com Alex e Lucy. Peter e Valeria foram caçar.
Embora nunca presenciasse, eu sabia exatamente o que eles faziam toda noite em que saíam para caçar sozinhos. Procuravam humanos. Eu tentei ignorar e passei toda a noite atenta ás minhas atividades de escola, ficando o mais longe possível da televisão. Não estava a fim de ver notícias urgentes sobre a violência em Forks.

Capitulo 7 – O encontro
No dia seguinte, pude ir para a escola com minha jaqueta normal. Ela tinha cheiro de amaciante. Apenas isso. O tempo não parecia muito bom, mas eu não estava sentindo frio.
Devo estar me adaptando á temperatura agora. Pensei. Mas Alex e Lucy alegavam estar congelando em suas jaquetas.
Ao chegar na escola, todos comentavam incansavelmente sobre o aumento da violência na antes pacífica cidade de Forks.
Para não entrarmos em suspeita, decidimos nos infiltrar na conversa.
Chegamos perto do grupo de estudantes da minha sala.
- E então? – Comecei como se o assunto parecesse interessante.
- Blair está muito mal. – Um menino de óculos completou. Eu sinceramente não me lembrava de estudar na mesma sala que ele.
- O que houve? – Lucy também resolveu interagir.
- Mais caçadores foram vítimas na ultima noite...
- Pobres caçadores, deviam tomar mais cuidado... – Meu comentário foi irônico.
-... Um deles era pai da Blair. – O garoto completou.
Senti o peso sobre mim. O peso da culpa. A culpa podia não ser totalmente minha, mas o sentimento era esse. Se eu não tivesse sido adotada por Peter e Valeria, certamente eu não estaria vendo Blair chorar agora.
Certamente eu não estaria viva agora. Pensei.
Os alunos continuaram a caminhar, consolando a pobre Blair. Mas agora quem precisava de consolo era eu.
Lucy e Alex me acalmavam, mesmo sem dizer uma única palavra. Mas eu podia entender exatamente o que eles diriam numa situação como essa:
Pare de se preocupar. Não foi sua culpa.”
Balancei a cabeça e voltei a caminhar.
Mais uma noite de caça. Peter não se preocupava muito com o impacto que ele estava causando. Ele até fazia piada disso. Dizia que era para o controle populacional.
Estávamos todos entrando cada vez mais na floresta, que ficava cada vez mais densa à medida que nós nos infiltrávamos nela.
Eu estava com um dos casacos de pele de Valeria, ela passou a nos emprestar seus casacos para economizar com as lavagens de roupa.
- Hoje vamos usar uma técnica diferente. – Peter disse com um brilho nos olhos.
- O que, exatamente? – Alex tomou a iniciativa.
- Vocês é que vão caçar. Nós só vamos defender vocês. – Valeria foi doce mesmo num clima tão pesado como aquele.
-... E matar a presa, caso alguém aqui seja sensível ao sangue... – Ele reprimiu o comentário com um riso baixo, tampando a boca com a mão. – Então, vamos lá, pessoal...
O discurso foi reprimido por uma movimentação entre as folhagens em volta da área onde estávamos.
Eu não conseguia sentir cheiro de nada. Não tinha cheiro de humano, nem de animal, nem de vampiro.
Então um grupo saiu por entre as árvores, cada um de um lado diferente. Logo, reconheci, era a família do médico.
- Boa noite. – O médico posicionou-se à frente de Peter e Valeria.
- Boa noite. – O tom de receio agora era de igual para igual.
- Uma bela noite para caminhar, não?
Ele usou palavras casuais para se referir ao nosso costume noturno.
- Sim, bela noite. – Valeria se intrometeu.
- Prazer, sou Carlisle Cullen. – Ele estendeu a mão.
- Peter Wolf. – Eles se cumprimentaram, e olharam as mãos um do outro.
- Talvez vocês não conheçam minha família. Esses são meus filhos, Edward, Alice, Rosalie, Jasper e Emmett. Essa é minha mulher, Esme. – Ele apontou para cada um enquanto os apresentava.
- Essa é minha mulher, Valeria Wolf, e aqueles são meus filhos, Reneé, Alex e Lucy.
- Sinceramente, Não acho que essa seja uma boa hora para caminhar. As crianças deveriam estar dormindo. – Emmett manifestou sua idéia.
- Quem você está chamando de criança? – Meu estado de humor começou a oscilar, assim como o de Alex e Lucy ao meu lado.
Eles deram um passo para trás, exceto Carlisle.
- Reneé, comporte-se! – Valeria estava falando sério agora.
Dei alguns passos para trás, para ficar fora do campo de visão deles.
- Achei bom o seu argumento, Emmett, a cidade está ficando muito violenta, principalmente a região das florestas. – Alice pôs-se a tagarelar.
- Nós tomamos cuidado. – Debochei.
Valeria deu um aperto na minha mão, forte como aço.
- Nós nos mudamos com o intuito de encontrar um lugar tão calmo... – Peter acabou não sendo tão convincente como ele desejava.
- Moramos há certo tempo por aqui. Essa cidade já teve dias mais calmos. – Carlisle olhou para todos nós.
- Imagino. – Peter concluiu. – Então, é melhor nós irmos embora. Está na hora das crianças irem dormir mesmo...
Saímos sorrateiramente. Essa foi por pouco. Procuramos um lugar bem distante para começar a caçar. A noite não poderia terminar tão cedo.
- Não acho que eles vão nos encontrar por aqui. – Peter disse ao analisar a região.
- Podemos começar a caçar agora? – Eu aparentava uma estranha empolgação.
- Não percam tempo.
Eu não sabia como começar, sempre fui isca, nunca caçadora. E não seria muito legal usar meus irmãos de isca. Pude ouvir o barulho de patas se movendo pela folhagem molhada.
- Lá vem um. Esse é meu! – Me tornei extremamente possessiva.
Peter cruzou os braços e então sorriu orgulhoso. Parti numa corrida pela floresta atrás da presa. Mas era uma armadilha, eu não estava seguindo uma presa, eu era a presa.
Me deparei com uma matilha, todos me encarando, foi quando comecei a correr.
- Lobos, lobos! – Gritei feito uma covarde enquanto corria.
Pude ver Peter correndo na minha direção, me pegando pelo braço e segurando, em seguida, muito mais rápido do que eu imaginava, todos os Cullen estavam entre nós e os lobos.

Capítulo 8 – Restrição
- Eles estão em nosso território agora, nós cuidaremos deles. – Carlisle disse aos lobos que logo voltaram para as entranhas da floresta.
- Acho que nós encontramos os nossos ursos ferozes... – Emmett disse num tom de brincadeira.
- Eu nunca pensei que isso fosse possível... Vocês todos são... Vampiros. – Alice denunciou certa admiração em sua voz.
Ninguém disse nada.
- Eu tinha certeza que eles eram vampiros. – Edward denunciou.
- Com tantos hábitos como esses, não era muito difícil de adivinhar. – Rosalie debochou.
- Seus filhos são... recém-nascidos? – Carlisle disse num tom de preocupação e curiosidade ao mesmo tempo.
Peter olhou para nós, e depois para Valeria.
- Sim, eles são. Estão aprendendo a controlar a sede ainda.
Carlisle olhou para todos seus familiares então deu seu veredicto.
- Vocês podem continuar a caçar. Mas não nas imediações de Forks. Nenhuma cidade ou floresta muito próxima, nem dentro dessa cidade. Vão ter de se locomover um pouco para se alimentar. Caso optem por caçar nessa região, estão restritos á caça de animais.
- E se burlarem as regras, Nós nos reservamos o direito de interferir. – Edward completou.
Sem mais palavras, eles deixaram a floresta.
Deixaram também dúvidas em minha mente. O que Peter quis dizer ao afirmar que éramos recém-nascidos, se estava claro que não éramos? Por que eu estava ficando tão estranhamente entusiasmada com as caçadas? Por que estava sendo tão sensível?
Essa era uma informação que eu provavelmente nunca teria.
No dia seguinte, a chuva (in)esperada nos surpreendeu. Todos os alunos estavam muito calmos com relação aos estranhos casos que estiveram ocorrendo. Pela primeira vez o jornal não trazia nada sobre isso. Os cullen estavam nos monitorando, quando não todos, apenas um estava nos observando. Eu estava a ponto de dizer a verdade a eles.
- Eu sei que isso é incômodo, Reneé. – Lucy começou.
- Mas pelo menos nós estamos vivos. – Alex completou.
- E isso é bom? – Eu estava desanimada.
- Claro. Por que não? – Eles disseram ao mesmo tempo.
- Eu não sei...
Naquele momento, eu era como uma bomba relógio, pronta para explodir e expor tudo. Eu não sabia o que estava causando isso. Edward e Bella passaram por nós, Edward anotava com os olhos minuciosamente cada movimento nosso, e Bella, parecia fascinada, eu não podia dizer se era conosco ou com Edward.
Naquela noite, fiquei trancada em casa, apenas fazendo as atividades de escola, que pareciam aumentar cada dia mais, e assistindo à televisão.

Capítulo 9 – Estômago Forte
Mais uma vez, os dias se passaram... Era um domingo, e não havia muito que fazer.
Eu havia acabado de chegar de Port Angeles com Blair. Após a morte do pai dela, nós havíamos ficado muito próximas, e eu havia me integrado ao grupo dela.
Eu estava há muito tempo sem sair á noite. Na verdade, estava praticamente proibida. Para mim, o conceito de “sair à noite” não era o de sair com os amigos para um cinema, ou qualquer atividade adolescente. Antes fosse isso. E eu estava proibida de sair se não fosse acompanhada de outros seres humanos. Meus pais nem me deram o direito de uma justificativa coerente.
Ao entrar em casa, Alex e Lucy assistiam à televisão, como sempre. Eu estava com fome, fui em direção à cozinha e ouvi Valeria e Peter conversando. Baixo e muito rápido. Eu não conseguia entender uma só palavra que eles pronunciavam. Por vezes, pensava que eles estivessem falando em outra língua.
Quando cheguei na cozinha eles pararam de falar.
- Estou com fome. O que tem para a janta?
Eles se olharam e Peter veio na minha direção.
- Queridinha, que tal jantar fora comigo esta noite? – Ele disse enquanto passava o braço pelo meu ombro e olhava para Valeria.
- hm... Tudo bem.
Quando entrei no carro dele, comentei:
- Papai, quando eu vou ganhar o meu carro? Já tenho idade pra dirigir.
- Em breve, querida.
- Por que não, agora?
- Não quero que você se acidente por seguir o meu exemplo de direção perigosa.
- Tudo bem... – Eu me conformei. Não ganharia aquela briga tão cedo.
Ele começou a aumentar a velocidade ferozmente, estava realmente com pressa.
Seria o restaurante tão longe assim?
Para minha surpresa, não. Nós estávamos na floresta.
- E o restaurante? – Falei enquanto saía do carro.
- Vamos jantar ao ar livre, querida. Correção, você vai.
Um arrepio me subiu pela espinha.
- Eu vou?
- Vai. Siga-me.
Entramos na floresta. Eu me sentei em uma pedra bastante irregular enquanto esperava uma explicação. Um cervo passou naquele instante e Peter avançou nele.
Em fração de segundos, o animal estava abatido.
- Cervo é uma ótima forma de começar o menu.
- O que você quer dizer com isso? – Eu olhava estarrecida para o pobre cervo.
- O que você acha?
- Você não vai me fazer beber o sangue deste animal... Ou vai?
- O que você supõe? Vamos, não é difícil.
- Mas eu sou humana!
- Depois da primeira tentativa você vai esquecer o que você é. Vamos, tente. Vá com calma e vai conseguir.
Fui aproximando meu rosto do animal... Meu estômago começou a se revirar, eu pensei que estava prestes a desmaiar, mas o imprevisível aconteceu. Eu resisti. Chegava cada vez mais perto e a resistência do meu estômago ia se abaixando cada vez mais até que as primeiras gotas de sangue entraram em contato com meus lábios.
Comecei a salivar, como um leão quando vê um pedaço de carne. Essa seria a comparação mais fiel.
Quando me dei conta, havia devorado o animal por completo, e estava diante dos olhos orgulhosos de Peter.
- Essa é a minha garota!
- Não foi de tão mal... Mas poderíamos ter pegado mais um.
- Chega por hoje.

Capítulo 10 – A nova rotina
No dia seguinte, uma segunda-feira de sol, eu estava pronta para ir à escola, mas Peter me parou na porta.
- Não, você não vai hoje. – Ele disse enquanto esticava o braço para me parar.
- Como assim?
- Você tem prova hoje ou algo do tipo?
- Não, mas...
- Então pode ficar em casa hoje! Aproveite que está em casa e fale com Valeria, ela tem uns assuntos para tratar com você.
- Engraçado, se eu não quisesse ir à escola, você estaria tentando me convencer a ir, mas parece que você gosta de fazer as coisas ao contrário, Por quê?
- Queridinha, algumas coisas não merecem ser explicadas. Fui. – Ele deu um meio sorriso e se dirigiu ao carro, onde estavam Alex e Lucy.
A manhã passava lenta e entediante, eu não podia usar o notebook por que o moden havia sido levado por Peter. Então, me rendi à curiosidade de saber o que Valeria tinha para me dizer.
Valeria estava na cozinha. Eram poucas as vezes em que ela um almoço completo, ela só tinha facilidade para preparar saladas. Paladar não era um sentido que Valeria costumava usar, então, não era estranho que a comida ficasse salgada de repente. Ou por vezes, sem tempero. Me aproximei para começar a conversa.
- Valeria... – Comecei.
- Sim, meu amor... – Ela falava com o seu tom doce de voz.
- Valeria, o que era aquilo que você tinha para me falar?
- Eu tinha? – Seu tom agora parecia surpreso.
- Peter disse que sim.
Uma expressão de duvida dominou sua face por um instante.
- Oh, é verdade. Eu tenho. – Aquilo soou como um improviso. – Nós não deixamos você sair hoje por que... – houve uma nova pausa – você começou a provar sangue ontem, então... – a pausa foi maior ainda – você poderia estar muito cansada. Essas atividades consomem muita energia de um... Humano.
- Não estou cansada.
- Dormiu bem? Uma boa noite de sono ajuda a repor as energias.
- Não muito. Poucas horas para ser franca.
Enquanto nós conversávamos na mesa, havia uma panela com carne crua para ser cozida. Eu não me controlava no impulso de comê-la à medida que ia conversando com Valeria. No fim da conversa, a panela estava vazia. Valeria me olhou surpresa e engoliu seco.
E naquela noite, eu estava certa de que poderia sair, eu havia acabado de receber uma ligação de Blair me convidando para uma festa.
- Onde pensa que vai, mocinha? – Peter me encarou na escada.
- Vou me arrumar.
- Para onde? – Ele parecia bem insistente.
- Vou numa festa com a Blair.
- Ela vem te buscar?
- Não.
- Então fique em casa.
- O que?!
- Você vai ficar em casa. Não vai sair sozinha a essa hora.
- Por que você não me leva então? Eu posso te dar o endereço e...
- Pense como um adolescente, Reneé. Com certeza você ficaria constrangida ao me ver no meio de uma festa de alunos do primeiro ano. Eles também ficariam constrangidos com a minha presença.
- Mas... - É não, e ponto final. Agora ligue para a sua amiga para falar que não pode ir. Não é muito bom deixar as pessoas esperando por você quando você não vai a um determinado lugar.
Eu ia subindo as escadas quando ele me chamou.
- Reneé, pensando bem... É melhor não ligar.
- Mas você disse que...
- Se eu bem conheço os adolescentes, ela deve estar ocupada agora e não gostaria de ser interrompida. – Ele sorriu e caminhou de volta para a sala.
Agora eu não entendia. Se meus pais estavam tão felizes pelo fato de Blair e eu estarmos tão próximas, por que eu não deveria ir naquela festa? Certamente, não seria por que os Cullen estariam me vigiando. Quem se importaria com uma humana fazendo coisas... humanas?
No dia seguinte, quando fui à escola, tentei ser o mais convincente possível com as minhas respostas, eu estava realmente constrangida com o fato de ter sido proibida de ir a uma festa.
- Reneé, por que você não foi à festa? – Ela puxou conversa ao se afastar de um grupo de meninas.
- Eu passei mal antes de sair. – Fiz uma cara de quem havia passado mal.
- Do quê?
- Crise alérgica.
- Mas, por quê?
- Eu quis ficar muito bonita, sabe, eu certamente encontraria os garotos mais velhos e...
- Espertinha... – ela abriu um sorriso malicioso – Mas isso foi uma bobagem, sabia? Não havia garotos mais velhos... Apenas a nossa turma.
- Quer dizer que eu não perdi muita coisa?
- Sim.
Blair estava com o cabelo solto, mas com um lacinho dourado em sua cabeça. Ela tinha cabelos castanhos e pele branca, olhos cor de caramelo. Se ela não fosse mais corada, poderia dizer que era minha irmã.
Ela balançou o cabelo para tentar se livrar dos flocos de neve que começavam a cair. Um aroma insuportável invadiu minha parte da atmosfera.
- Blair, você está usando perfume forte? Acho que sou alérgica a eles. – Eu simulava um ataque de espirros para mantê-la longe
- Oh, Reneé, você parece pior do que eu! É alérgica a colônia para bebês! – Ela dizia ao se afastar.
Definitivamente, aquilo não era como uma colônia para bebês.
- Blair... Vou iniciar um tratamento contra minhas fortes alergias...
- Isso é muito bom... – Ela sorriu.
- Mas, por favor, mantenha-se longe de mim por este período.
- Mas...
- Pelo bem da sua amiga. Você seria capaz?
Ela juntou os cadernos próximos a si e disparou a correr pelo corredor.
Minha falsa alergia foi realmente convincente. Blair manteve certa distância durante todo o dia, limitando-se a mandar bilhetes quando necessário.
Assim era melhor. Eu só não sabia dizer por quê.
Seria para o meu bem estar físico? Ou o da minha alma?


Capítulo 11 – Distanciamento & Aproximação
Por outro lado, estar longe de Blair era muito ruim para mim, ela era a única pessoa com a qual eu dividia meus segredos. Obviamente, eu não dividia o mais obscuro deles.
No dia seguinte, Blair mostrou-se muito mais distante do que eu pensava. Estaria ela brava comigo? Não era culpa minha se eu era alérgica a ela.
Durante o horário de almoço, fiquei registrando cada movimento que Blair fazia, sem ao menos tocar na minha comida.
- Reneé, coma alguma coisa. – Lucy insistiu.
- Não estou com fome, Lucy. – Esclareci.
- Não? Você disse que...
Alex olhou para Lucy.
- O que houve?
- Reneé e a amiga dela não estão se dando muito bem. Deve ser por isso que ela não está com apetite.

- Esquece aquela perua, Reneé. – Ela olhou com agressividade para a mesa de Blair.
Olhei para a mesa dela, os olhos nervosos na minha direção. Levantei da mesa.
- Aonde vai?
- Sigam-me.
Eu estava indo na direção da mesa dos Cullen.
- Está indo para a mesa dos Cullen? – Alex passou uma expressão de medo.
- Sim, por que não?
- Reneé, eles nunca foram nossos amigos. – Ele tentava me convencer a desistir.
- E nunca foram nossos inimigos. Então, por que não?
Alex e Lucy se olharam por instantes.
- Nós vamos com você. – Eles disseram juntos.
Assenti com um sorriso.
Eu estava a poucos passos da mesa deles. E me perguntei se eu realmente queria fazer aquilo. Me aproximar daqueles que nunca se deram bem comigo. Mas se não pode vencê-los, junte-se a eles.
Então, nós três paramos próximos à mesa deles. Cada um demonstrava uma expressão diferente. Bella demonstrava surpresa;
Alice, gentileza; Jasper, total indiferença; Rosalie, desaprovação; Emmett, dúvida; e por fim, Edward, era o único que estava sem reação. Por mais que Jasper fosse indiferente, ele estava demonstrando uma reação.
Alice levantou-se num salto gracioso e posicionou-se atrás de nós.
- Então, gostariam de juntar-se a nós? – Ela sorriu.
- Seria um prazer. – Se ela estava sendo gentil conosco, eu também seria com eles.
Rosalie torceu o nariz numa expressão de reprovação. Edward ignorou Alice.
- Então, sentem-se! E sintam-se à vontade. – Ela estava sendo gentil demais agora.
Procuramos nossas cadeiras e nos sentamos. Por coincidência, -ou não- nossas cadeiras estavam localizadas entre dois dos Cullen. A de Lucy, entre Jasper e Alice, a de Alex, entre Rosalie e Emmett, e a minha, entre Edward e Emmett.
Ou seja, eles estariam preparados para interferir se algum de nós tentasse fazer alguma gracinha.
Alex e Lucy estavam quietos, como sempre estiveram, mas eu sabia que eles só estavam agindo assim por que estavam com medo deles.
Cada um naquela mesa estava condicionado a fazer algo diferente, ninguém realmente estava interessado em conversar, e eu estava com medo de começar um assunto e ser mal interpretada.
- Então, de onde vocês vieram? – Bella parecia admirada, surpresa, e um tanto curiosa.
- Nós viemos do Tibet, Bella.
Edward olhava seriamente para mim. Ele parecia não gostar que eu dirigisse a palavra à Bella.
- Tibet? Parece tão longe! – Alice amenizou.
- E é. – Lucy completou desanimada.
- Muito longe. – Alex suspirou.
- Vocês parecem desanimados. – Jasper dizia sem demonstrar emoções.
- E nós estamos. – Eu disse ao me apoiar na mesa e encostar a cabeça.
Alice encostou sua mão sobre meu ombro e retirou rapidamente.
- Oh! Isso não é bom.
Ela olhou para Edward. Todos os outros se surpreenderam.
Por sorte, o sinal tocou.
Ao sair da escola, todos prestaram atenção em nós, afinal, estávamos andando com os Cullen.
- Que engraçado, eles acham que estamos nos tornando sociáveis. – Ele comentou com Alice.
- Você leu a mente deles?
- Não é preciso ler a mente deles pra saber que é isso que eles estão pensando. – Completei com um pouco de receio. Eles pararam e viraram em nossa direção.
- Ela está certa. Humanos são previsíveis. – Alice confirmou.
- Principalmente quando se é a Alice. – Emmett comentou e soltou uma gargalhada.
- Emmett, você poderia procurar um novo alvo para suas piadas, agora. – Alice disse ao cruzar os braços.
- Por quê? Ainda consigo fazer piadas sobre você... – Ele sorriu.
Ao ver o carro de Valeria, os gêmeos se locomoveram realmente rápido, parecia que aquele não estava sendo um bom dia para eles. Ao entrar no carro, vi Blair me observando sem reação. Então fechei os vidros escuros do carro.
Alex e Lucy estavam realmente agitados. E isso chamou a atenção de Valeria.
- Crianças, o que houve?
- Reneé está enlouquecendo! – Alex comentou. Seus olhos expressivos agora traziam uma única idéia; raiva.
- É verdade! – Lucy continuou.
- É mentira! – Me defendi.
- Vamos conversar sobre isso em casa. Agora, acalmem-se!
Ela sabia como impor as ordens da casa.
Em casa, nos reunimos á nossa mesa de jantar. Pela primeira vez, ela estava sendo usada para algum fim que não fosse meramente nutricional.
- Qual o problema? – Peter olhava seriamente para nós.
- As crianças estão agitadas, eu gostaria de saber o motivo.
Ele olhou rapidamente para nós e prosseguiu.
- Então... O que houve?
Todos começamos a falar ao mesmo tempo, mas paramos ao observar Peter e Valeria nos encarando.
- Por favor, um de cada vez. – Ele parecia mais calmo agora.
Lucy levantou a mão.
- Diga, Lucy. – Valeria parecia mais calma também.
- Reneé está se comportando como uma louca desde ontem!
- Eu não... – Levantei o tom de voz e abaixei ao ver Peter sério novamente – estou.
- Por que você acha isso, Lucy? – Peter tornou-se gentil.
- Desde que ela brigou com Blair...
- Dedo-duro. – Eu a interrompi.
- Blair? – Peter tornou-se surpreso.
- É uma humana, órfã, riquinha... – Alex relatou.
- E perua. – Lucy emendou.
- Por que elas brigaram? Ninguém se machucou, certo? – Valeria estava preocupada, agora.
- Ninguém se machucou, Valeria.
A expressão facial dela se suavizou.
- Qual o motivo da briga, então? – Ela estava curiosa, agora.
Eu fechei os olhos e abaixei a cabeça.
Fiquei alguns minutos naquela posição, então pus as mãos em cima da mesa e me afastei junto com a cadeira, sem levantar o pescoço ou abrir os olhos.
Percebi que eles começaram a murmurar, e então ouvi passos. Então levantei o pescoço, e quando abri os olhos, Peter e Valeria estavam sentados na minha frente.
- Reneé... – A voz de Peter nunca pareceu tão suave quanto agora. – Está se sentindo bem?
- Sim. – Eu murmurei.
- Conte-nos o que houve. – A voz de Valeria era suave também.
- Não sei dizer ao certo... – Pela primeira vez eu me arrependia de algo que eu havia feito.
- Diga, com calma. – Peter colocou suas mãos geladas sobre as minhas. – Qual o motivo da briga?
- Eu queria que Blair se afastasse de mim.
Eles se olharam atônitos.
- Eu acho que... Tenho uma espécie de alergia a ela.
- Como assim, alergia? – Eles estavam interessados no assunto, agora.
- Não consigo ficar perto dela.
- Como? – Peter estava ficando nervoso.
- Eu... Eu... – comecei a soluçar, o choro preso na garganta – Não consigo, quando estou perto dela... É como... É como se eu não conseguisse resistir ao sangue dela!
Eles e olharam atônitos novamente, então, Valeria me abraçou.
- Querida, uma hora isso iria acontecer... Mas você conseguiu se controlar.
- Mas eu fui rude com a minha amiga, mãe! Minha única amiga! – Eu não conseguia me controlar agora.
- Ela vai entender. - Valeria disse enquanto apoiava minha cabeça no ombro dela.
- Não acho que seja possível, Valeria... – Peter comentou.
Valeria murmurou alguma coisa e pôs sua mão em minha cabeça, aproximando-me mais ainda dela.
- Se quiser, não precisa ir à escola amanhã.
- Eu quero ir... – Eu dizia enquanto soluçava e me afastava de Valeria.
- É melhor não. Pode ser perigoso.
- Mas eu quero ir! – Estava agindo agora como uma menina de sete anos.
- Você fica. E ponto final. – Peter agora estava com o seu tom normal.
- Imagina, se você atacar alguém na escola? Qualquer pessoa... Um professor... Um aluno... Ou até a sua amiga!
Suspirei.
- O que é isso que está acontecendo comigo?
- Isso é normal. Já passamos por situações semelhantes. – A voz de Peter estava suave novamente.
- E será que essa fase vai passar?
- Vai passar, vai passar. – As vozes de Peter e Valeria eram acolhedoras.
E mais uma vez, Valeria encostava minha cabeça em seu ombro gelado.

Capítulo 12 – Brincadeira Perigosa
Fui na direção do meu quarto, e me tranquei. As incansáveis batidas de Valeria e Peter na porta não me persuadiam. Nem as mensagens de Alex, nem a calma de Lucy.
Mais uma vez eu me sentia como uma garota de sete anos, que se trancava no quarto por que não queria ir ao médico. Me senti muito envergonhada por estar tomando aquela postura, mas algo em mim dizia que era preciso que eu tivesse uma crise daquelas.
Eu me deitei na cama e acabei adormecendo.
Ao acordar, senti minha garganta arder. Ardendo de sede. Água não fazia efeito nenhum.
Comecei a estranhar minhas atitudes, e a ter medo de mim mesma.
Percebi que já estava amanhecendo. Eu me arrumei para ir à escola. Então fui ao quarto de Peter e Valeria.
- Já está acordada? – Valeria se surpreendeu.
- Sim. – Assenti.
- Não me surpreende que ela esteja acordada agora. – Peter veio em minha direção. – Ela dormiu muito.
- Está com fome, querida? – Valeria vinha na minha direção também.
Não, eu tenho sede. Era o que eu pretendia dizer, mas omiti.
- Sim. – Tentei parecer convincente.
- Ok. Então farei waffles pra você. – Ela dizia enquanto descia a escada.
Quando por fim, cheguei à cozinha, os waffles estavam em cima da mesa. Valeria era realmente rápida com essas coisas. A comida nunca demorou a ficar pronta.
Eu não tinha fome, mas comia mesmo assim. Minha garganta continuava ardendo. Mas não era algo como uma mera dor humana.
Fiquei quieta. Valeria me observava, com seus olhos vermelhos brilhando naquela manhã.
Perdi a noção do tempo, Alex e Lucy acordaram, estavam arrumados assim como eu. Eles pegaram frutas em cima da mesa e foram na direção da porta.
- Esperem por mim! – Eu disse ao pegar meus materiais.
- Você tem certeza de que quer ir à escola? – Valeria chegou rapidamente á porta.
- Absoluta. Aquilo foi apenas uma crise adolescente.
- Tudo bem. Tenha cuidado, querida. – Ela disse ao dar um beijinho em minha testa.
Ela olhou para Peter, e disse algo tão rápido que não pude decifrar. Na escola, nossa primeira aula exigia trabalhos manuais. Estávamos produzindo uma maquete.
Eu havia me esquecido de que Blair pertencia ao meu grupo de trabalho. Estar ao lado dela era algo ainda muito difícil para mim.
- Preciso cortar o isopor. Onde está o estilete? – Comecei.
- Está com a Blair. – Alex apontou.
- Por favor... – Sussurrei.
Ela mostrou o estilete e então fechou a mão. Antes que eu pudesse pegar sem ela perceber.
- Deixa comigo. Eu faço isso. – Ela retrucou.
- Eu sou mais ágil e...
- Eu trouxe. Eu uso. – Ela se tornou arrogante.
- Mas...
Ela colocou o estilete na minha frente. Era uma brincadeira infantil. Eu peguei em uma ponta, e ela em outra. Ela apertou e se cortou.
Larguei o estilete no mesmo instante. O sangue dela intensificava a ardência em minha garganta. Ela olhava com ódio pra mim.
Meus irmãos, atônitos, esperavam minha reação, que veio logo em seguida. Apertei a mão no estômago e me dirigi até o professor.
- Não posso ficar mais tempo. Estou passando mal. – E isso não era mentira.
- Tem a permissão para sair.
Andei depressa pelo corredor. Encontrei com Bella. Ela se assustou com a minha aparência. Estava eu ficando tão mal assim?
Corri na direção da floresta densa. Adentrando-me cada vez mais. Quanto mais escuro a floresta ficava, maior era a minha vontade de entrar nela.
Encontrei um tronco caído e nele me apoiei. Um pequeno espelho caiu da minha bolsa, refletindo minha imagem. Em meu rosto, olhos vermelhos como rubi. A imagem de Bella se assustando veio em minha mente. Agora eu estava tensa, quase chorando.
Não de dor, nem de tristeza, era de raiva. Raiva de mim. Por que eu não conseguia me controlar? O que afinal estava acontecendo comigo?
A ardência em minha garganta era inumanamente insuportável.
Eu não conseguia entender por que ainda estava viva. Meus sentidos estavam aguçados. De todas as formas possíveis.
Os ruídos martelavam em minha cabeça. O cheiro de terra úmida provocava meu estômago. A floresta parecia clara, mesmo na escuridão. Então escutei um galopar suave entre as árvores, um cheiro doce vindo na minha direção. Um cervo indefeso.
O cervo me encarou, olhei em resposta. Ele se virou para correr. Um rugido se formou em minha garganta. Eu não sabia como, mas quando percebi o quão longe eu tinha chegado com aquela brincadeira perigosa, eu já havia drenado o animal, e a ardência havia passado completamente.
Peguei minha mochila e me adentrei mais ainda na floresta. Mas ela não parecia ser tão escura quanto deveria.
Encontrei outro tronco caído e me deitei.
Acabei adormecendo.
A minha esperança era de acordar e saber que tudo aquilo fora apenas um pesadelo.

Capítulo 13 – Mais do que uma mão amiga
Então, acordei. Mas mantive meus olhos fechados. Ouvi passos suaves, quase inaudíveis. Seguidos do mesmo aroma que eu senti ao encontrar os Cullen pela primeira vez. Teria algum Cullen me seguido?
Tive a sensação de estar sendo observada. Meus olhos foram se abrindo devagar. Então, para minha surpresa, não era um Cullen que estava lá.
Era um rapaz, um pouco mais alto do que eu, um de traços suaves, pele pálida, cabelo castanho e não muito curto. O par de olhos negros se fixava em mim.
Nos olhamos por alguns instantes.
- Você parece perdida. – Ele ofereceu a mão para me levantar.
- Não estou. – Recusei a ajuda e me levantei sozinha.
- Tudo bem. – Ele deu meia volta e começo a caminhar.
Olhei em volta. E não me lembrava de como havia chegado ali. Todos os caminhos na floresta pareciam exatamente iguais agora.
- Espere! – gritei, e ele virou na minha direção – Talvez eu esteja perdida. Mas só um pouco.
Ele sorriu.
- Então, venha comigo.
Eu o acompanhei. Ele andava a passos muitos rápidos, e eu também. Tive a impressão de que ele queria manter distância de mim.
Não demorou muito para chegarmos até o limite da floresta. Perto da escola. O cheiro da civilização agitava meu estômago novamente.
- Está se sentindo bem? – Ele segurou meu braço.
- Não. Quero dizer, estou... Ou melhor... Vou ficar bem. – Eu não sabia o que dizer.
Ele olhou um pouco receoso.
- Então está bem. – Ele aproveitou o minuto de silêncio – Meu nome é Michaelo.
- Muito prazer. Meu nome é Reneé. – Estiquei a mão.
Ele esticou sua mão, um tanto receoso. Minha vontade era de tocar em sua mão desprotegida de luvas. Porém, ele me ofereceu a outra mão, que possuía uma grossa luva de couro.
- Então... Nos vemos por aí? – As palavras saíram espontâneas demais para o meu gosto.
- Acho que sim. – Ele sorriu. – Acho que ainda nos veremos muito por aí.
Ele deu a volta e sumiu na floresta densa.
Andei sem pressa, fazendo meu caminho de volta para casa. Os raios de sol brilhavam tímidos entre nuvens espessas e carregadas. Eu chamava muita atenção enquanto andava na rua. Talvez por que estivesse completamente coberta de terra.
Acelerei o ritmo do passo, assim, era mais difícil ver o rosto das pessoas que me encaravam.
Ao chegar em casa, Valeria se surpreendeu com a minha aparência.
- Santo Deus! O que aconteceu com você, Reneé?! – Se ela fosse humana, eu poderia dizer que ela estava pálida de susto.
- Uma longa história. – Resumi.
- Trate de contar logo, mocinha! Ou eu vou ligar para o Peter e você sabe como ele é nervosinho...
- Tudo bem... Eu conto.
- Diga logo! O que foi tudo isso? Não me diga que foi uma daquelas... – ela pronunciou com receio – gangues?
- Não foi nenhuma gangue, Valeria. Eu só me perdi na floresta. E acabei dormindo no chão molhado. Só isso.
- Só isso? Ah, você definitivamente – ela marcou a palavra – não me conhece! Detalhes, mocinha!
Então contei tudo, cada detalhe... Exceto por um detalhe. Eu não mencionei Michaelo. Eu estava certa de que não voltaria a vê-lo. Eu não seria tola o bastante para acreditar que veria aquela linda face outra vez.
Eu não menti sobre nada. Apenas omiti alguns fatos.
- Querida... Acho melhor você ficar em casa por alguns dias.
- Eu também. – Murmurei.
- Também acho melhor que você vá tomar um banho. Tem folhas até no seu cabelo!
Ela era a única pessoa que conseguia me fazer sorrir a essa hora. E não era por que conseguia manipular meus sentimentos.
Depois do banho, eu fui procurar algo para comer, enquanto esperava meus “irmãos” voltarem da escola. Provavelmente eu me isolaria da civilização por uns dias.
Melhor assim. Pelo menos eu não teria que encarar Blair
.
Após a minha pequena refeição, eu não tinha vontade de ficar na sala trocando de canal, como Valeria costumava fazer.
Então, fui para o meu quarto.
Deitei em minha cama, abracei um pequeno ursinho e fiquei olhando para o teto. Cada movimento daquele dia passou diante dos meus olhos. E a imagem daquele belo rosto não saía da minha mente.
O que estava acontecendo comigo?
Uma semana havia se passado, e eu estava de volta à escola.
Passei os últimos dias tendo contato direto com o mundo verde, esse era o termo perfeito para descrever aquele aglomerado de árvores.
Para minha surpresa, Blair se aproximou de mim. Eu pensava ter deixado as coisas bem claras.
Ela usava luvas três quartos e um cachecol no pescoço. Daquele jeito, eu não conseguia sentir nada. Então, estava tudo bem.
- Arrumei um jeito de te ajudar no tratamento. – Ela veio sorrindo.
- Isso realmente ajuda bastante. – Sorri.
- Me desculpe por ter sido tão infantil naquele dia.
- Me desculpe por ter sido tão idiota naquele dia.
Nós rimos.
- Então... – Ela pausou – Amigas novamente?
- Novamente. – Sorri.
Andamos pela escola, indo na direção da sala. Ao passar pelo corredor, os Cullen nos observaram.
- Esses caras parecem vigiar você.
- Parecem? – Fiz uma falsa cara de dúvida – Não acho.
- Parecem.
- Oh Blair. Você anda vendo filmes demais. – Sorri.
Eu não estava me importando com o que os Cullen estavam pensando ou não ao meu respeito. A única coisa que estava na minha mente era aquele par de olhos negros. Que eu tentava incansavelmente esquecer.
Ainda naquele dia, eu e iria sair com Blair para umas pequenas compras em Port Angeles.
Ela era uma riquinha órfã que não gostava de sair sozinha para gastar dinheiro.
Estava óbvio que ela estava comprando mais do que eu. Eu era uma pessoa que precisava de pouco para sobreviver. Apenas de ar e um pouco de comida.
Na volta do passeio, ela estava ansiosa para o próximo.
- Vamos fazer isso de novo algum outro dia? – Ela disse ao parar o carro na porta da casa dela.
- É claro. – “Que não” eu completei mentalmente.
- Quer que eu te deixe em casa?
- Não, eu vou sozinha. Não tenho muitas bolsas para carregar.
- Então está bem. Nos vemos na escola!
- Tudo bem. Tchau Blair.
O caminho da casa de Blair até a minha era um pouco longo, mas eu agüentaria a caminhada sozinha. Até que...

Capítulo 14 – Rebeldia
- Reneé! – Escutei uma voz doce me chamar.
Virei a cabeça na direção da voz. E lá estava ele. Michaelo, em uma moto vermelha.
- Precisa de ajuda? – Ele brincou.
- Acho que sim. – Fingi derrubar as bolsas.
- Posso te levar até a sua casa. – Ele veio rapidamente na minha direção e pegou as bolsas.
- Seria ótimo. – Sorri.
- Então venha comigo.
Subi na moto. Era certamente a primeira vez que eu andava de moto na minha vida.
Ele acelerava inumanamente enquanto percorria a estrada. Não demorou muito para chegarmos perto da minha casa.
- A minha casa é por ali. – Apontei.
- Seus pais não ficariam muito felizes em me ver. – Ele fez uma cara de reprovação. – Outro dia, quem sabe.
- Então está bem. – Sorri.
- É melhor você ir agora. – Ele disse ao colocar o capacete de volta.
Fiz meu caminho até em casa, ele me acompanhava com os olhos. Então, ligou a moto e partiu.
Não muito tempo depois, Edward e Alice chegaram no volvo prata, procurando por meus pais.
- Onde eles estão? – Edward olhava nervoso.
- Saíram há umas duas horas. – Lucy respondeu.
- Quando eles voltam? – Alice estava ansiosa.
- Se eles se lembrarem de voltar, só amanhã. – Alex brincou.
- Droga. – Edward pronunciou entre os dentes.
- Voltaremos amanhã, então. – Ela disse desapontada.
Eles saíram rápido, de volta ao volvo prata, então partiram.
Fechei a porta e encarei os gêmeos, que olhavam curiosos.
- O que foi? – Encarei.
- Nada não. – Lucy escondia o riso.
- Diga. – Bati as bolsas com força na poltrona. Isso assustou Lucy.
- Você não passou mal durante o passeio? – Alex disse enquanto ria.
- Por que eu passaria...? – Então entendi o que eu queria dizer. – Alex, vá procurar algo melhor para fazer!
- Irritar você está sendo bastante divertido. – Ele disse ao cruzar os braços e ficar na minha frente.
Eu tentei passar, ele permaneceu na minha frente. Repetindo cada movimento meu.
- Isso é algum tipo de brincadeira? – Fiquei nervosa.
Ele deu um meio sorriso.
- Não estou para brincadeiras hoje. – Empurrei Alex.
Ele foi lançado com velocidade em cima da poltrona. Ele não se machucou. Mas aquilo machucou a mim.
Subi as escadas correndo em direção ao meu quarto, para me trancar mais uma vez.
Eu não tinha noção de quanto tempo havia se passado, mas me sentia um pouco melhor.
Havia me revoltado o bastante, quebrado algumas coisas em minha escrivaninha e agora era hora de me acalmar.
Mais uma vez aqueles olhos negros estavam diante de mim, agora tinham efeito tranqüilizante sobre mim.
Virei meus olhos na direção da janela, e lá estavam os olhos dele.

Capítulo 15 – Romeu da meia noite
Não só os olhos, ele estava lá. Escalando minha janela. Esfreguei meus olhos, mas não era minha imaginação. Pelo menos não parecia.
Andei na ponta dos pés, e abri a janela com cuidado. Pude ver que o céu estava escuro, o que significava que já era tarde.
- O que você faz no parapeito da minha janela? – Disse furiosa.
- Queria te convidar para sair um pouquinho.
Ele pulou da janela, e caiu na grama sem se machucar. Apontou para a moto e olhou para mim.
- E então...?
- Eu preciso mesmo pular a janela? – Eu disse encarando a altura.
- Só se você quiser sair sem ser vista. Vamos, não é tão alto quanto parece.
Encarei a altura pela ultima vez. Fechei os olhos e pulei. Quando abri meus olhos, estava em pé, na frente dele. Nenhum machucado aparente.
- Eu não disse? – Ele sorriu.
Dei um sorriso um tanto sem graça, pois afinal, ele tinha razão. Apesar de tudo o que vinha acontecendo ultimamente, eu não era um imã para perigo.
Subi na moto, meu coração parecia saltar do meu peito. Foi um percurso rápido, logo estávamos nos embrenhando na floresta negra.
Estava escuro, mas pude notar uma cesta pequena em sua mão.
- O que você pretende fazer, exatamente?! – Indaguei enquanto corria tão rápida quanto ele.
- Uma surpresa.
Encontramos um lugar entre as árvores, não era úmido, e havia espaço entre as árvores que disputavam pela luz. Como resultado, uma clareira, na qual a lua era o nosso holofote.
Ele pegou a cesta, tirou uma toalha de dentro dela, e esticou no chão.
- Um piquenique? – Eu disse um tanto duvidosa.
Ele balançou a cabeça.
Ele se sentou na toalha, eu me deitei na grama, olhando para ele.
- Você é daqui? – Indaguei.
- Sou um... recém-chegado. – Ele brincou.
- Também sou.
- Pelo que vi naquele dia, você parecia conhecer esta cidade tão bem. – Ele disse ao tirar um sanduíche da cesta.
- O que você viu naquele dia? – Eu disse gaguejando um pouco.
- Eu quero dizer, para você ter ido tão longe, precisaria conhecer a cidade muito bem.
Senti um alívio em minha alma.
- As pessoas não precisam conhecer os lugares em que vão para se perder.
Ele sorriu.
- Conte mais sobre você. – Continuei.
- Eu tenho uma vida muito... entediante. – ele marcou a ultima palavra de um jeito sombrio.
- Nada pode ser mais entediante do que essa cidade verde.
- Pode sim. – Ele retrucou. – Sanduíche? – Ele ofereceu.
- Não obrigada. Pode comer. – Devolvi o sanduíche.
- Mas eu não tenho fome.
- Então por que inventou um piquenique?
- Pensei que estivesse com fome.
- Não estou.
Ele parou por um instante.
- Acho melhor você ir embora.
- Por quê?
- Seus pais podem dar pela sua falta.
- Mas... – Eu estava dando detalhes demais. E eu não o conhecia a ponto de confidenciar meus segredos. – Está bem.
- Não se preocupe, nos veremos em breve.
Corri pela floresta, até encontrar a moto dele, aquele era o meu ponto de referência, visto que as trilhas eram quase idênticas.
De lá, segui até a minha casa. O que me intrigava era como eu entraria em casa sem passar pela porta.
Vi minha janela ainda aberta, a cortina balançando com o vento selvagem.
Coloquei minhas mãos na parede e comecei a escalar.
Era uma sensação estranha, eu estava realizando coisas muito além do que eu podia. Mas ao mesmo tempo, estava feliz por ter chegado em casa antes de meus pais.
Demorei muito a dormir, peguei no sono quando as nuvens escuras começaram a clarear. Deveria estar amanhecendo.
Não muito tempo depois, senti mãos geladas em minhas costas.
- Acorde, Reneé. – Era a voz imperativa de Peter.
- Só mais cinco minutos. – Só mais cinco horas, corrigi mentalmente.
- Reneé, você teve muito tempo para descansar. É sábado, temos muito que fazer hoje.
- Só alguns minutos. - Coloquei o travesseiro em minha cabeça.
- Ou você acorda por bem, ou por mal. Sugiro que por bem.
- Droga. – Sufoquei a voz no travesseiro.
Ele tocou suas vezes em meu braço e se levantou.
- Arrume-se e vá tomar café. Vamos fazer uma visita aos Cullen.
Cullens, Cullens, Cullens. Será que só eles existiam nessa cidade?
Quando desci a escada, Peter estava na porta com Valeria.
- Já estamos indo, querida! – Ele disse num tom indecifrável.
- Eu pensei que...
- Nós só queríamos que você acordasse. Está um belo dia, e você deve aproveitar. – Valeria disse em seu tom normal.
- Agora nós vamos. – Peter interrompeu. – Não vamos demorar.
- Tudo bem. Mas e se vocês demorarem? – Minha intenção era prendê-los em casa.
- Tem um pouco de comida enlatada na geladeira. É só esquentar.
- Ótimo. – Ironizei – Podem ir. Não quero que se atrasem.
Então eles partiram.
Olhei para a janela, no intuito de confirmar as expectativas de Valeria. Mas não era um dia bonito. O céu estava coberto por nuvens pesadas. Aquilo era tudo muito cinza, muito entediante.
Estranhei a presença dos gêmeos em casa. O que eles estariam aprontando?
Enquanto preparava meu café, escutei ruídos na varanda. Corri para ver se eram os gêmeos, mas não havia ninguém lá. Ao retornar para a cozinha, me deparei com o rosto de Michaelo emoldurado em minha janela.
- Bom dia. – Ele cumprimentou.
- Você tem o conhecimento de algo chamado campainha? – Ironizei.
- Sim. Mas tudo que é proibido é mais divertido. – Senti um pouco de ironia em suas palavras.
Cruzei os braços por um momento e então me voltei para o fogão.
- E então... ? – Ele quebrou o silêncio.
- Estou terminando de fazer o café. Não está vendo?
Seus olhos estavam de cor rubi naquele momento. Ambos ouvimos um barulho na varanda e ele deu meia volta.
– Se eu puder, voltarei mais tarde. – Então pulou a janela e foi embora.
Respirei fundo, fiquei tão nervosa, que acabei deformando o cabo da panela. A única coisa que eu podia fazer naquele momento, era jogar a água fora e esconder a panela.
Eu podia jurar que fiz tudo aquilo em longos minutos, mas notei que não levei menos do que cinco.
De volta à cozinha, peguei uma barra de cereal no armário para disfarçar.

Capitulo 16 – Festa
Os gêmeos entraram na cozinha, suados, pareciam ter corrido quilômetros.
- Onde foram? – Perguntei curiosa.
- Correr. Nós fomos correr. – Alex disse com um sorriso no rosto.
Minha garganta ardeu, sem um motivo aparente.
Dei a volta, examinando os dois minuciosamente. Notei terra nos sapatos deles.
- Foram à floresta? – A garganta ardendo dificultou a minha fala.
- Sim, nós fomos. – Lucy disse casualmente.
Ao parar ao lado de Lucy, a ardência se intensificou. Pude perceber um cheiro forte.
- Lucy, você não caiu enquanto corria... Ou caiu? – Eu falava como se tivesse areia na garganta.
- Eu? – Ela olhou rapidamente para Alex. – Não caí!
Dei mais uma volta, e novamente parei em Lucy. Desci devagar e rasguei o jeans dela na altura do joelho direito. O joelho dela estava sangrando.
Eu não deveria ter feito aquilo. Me senti fraca, caí sobre meus joelhos.
Alex olhou desesperado, mandou Lucy ir para o banheiro limpar o machucado.
- Está bem? – Ele disse enquanto levantava o meu pescoço.
- Sim.
- Pode me ajudar com Lucy?
- Sim. – Eu aceitei um pouco receosa.
Então peguei os curativos, e fui ajudar Lucy.
- Você não deve mentir quando se machucar, Lucy...
- Desculpe, era realmente um machucado pequeno. – Ela disse num tom monótono.
- Nenhum machucado é pequeno o bastante para ser escondido nessa casa. Vocês sabem disso melhor do que eu.
Eles concordaram.
- E como estava a corrida? – Tentei mudar o assunto.
- O tempo estava bom, não estava muito frio dentro da floresta. – Alex disse de forma casual.
- Eu ia me esquecendo... – Lucy se levantou e saiu do banheiro. Voltou instantes depois com um cartão enfeitado. Então me entregou.
- O que é isso? – Eu disse com o cartão em minhas mãos.
- Enquanto você estava no passeio com Blair ontem, uma das alunas populares me entregou esse convite. É pra uma festa que vai acontecer hoje à noite. Você quer ir?
- Bem... Eu... – Então me lembrei das ultimas palavras de Michaelo, “Se eu puder, voltarei mais tarde”, E eu não estava certa a respeito de querer encará-lo naquele mesmo dia. – Eu vou, se vocês forem.
- Ótimo! – Ela disse saltitante. – Vem, Alex, preciso de sua ajuda para encontrar meu vestido! – Ela disse enquanto arrastava o irmão para fora do banheiro.
Eu olhei para o espelho, um pouco incerta da minha decisão. Qualquer coisa seria melhor do que encarar aqueles olhos vermelhos. Aqueles lindos olhos vermelhos.
Naquela noite, eu já estava pronta, usava um vestido na altura dos joelhos, vermelho e com um laço dourado em minha cintura. Meu cabelo não era rebelde, e eu odiava fazer qualquer mudança nele.
Alex usava roupas casuais, ele afirmava que estava indo para uma festinha, não um baile.
Lucy, apesar da aparência frágil e inocente, foi a mais arrumada de nós. Usava um vestido preto, curto e com muitos brilhos.
- Aonde vão a essa hora? – Peter disse um tanto perturbado com nossas produções.
- A uma festa. Colegas de escola, você sabe como é, papai. – Lucy disse, num tom que não era típico dela.
- Sei. Festa de colegas de escola. – Ele pausou, fez uma expressão pensativa e retomou – Tudo bem, podem ir.
- Não vamos demorar! – Lucy disse enquanto saía.
- Assim espero! – Ele concluiu.
Era um caminho um tanto longo até a festa. Eu me perguntava se meus pés agüentariam até lá.
Então chegamos. Era uma casa não muito grande, estava enfeitada.
Entramos. Logo, a surpresa, era uma festa simples! Perto dos outros, nós parecíamos que estávamos no tapete vermelho do Oscar.
- Uau. – Um garoto de óculos foi o primeiro a se manifestar.
Todos estavam sem reação.
A dona da festa parecia estar constrangida, os convidados estavam mais bem arrumados do que ela! Me senti um pouco mal por isso.
- Tudo bem, pessoal, vamos continuar a festa! – Ela tentou contornar.
Sorri para mim mesma, apesar de estar me sentindo mal pelo vexame dela, aquilo estava sendo bem engraçado.
- Qual a graça? – Alex perguntou tão baixo, que eu podia jurar que ele não havia movido os lábios.
- Tudo isso. – Eu fazia menção à festa.
Pude ouvi-lo rindo.
Minutos depois, eu estava na mesa pegando alguns salgados. Eu senti aquele cheiro novamente. Mas por que, ali?
Com a desculpa de que precisava de um pouco de ar, – a casa cheia me deu um álibi – fui até a frente da casa.
O cheiro forte, tão doce, circulava por ali. Respirei fundo, fechei os olhos e quando abri, ele estava lá.
Eu já não tinha dúvidas, que ele era o causador de todas as desordens em minha mente, aqueles olhos me hipnotizavam.
As luzes da rua estavam acesas, o poste era como um holofote.
A luz estava acima de nós, e tive a impressão de vê-lo brilhar. Ele me arrastou para um canto mais escuro.
- Reneé. – Ele sorriu
- Michaelo. – Sorri, demonstrando todo o meu fascínio. – Não sabia que você foi convidado para a festa...
- E não fui. – Ele sorriu novamente. – Eu estava indo pra casa, e te vi chegar.
- Sua casa é...
-... Bem longe daqui. – Ele completou.
- Por que me deixou sozinha hoje de manhã? – Eu me irritei.
- Desculpe, assim como você eu também estava com o café sendo preparado e eu não podia deixar ferver demais.
Aquela fora a pior desculpa que eu havia ouvido em toda a minha vida.
- Se é o que está dizendo... – Franzi a testa.
- Foi isso. – Ele tocou em meu ombro desprotegido.
Era um toque frio, e de certa forma indescritível e familiar.
Abaixei a cabeça por um instante, e então olhei no fundo de seus olhos.

Capítulo 17 – Identificação
Naquele momento, tudo fez sentido. Se eu tinha alguma duvida, ela fora dissipada naquele momento.
As mãos frias, a palidez, a beleza, e o cheiro... Eram todas as características de um vampiro.
Eu não acreditava em como eu havia sido tão lenta para assimilar fatos tão expostos a mim.
E também, em como havia me apaixonado tão rapidamente.
- Reneé. – Ele tocou as mãos gélidas em meu rosto, me tirando de um transe quase profundo.
- Hã? – Era como se a minha mente tivesse se desconectado do meu corpo.
- Você está bem? – Ele disse um pouco assustado.
- Mais ou menos. Preciso te dizer umas coisas, mas é melhor não tocar nesse assunto aqui.
- Posso te levar a um lugar mais tranqüilo.
- Mas eu não posso sair daqui...
- Eu sei que você pode. – Ele desafiou.
Respirei fundo.
- Então me espere.
Ele sorriu.
Entrei na casa para avisar aos gêmeos de que eu já estava de saída.
- Estou indo. – Avisei.
- Já? – Alex e Lucy pareciam estar se divertindo.
- Sim. Estou cansada.
- Nós podemos... – Eles tentaram.
- Fiquem. – Insisti. – Não quero estragar a diversão. Eu sei o caminho de casa e nada vai acontecer comigo.
- Tudo bem. Nos vemos em casa.
- A propósito, diga aos nossos pais que vamos demorar um pouco. – Lucy disse enquanto voltava a se divertir.
Bingo!” Era o que eu precisava ouvir.
Então saí. Michaelo me esperava na esquina.
- E então? – Ele sorriu os dentes afiadíssimos á mostra.
- Me leve a algum lugar onde ninguém possa nos ouvir.
Ele balançou a cabeça, subiu na moto e me entregou um capacete. Quando peguei o capacete, um arrepio percorreu a minha espinha. “Bela hora apara a adrenalina se manifestar!” Eu ironizei em meus pensamentos.
Durante o passeio de moto, se é que eu podia considerar aquilo um passeio, a paisagem era nada além de um borrão, e a garoa batia violentamente em meu capacete.
Então chegamos na floresta. Caminhamos um pouco e encontramos um casebre pobre.
Entramos. Dentro do casebre, havia uma mesa de madeira, com duas cadeiras e uma lamparina acesa sobre a mesa. Haviam também papéis jogados pela mesa, e uma caneta de pena. Aquilo era tudo o que a iluminação precária me permitia ver.
- É aqui que você mora? – Outro arrepio na espinha, mas agora não era adrenalina.
- É aqui que eu me escondo. – Ele sorriu.
O clima era sombrio. A lamparina não iluminava nada além da altura dos nossos rostos.
- A propósito, o que você tinha a me dizer? – Ele começou.
Tremi. Estávamos sozinhos agora. Então me questionei se eu não estava prestes a fazer uma besteira.
- Você é um rapaz de hábitos peculiares. – Comentei desviando o olhar para a escuridão.
- Obrigado. – Ele respondeu. E então guiou meu rosto suavemente de forma que eu o olhasse nos olhos. – Mas...?
- Quero dizer, você tem olhos vermelhos, pele pálida, brilha com a luz, tem dentes afiadíssimos... Eu poderia passar
horas enumerando as suas características.
Ele olhou sem expressão.
- Aonde quer chegar...? – Ele vacilou no tom da voz.
- Você... – Peguei a mão dele e elevei na direção da luz. A luz podia ser fraca, mas era forte o suficiente para fazer a pele dele brilhar como diamante. – Não é humano.
Ele segurou a minha mão. O toque frio novamente.
- Então o que sou? – Ele disse cautelosamente.
Engoli seco.
- Você... – Interrompi a fala, eu não seria capaz.
- Diga. – Ele incentivou.
Encostei o meu pescoço perto do dele.
- Você é um vampiro. – Eu disse ao pé do ouvido, praticamente.
Ele se afastou, eu também.
- Eu pareço assustador a você? – Ele deu outro passo para trás.
- Você parece fascinante aos meus olhos.
- Pense bem... – Ele pausou. – Nem tudo é aquilo que aparenta ser. – Ele disse se aproximando, afastando a lamparina com uma mão e tocando meu rosto com a outra.
A luz estava ficando fraca, e de certo modo, não pude ver seu rosto. Mas apenas senti. O hálito suave ficando próximo e os lábios encostando-se aos meus. Fora algo muito rápido, mas os melhores momentos que pude experimentar.
Ele se afastou e pôs a lamparina no lugar.
- Acho que isso não deveria... – Ele disse meio sem jeito.
- Sh... – Eu interrompi.
Ele me fitou por alguns instantes.
- A propósito, vai querer que eu te ligue amanhã? – Ele sorriu.
- Claro. – Eu sorri também. – Tem papel e caneta?
- Temo que não possa usar os papéis aqui presentes.
- Oh...
Então tive a idéia de tirar o laço do meu vestido e nele escrever o meu telefone com a caneta de pena. Aquilo era muito medieval. Coloquei a fita as mãos dele.
Ele sorriu.

Capitulo 18 – A culpa é de Forks.
Eu havia perdido a noção do tempo.
- Preciso ir para casa. – Lembrei.
- Eu posso te levar. – Ele sugeriu.
- Obrigada.
Saímos em alta velocidade, a chuva estava violenta.
Ele me deixou a alguns metros de casa. Fui caminhando. Então agradeci a chuva, pois com ela, era quase imperceptível a presença de Michaelo naquela rua.
Ao chegar em casa, Peter e Valeria estavam esperando por mim, e os Cullen também.
- Já chegou? – Valeria arregalou os olhos.
- Sim.
- E onde estão Lucy e Alex? – Peter estava preocupado.
- Ficaram na festa. Disseram que chegariam mais tarde.
Eles pareciam não ter gostado disso.
- Está bem, Reneé. Agora suba e vá se trocar, está ficando tarde. –Valeria disse com um pouco de pressa.
A impressão que eu tinha, era de que ela queria me tirar da sala o quanto antes.
Do quarto, pude ouvir apenas murmúrios, mas não entendia nada. Era tudo muito rápido. Acabei dormindo ao som dos comentários.
No dia seguinte, um domingo de céu escuro, acordei com uma disposição espetacular. Desci para tomar o meu café e notei, apenas Valeria e Peter estavam na cozinha.
- Alex e Lucy não chegaram ainda? – Perguntei enquanto me servia.
- Eles chegaram tarde. Estão dormindo. – Valeria disse num tom calmo.
- Eu te disse, querida. – Peter disse diretamente a Valeria. – Não devíamos deixá-los tão livres. É nessa fase que começam as festinhas especiais, e os exageros também...
- Querido, você acha mesmo que eles vão ser capazes de aprontar com a nossa vigilância?
- É verdade... Adoro quando você está certa, querida. – Peter disse encostando sua face na de Valeria. Era a primeira demonstração carinhosa que eu havia visto em dezessete anos.
- Não esqueçamos da vigilância dos Cullen. – Esnobei. Me senti mal por ter quebrado um clima tão romântico.
- A vigilância deles não é um problema para nós. – Peter respondeu imediatamente.
- Não? Você diz isso por que não estuda com eles. – Cruzei os braços.
- Não tenha tanta aversão a eles, querida. – Valeria disse em seu tom amável. – Se você procurar amizade, vai encontrar amizade. Mas se procurar confusão...
- Eu só vou encontrar confusão... Tudo bem, mamãe, já entendi.
Por que ela não me disse isso antes?
Depois de tomar o café, fui até a porta de casa, fiquei olhando a rua vazia por alguns instantes. Um ou outro carro passava. Uma ou outra pessoa passava me encarando. Eu definitivamente odiava essa cidade. Até o Tibet poderia ser menos entediante.
Eu me lembrava do passado. Quando eu era pequena e me divertia na neve. Naquela época, Peter não era tão durão comigo e meus irmãos, apesar de sempre estar desconfiado, mesmo sem motivo. Valeria sempre foi amável. Uma mulher forte – em todos os sentidos – que gostava de mimar seus filhos. Lembrava de Alex e Lucy jogando bolas de neve em mim. Mas não conseguia lembrar de mais nada além disso.Era como se minha mente houvesse sido apagada. Mas eu sabia, havia muita coisa para me lembrar.
Fui dispersa dos meus pensamentos quando a chuva forte começou. Mas nada fiz, fiquei sentada, embaixo da chuva, tentando recompor minhas lembranças, na esperança de conseguir.
Eu estava ensopada, e não conseguira me lembrar de nada. Agora estava ficando irritada. E ultimamente, meu humor esteve oscilando muito. Deve ser uma daquelas coisas de adolescente. Ou então, culpa dessa cidade.
- Droga! – Eu gritei e bati no assoalho.
Bati com tanta força, que abri um buraco no assoalho.
Olhei para os lados. Ninguém por perto. Então entrei em casa.

Capitulo 19 – Tem alguém me observando
No dia seguinte, os gêmeos não se sentiram muito bem. Por isso não foram para a escola. Certamente, ainda deveriam estar sob os efeitos da festa de sábado.
Fui sozinha para a escola, Peter saiu muito cedo e Valeria estava cuidando dos gêmeos.
Blair sempre por perto. Ela usava um cachecol no pescoço e luvas longas, todo o possível para me ajudar em meu tratamento alérgico.
- Sente-se melhor? – Ela perguntou enquanto chegava perto.
- Por que eu deveria?
- Sua alergia, lembra? – Ela levantou as sobrancelhas.
- Ah, sim, minha alergia. – Eu havia esquecido dela por um instante.
Nós caminhávamos pelo estacionamento, quando uma sensação estranha correu pelo meu corpo. Perdi a expressão.
- O que houve, Reneé? – Ela se preocupou.
- Nada. Só tive a sensação de estar sendo observada.
- Isso é óbvio. – Ela deu um meio sorriso. – Estamos no meio do estacionamento!
- Não é desse jeito. É como se alguém estivesse escondido.
Ela riu.
- Oh, Reneé. Você é muito criativa.
- Sou? – Olhei com uma expressão de dúvida.
- Claro que é. Quem poderia estar te observando? Um vampiro sanguinário?
Ela tornou a rir.
- É verdade. – Debochei. – Como essas coisas acontecessem de verdade.
Mesmo provocando um sorriso largo em Blair, eu não me sentia muito à vontade por ter dito aquilo. Eu podia estar enganando a mim mesma.
Tempo depois, quando estava saindo de um prédio para outro, encontrei Edward no corredor.
- Ótimo. Pode dizer aos seus irmãozinhos para pararem de me espionar? Vocês sabem que eu não vou atacar ninguém.
- Espionar você? – Ele riu num deboche. – Quem disse que eles estão espionando você?
- Quer dizer que... – Vacilei.
- Sim, eles não estão vigiando você. Mas se você encostar em um fio do cabelo desarrumado da Bella... – Os olhos dele se tornaram negros de raiva.
Eu engoli seco. Não pela ameaça, mas pelo fato de que os Cullen não estavam me vigiando. Então eu não disse mais nada.
Tentei esquecer aquilo. Mas só esqueci realmente na hora em que encontrei Michaelo e sua moto vermelha no estacionamento da escola.
Eu devia saber a que estava me condenando. Mas era impossível resistir.
Eu estava me aproximando.
- Você sabe que eu não quero saber muitas coisas sobre você. – ele começou, com uma face séria e encantadora.
- Veja bem, se você não quisesse saber mais nada, não estaria aqui...
- Quer que eu vá embora?
- Não – Sorri.
Naquele momento, os Cullen saiam em seus carros. Michaelo colocou o capacete na frente do rosto enquanto falava.
- Aquele pessoal não vai com a minha cara.
- Não acho. Eles é que não vão com a minha cara.
- Você sabe o motivo?
- Não – Disfarcei. – E você?
- Que tal um passeio de moto? – Ele trocou de assunto rapidamente.
- Até a minha casa?
- Reneé... Por favor, não.
- Até as proximidades da minha casa? – Eu não me conformava em tê-lo tão perto e tão longe ao mesmo tempo.
Ele balançou a cabeça.
Nunca passou pela minha cabeça de como meus pais reagiriam se um dia eles soubessem que meu “amiguinho” era um vampiro.
Talvez fosse por isso que Michaelo não queria saber muito sobre mim, ao contrário do que qualquer outro vampiro faria para encantar uma pobre mortal.
Ele me deixou na esquina, caminhei até em casa, quando cheguei, ela estava vazia, nem um sinal dos gêmeos, Peter ou Valeria.
Encontrei um bilhete colado com fita adesiva na tela da televisão.
Era a letra de Valeria, rápida e graciosa, medievalmente bonita.
“Reneé,
Levamos Alex e Lucy para o médico. Esperamos não demorar. Tome Cuidado.
- Valéria e Peter”

O que eles queriam dizer com “Tome Cuidado”? Eu não era como Lucy, que podia se machucar com qualquer coisa. Eu sabia como cuidar de mim mesma.
Fui até a cozinha, à procura de algo para comer, mas não havia nada pronto. Liguei para o disque-pizza.
Mesmo depois de satisfeita com a pizza, eu ainda tinha a sensação de querer mais.
Então meu celular tocou. Poderia ser Blair me chamando para fazer algo interessante, mas o número era desconhecido. Poderia ser Michaelo, então atendi. Era apenas um nada do outro lado da linha. Nem mesmo uma respiração.
- Alô, alguém na linha? – Quebrei o silêncio.
Ninguém respondeu. Então desliguei.
Fiquei intrigada por um instante, olhando para o celular. Pouco tempo depois, meus pais chegaram.
- O que houve com eles? – Os gêmeos tinham uma aparência bem melhor agora.
- Exageros somados a uma gripe. – Peter disse no seu tom de pai mandão.
- Oh...
- Sorte sua que você não está gripada. – Alex entrou na conversa. – Provavelmente não iremos á escola até o fim da semana.
- Será que eu tenho tanta sorte assim? – Debochei. – Sorte é a de vocês, que não vão encarar as aulas de biologia.
Eles riram.
Subi para meu quarto, a fim de arrumar minha mochila para o dia seguinte, mas me distraí ao encarar a janela, sem uma linda face para emoldurar.

Capitulo 20 – A briga
No dia seguinte, fui à escola sozinha, o céu estava escuro, as nuvens muito carregadas, não parecia que ia chover, e se eu tivesse sorte, talvez pegaria uma nevasca.
A neve sempre me agradou muito mais do que a chuva, talvez por que a neve era mais freqüente do que a chuva no Tibet. Se algum dia eu voltasse para o Tibet, morreria congelada, eu estava completamente acostumada ao clima de Forks. Isso me deixava decepcionada.
A sensação da chuva iminente me acordou de meus pensamentos. Eu estava atrasada e por isso precisava correr.
Segurei minha mochila e corri o mais rápido que pude, eu podia jurar que estava numa velocidade baixa, mas a minha visão estava completamente embaçada, como se a paisagem tivesse se misturado num borrão de tinta. Como se eu não tivesse problemas o suficiente, agora eu teria que enfrentar problemas de visão?
Em pouquíssimo tempo, eu estava nos arredores da escola. Comecei a caminhar. Logo percebi que minha visão estava mais do que nítida. O que estava havendo comigo afinal?
- Reneé! – Blair acenou de longe. Não era difícil notá-la.
- Ah, Oi Blair. – Eu me aproximei.
- Os garotos estão planejando uma saída para jantar em Port Angeles hoje. Quer ir?
- Eu não tenho certeza se...
- Se for por causa dos garotos, não se preocupe, todos os outros alunos vão também! Na verdade, eles vão fazer uma festa de despedida para um rapaz do terceiro ano!
- Terceiro ano? – Aquilo soou estranho.
- Sim, ele parecia muito amigo dos garotos de nossa sala. E sabe o que é mais engraçado nessa história toda? Ele não passou nem um mês aqui!
- Isso é muito estranho.
- Mas quem disse que não tinha que ser? – Aquilo já estava me confundindo. – Por favor, diga que vai! Podemos chegar cedo e fazer compras!
A cara de raposa que ela fazia para me convencer sempre funcionava.
Não foi difícil convencer meus pais de que eu tinha que sair, apesar de eu não estar cem por cento segura de que aquele era o lugar certo para ir. Não me arrumei muito, afinal, eu estava indo a uma festa e eu não sabia nem de quem era.
A van alugada pelos alunos buzinou na minha porta.
- Já estou indo! – Dei um grito da janela de meu quarto.
Desci as escadas correndo.
Quando cheguei na porta, encontrei com Peter.
- Uma última coisa. – Ele acrescentou.
- Sem exageros... – Eu completei. – Já entendi, papai.
Ele abriu um largo sorriso e me deixou passar.
Garoava e então tive de correr até a van, tive a impressão de ter dado dois passos quando cheguei. Era estranho. Para onde fora o meu esforço?
Entrei na van, passar por todos aqueles alunos não foi uma tarefa fácil, mas cheguei ao fundo e sentei ao lado de Blair.
Pela primeira vez, Blair não tinha assunto comigo. Ela estava interessada em conversar com os outros. Enquanto eu olhava o percurso que fazíamos em uma velocidade entediante até Port Angeles, eu me perguntava por que eu tinha dito sim a Blair, ao invés de não. Aquele passeio não estava sendo tão descontraído quanto deveria.
Eu já estava começando a afundar em eu acento quando a van parou. Chegamos num bar pequeno, não muito chique e de letreiros berrantes. Aquilo já não me dava uma boa impressão. Chuviscava um pouco, e eu fui uma das últimas a entrar no bar,
Blair já estava na frente com outros alunos. Ao entrar no bar, vi os garotos que saíram primeiro sentados em volta de um rapaz, aquele era o “homenageado” da noite.
Ele me parecia velho demais, até mesmo para um rapaz do terceiro ano. Ele era alto, tinha o cabelo escuro, era pálido e estava de óculos escuros. Algo nele me parecia familiar.
- Vincenzo! – Um dos meninos exclamou de trás de mim.
- Oi Arthur! – Ele disse num tom muito leve, quase inaudível, mesmo se tratando de que aquilo foi uma exclamação.
Ele tirou os óculos, tinha um estranho tom lilás nos olhos. Nesse momento percebi que ele era surpreendentemente parecido com Michaelo. Poderia ser até mesmo um irmão mais velho. Mas que graça teria estar na festa de um cara que não me conhece?
Por este motivo, saí do bar, antes mesmo que algum garçom viesse gentilmente me convidar a me retirar se eu não fosse consumir nada.
Em fração de segundos, a chuva ficou mais forte, o motorista estava no bar e provavelmente não gostaria de ser incomodado até que a festa acabasse. Andei no meio das vagas de carros, já ensopada pela chuva forte.
- O que mais pode acontecer comigo agora?! – Gritei, num ato súbito.
Mantive minha cabeça olhando para o alto, a chuva vindo direto em mim. Abri os braços. Parecia uma cena de cinema.
Senti mãos me tocando, olhei para trás, e lá estava Michaelo.
- Reneé. – Ele disse calmo, no mesmo tom usado por Vincenzo.
- Como você me encontrou? – Eu murmurei.
- Digamos que eu estava de passagem. – Ele sorriu. – Por que está sozinha aqui?
- Um passeio que não deu muito certo.
Ele olhou de um jeito misterioso, um meio sorriso, talvez, um misto de compreensão e indiferença.
E me surpreendeu num abraço apertado.
A chuva fria e o contato com a pele dele não contribuíam para a minha temperatura regular naquele instante.
Ele olhou em meus olhos e me deu um beijo suave. Voltou a olhar em meus olhos, abriu a boca, mas as palavras pareciam não sair.
- Para quê tudo isso... – Sussurrei.
- Eu... Eu... – ele olhava angustiado.
- Diga.
- Apenas escute o que eu vou dizer.
- Sim...
- Eu... – Ele engoliu seco, apesar de não precisar ter feito aquilo – Preciso ir embora.
- Como? Você acabou de chegar.
- Não me refiro a esse recinto.
- Refere-se à?
- Vou embora do país.
- O quê? – Aquilo me deixou chocada.
- Quando eu quis dizer que eu não morava naquele casebre, não estava brincando. Eu moro em outro lugar.
- Você...
- Moro em outro país. – Ele disse segurando meus braços.
- Por que você não disse isso antes?! – Eu disse histérica, me livrando facilmente dos braços de pedra.
- Eu... Não sei. – Ele vacilou em seu tom de voz.
- Por que me fez criar tantas expectativas? – Mantive meu tom histérico.
- Não era minha intenção.
- Mas parecia ser!
- Desde o primeiro instante, eu sempre deixei claro que não queria detalhes entre nós. – Ele usou um tom frio. – Espero que não abale nossa amizade. – Ele tentou alisar meu rosto, eu desviei.
Dei as costas para ele. Quando vi que estava sendo infantil demais, olhei para trás, mas ele já estava muito longe.
- Eu te odeio! – Gritei o mais alto que pude. E estava claro que ele iria ouvir.
Na raiva, chutei um carro, parte da lataria fora deformada. A chuva era incessante. Martelava em minha cabeça como se quisesse de fato me provocar. Eu andava em círculos, chorando, até encontrar Blair, vindo na minha direção com um guarda-chuva.
- Reneé! – Ela sinalizou.
Caminhei na direção dela, limpando minhas lágrimas disfarçadamente.
- É melhor entrar, se não quiser ficar gripada. – Ela disse ao se aproximar e me puxar para baixo do guarda chuva. Ela me olhou profundamente, e estreitou os olhos. – Está chorando?
- Não. – Neguei. – É a chuva.
- Então... Tudo bem. Uau – Ela disse ao ficar mais próxima de mim – você está fria. É melhor arrumar um casaco.
Ao chegarmos à porta do bar, eu estava certa de que era a hora perfeita para que eu saísse de jogo.
- Blair... Por favor, me leve para casa.
- Mas o motorista...
- Por favor, agora! – Implorei.
Ela olhou em meus olhos.
- Tudo bem, vamos procurar um táxi. - Ela disse ao voltar.
Eu sabia que não era certo interromper a diversão da Blair, mas eu simplesmente não poderia ficar sozinha naquele momento.
Depois de alguns minutos esperando pelo táxi, chegamos à minha casa.
Entrei correndo, e eu ia subir as escadas quando Valeria chamou minha atenção.
- Querida? – Ela disse no seu tom agradável, e muito preocupado.
- Sim... – Respondi.
- Chegou cedo. – Foi apenas uma dedução, não uma pergunta.
- Sim, a festa não deu muito certo.
Sem mais declarações, subi para tomar um banho, e ficar sozinha em meu quarto.
Eu me recusei a olhar para a janela. Eu sabia que nunca mais a pularia novamente.
Fiquei olhando para o teto. Acabei adormecendo.
Acordei no meio da noite com meu celular tocando.

Capítulo 21 – O intimidador
Atendi o celular, e mais uma vez, não havia nada do outro lado da linha.
A ligação fora encerrada segundos após aceita.
Coloquei o celular em minha escrivaninha, e voltei a dormir.
No dia seguinte, ao acordar, notei uma mensagem nova em meu celular, o número era desconhecido.
“Aqui começam os seus pesadelos. Boa sorte jogando o meu jogo. Você vai precisar”.
Aquilo não fazia sentido. Apaguei a mensagem no mesmo instante.
Preferi ficar em casa naquela manhã, me sentia um pouco mal e não queria ir para a escola.
- Você não pode ficar cabulando aulas, Reneé. – Lucy provocou durante o café da manhã.
- Estou sendo solidária a vocês.
- Que adorável! – Ela ironizou.
- Lucy está certa, Reneé. – Peter disse enquanto lia o jornal.
- Ela está certa e errada ao mesmo tempo. Está cabulando aulas também. – Denunciei.
- Bem... Ela está doente... – Ele prestava mais atenção no jornal, mas, num ato súbito, sua expressão ficou fria, de medo talvez, e ele amassou o jornal, antes de desintegrá-lo.
E ele passou a prestar atenção na conversa, como se nada houvesse acontecido.
No dia seguinte, fui á escola os gêmeos também, eles afirmavam estar se sentindo melhores. Os cullen me observavam, pareciam saber de alguma coisa.
- Oh não, aqueles caras novamente... – Alex reclamou.
- Sem estresse. Vamos ser amigáveis. – Sugeri.
- Falar é muito fácil. – Lucy provocou.
Alice vinha em nossa direção, ela parecia ter mais afinidade conosco do que todos os outros.
- Gostariam de sentar-se conosco? – Ela convidou.
Nós nos entreolhamos.
- Seria um prazer. – Aceitei.
Agora eles não tomavam uma posição defensiva, mas nós continuávamos no meio deles.
Eu pensava no que eles pretendiam fazer conosco. Edward olhava para mim como se quisesse saber o que eu estava pensando.
Nós ficamos em silêncio. Alice mantinha os olhos distantes, parecia perdida no tempo, quando enfim ela pretendia dizer algo, o sinal tocou.
Quando saí da escola, ao fim da aula, notei outra mensagem.
“Você parece ter me ignorado, Se eu fosse você, teria medo de mim.”
Essa fora intimidadora.
Mas afinal, de quem eu teria medo? Ou... Do quê?
Escondi meu celular dentro da bolsa. Olhei para os lados e não vi nem um aluno suspeito de estar praticando alguma travessura que envolvesse celular.
- Reneé. – Alex colocou a mão em meu ombro, me assustando, de certa forma.
- Hã? – Pulei de susto.
- Vamos embora, Valeria já chegou. – Ele parou por um instante – Você se assustou?
- Hm, bem, você me pegou um pouco pensativa...
Ele sorriu, e eu conseguira me acalmar.
Esqueci completamente das mensagens enquanto estava em casa. Naquela noite eu saíra para acompanhar Peter numa caçada em Seattle, no entanto, os planos dele de procurar humanos foram frustrados por Edward. Ele parecia ter lido os pensamentos de Peter.
Melhor para mim, eu era sensível a sangue, mas ainda não sabia o motivo.
Antes de dormir, olhei para o meu celular, havia outra mensagem.
“Eu posso te ver, então tome cuidado com os movimentos que faz neste jogo, uma peça não pode ser movida depois da jogada final”.
Aquilo era intrigante.
Naquela noite, tive um pesadelo.
Eu jogava xadrez, com uma pessoa que usava um capuz negro, que cobria todo o corpo. As mãos eram cobertas por uma luva grossa e negra. Essa pessoa não tinha face. A cada movimento errado que eu fazia, uma pessoa que eu amava era eliminada.
Acordei aos gritos quando Alex fora eliminado.
- Reneé?! – Valeria e Peter estavam na porta do meu quarto.
- Sim...?
- O que houve? – Valeria estava preocupada.
- Apenas um pesadelo...
Eles pareceram bem mais calmos.
- Ah, tudo bem... Volte a dormir, anjinho. – Valeria disse com sua voz melodiosa antes de sair do quarto.
Deitei-me novamente e logo recuperei o sono.
No dia seguinte, Uma sexta feira de tempo instável, os gêmeos e eu ficaríamos em casa sozinhos, já que nossos pais iam caçar em cidades mais afastadas. Eu disse ficaríamos.
Nós pretendíamos ir caminhando até nossa casa – uma vez que nenhum de nós tinha carro ou sabia dirigir – até que Emmett nos barrou na saída da escola.
- Ei, onde pensam que vão? – Ele esticou o braço bloqueando a porta.
- Emmett, por favor... – Lucy disse fraca de medo.
- Vocês vão comigo hoje.
- Emmett, não seja palhaço e nos deixe passar. – Eu era a única que parecia ser corajosa o suficiente para confrontar Emmett.
- Quem disse que ele está brincando? – Rosalie nos surpreendeu.
- Vocês querem nos levar para casa? Será que eu entendi direito? – Alex se intrometeu, receoso.
- Mais ou menos. – Rosalie cruzou os braços.
- Hã? – Alex estava completamente confuso – O que vocês querem, então?
- Vocês vão para a nossa casa. – Ela respondeu um pouco impaciente por ter ficado tanto tempo no corredor com os estudantes.
- Isso é seqüestro ou algo do tipo? – Ironizei.
Emmett trincou os dentes, olhou para Rosalie e depois sorriu.
- Nós contamos no caminho. – Ele prometeu.
Nós os seguimos, muito receosos, aquilo ficava cada dia mais estranho.
No estacionamento, Fomos orientados a seguir no volvo de Edward.
Ele parecia nervoso. Estressado, talvez, mas preferi não dizer nada. Bella também estava conosco. Estar com ela era um pouco difícil, a presença dela causava irritação em minha garganta, era estranho saber das reações que algumas pessoas provocavam em mim. Edward olhava constantemente para mim e meus irmãos, ele parecia estar nos vigiando.
Em poucos instantes, chegamos à casa dos Cullen. Edward pediu para que nós entrássemos logo em casa. Aparentemente ele passaria a tarde com Bella.
- Entrem logo, ok? – Ele recomendou.
Em fração de segundos, Esme estava na porta, agora seria impossível escapar.
Éramos adolescentes, não precisávamos de babás, e por falar em babás... Aquele era o tipo mais estranho de babá que uma criança poderia ter.
Passamos toda a tarde com eles. Alex estava com Jasper e Emmett, enquanto Lucy e eu ficamos com Alice e Rosalie.
No começo da noite, nossos pais foram nos buscar, senti certo conforto ao ver os olhos dourados deles.
- Vamos, crianças! – Peter disse de dentro do carro.
Nos despedimos dos Cullen e entramos no carro.
- Ufa. – Lucy suspirou. – Eu já estava cansada de ser usada como uma barbie.
Eu ri.

Capítulo 22 – O jogo
No dia seguinte, uma tarde de sábado entediante, eu estava jogada no sofá da sala. A televisão ligada, mas eu não prestava atenção.
Recebi uma nova mensagem em meu celular.
“Regra número 1: ninguém deve saber de nosso joguinho”.
Regras? Jogo? Isso só podia ser fruto da minha imaginação.
E quem seria capaz de me intimidar? A tal ponto de começar um... “Joguinho”?
Aquilo era completamente irreal.
Eu fitava meu celular, pensativa. Alex chegou eufórico na companhia de Lucy.
- Reneé! – Ele exclamou ao chegar à sala.
- Alex? – Eu disse ao sair da minha profunda nuvem de pensamentos.
- O que acha de uns exercícios ao ar livre? – Ele disse ainda eufórico. O sangue parecia circular depressa nas veias dele, ele estava corado, de tanta felicidade.
- Ao ar úmido, você quer dizer. – Provoquei.
- Que seja. – Lucy intrometeu. – Ele está perguntando se você quer apostar uma corrida na floresta conosco.
- Vocês sabem que eu sempre ganho. – Eu me levantei e cruzei os braços.
- Não dessa vez... – Alex provocou.
- É. – Lucy sorriu. – Aposto que dessa vez você vai ficar para trás.
- É uma aposta? – Sorri. – Então está apostado!
Subi e peguei minha roupa mais leve, um moletom cinza e azul. Amarrei meu cabelo em um rabo de cavalo e coloquei meu celular em um bolso do moletom.
Passei pela porta quando Peter perguntou:
- Aonde vai? – Ele parecia preocupado.
- Praticar exercícios ao ar livre. – Imitei o tom eufórico de Alex.
- Tudo bem. – Ele sorriu. – Vai sozinha?
- Com Alex e Lucy.
- Pode ir. Tome cuidado.
Alex e Lucy me esperavam na porta. Começamos nossos exercícios ali mesmo, apostando uma corrida de quem chegaria primeiro à floresta.
Abri uma diferença considerável nos primeiros instantes. Mas parei subitamente, o alerta do meu celular indicava uma nova mensagem.
“Bem vinda ao jogo, garota! Regra número 2: para cada erro no jogo, uma peça desse tabuleiro será eliminada.”
Um arrepio percorreu a minha espinha. Em seguida, a sensação de estar sendo observada.
Agora eu estava ficando com medo. Olhei à minha volta, apenas árvores.
- Tem alguém aí?! – Exclamei, tentando superar o medo.
- Boo! – Alex e Lucy me surpreenderam pelas costas.
Meu coração acelerou surpreendentemente, meu sangue pareceu fugir das veias.
- Reneé... Você está pálida... – Lucy me fitou assustada.
- Vocês me assustaram, não lembram? – Eu tentava me recuperar.
- Não foi nossa intenção. – Alex estava um pouco envergonhado.
- Eu entendo... – Agora eu estava mais calma.
- De qualquer modo, você ganhou a aposta. – Lucy sorriu.
- Não importa agora. – Sorri profundamente desapontada.
- Vamos continuar nossos exercícios ou não? – Alex mudou de assunto.
- Vamos. – Sorri.
Caminhamos para dentro da floresta.
Encontramos um lugar com rochas, troncos e um relevo um pouco acidentado.
- Aqui parece um ótimo lugar. – Alex analisou.
- Se você estiver planejando uma corrida com obstáculos... – Interrompi.
- Seria uma boa idéia. – Lucy disse ao se inclinar para amarrar o sapato.
- Você seria a primeira a tropeçar nessas pedras, Lucy. – Concluí.
- Eu não tenho tanta falta de sorte assim. – Ela protestou
- Falta de sorte, você realmente não tem. Mas quanto à atenção... – Insinuei.
- Talvez eu seja só um pouco distraída.
Então, senti uma sensação estranha. Um cheiro doce e forte podia ser sentido naquele local, ficava próximo cada vez mais, e a uma velocidade extremamente rápida. Então, tive a certeza de que não era nenhum humano.
Tive uma fração de segundos para virar meu rosto, e então ver Alex jogado ao chão, com uma criatura negra acima dele.
- Alex! – Gritei, horrorizada.
- Socorro. – Ele disse, a voz diminuindo gradativamente.
- O que é isso? É um urso? – Lucy estava agitada.
- Acredito que não. Ursos têm pelos e não usam capas. – Eu me distraí por um instante, observando a criatura. – Alex, reaja! – Gritei.
A criatura apertava os braços de Alex, no chão. Alex tentava resistir e apertava os braços da criatura também, mas os ataques de Alex pareciam não surtir efeito.
Alex tentou estrangular a criatura. Eu não pude ver o que aconteceu, e ele gritou, e logo em seguida fora jogado para a esquerda, batendo com a cabeça em uma árvore.
- Alex! – Lucy e eu gritávamos ao mesmo tempo.
Meu sangue esquentou, a raiva começou a circular em minhas veias. Encarei a criatura, que se apoiava sob os pés e as mãos, virava-se para outro ataque. Uma força estrema surgiu de dentro de mim. Pulei na direção da criatura, impedindo-a de atacar Alex.
Tive o atrevimento de tentar algum reconhecimento. A criatura usava uma espécie de meia negra na cabeça, daquelas que são usadas em filmes de ação. Eu só pude ver os olhos de cor lilás, e uma abertura para a boca. Eu usei toda a força que pude para resistir, a defesa muitas vezes não era tão útil quanto parecia, resolvi atacar, da mesma forma que Alex. Estrangulando.
Pude sentir efeito a partir do momento em que comecei a pressionar meus dedos no pescoço. Se eu tivesse sorte, e até força suficiente, poderia cortar aquela criatura em pedacinhos.
- Reneé, Alex está muito mal! – Lucy gritou, me distraindo da luta.
Eu não sabia qual deveria ser minha prioridade naquele momento. Mas a fraternidade falou mais alto. Arremessei a criatura para o meio das pedras irregulares. Ela bateu com violência, e então se recuperou e sumiu entre as árvores.
Me levantei, um pouco zonza e cambaleei até encontrar Lucy, ajoelhada ao lado de Alex.
- Ele está sangrando muito. – Lucy acrescentou.
- Meu corpo dói. – Alex gemeu.
- Precisamos levá-lo pra casa.
- Como, ele parece muito frágil.
- Eu não sei, vou tentar carregá-lo em minhas costas.
- Isso é impo...
- Minhas... Veias... Estão... Pegando fogo. – Alex gemeu, mal conseguindo pronunciar as palavras.
- Não é hora para pensar no “impossível”.
Eu levantei Alex e cuidadosamente o coloquei em minhas costas. Ele parecia um boneco de pano descosturado.
Eu corri o mais rápido que pude, Lucy ficou para trás, mas de certa forma, eu sabia que a criatura não voltaria, pelo menos por enquanto.
Cheguei em casa, Minha roupa estava ensangüentada, e incrivelmente, ninguém parecia notar o que estava acontecendo.
Lucy chegou instantes depois, e abriu a porta para mim.
Valeria e Peter olharam atônitos para nós.
- S... Socorro. – Alex gemeu outra vez.
- O que foi isso?! – Peter estava desesperado, levantou-se da poltrona num salto e estava perto de mim, tirando Alex de minhas costas e o carregando nos braços.
- Um ataque... – Murmurei.
- Um ataque do quê? Um ataque do quê? – Valeria disse desesperada.
- Nós não sabemos. – Lucy murmurou.
- Foi um ataque de vampiro. – Peter concluiu.

Capítulo 23 – Alex
- Um ataque de vampiro? – Valeria estava horrorizada. – Quem poderia...?
Peter a olhou de uma forma diferente, parecia estar falando mentalmente com ela.
Peter, num ato súbito, subiu as escadas em uma velocidade extrema e levou Alex para o quarto. Ele observava o garoto se contorcer na cama, atônito.
- Tem algum jeito de... ? – Valeria olhou, desesperada.
- Não. – Peter respondeu desapontado. – Olhe, – Peter mostrou o braço de Alex, com uma mordida – É impossível interromper a transformação agora.
- Mas eu... – Valeria interrompeu.
- Você sabe tão bem quanto eu que nós somos fracos. Nós faríamos um estrago pior do que o que já foi feito.
Valeria suspirou, e abraçou Peter, eu seria capaz de dizer que ela estaria chorando, se tivesse lágrimas.
- Não foi esse tipo de destino que eu planejei para ele. – Ela disse ao abraçá-lo mais forte, enquanto ele a alisava, reconfortantemente.
- Mas nós sabíamos que... – Ele olhou para nós, Lucy e eu estávamos olhando sem expressão. – Meninas, não é seguro para vocês permanecerem aqui...
- Mas... – Lucy protestou.
- Isso é mais perigoso do que vocês podem imaginar. – Peter estava sem expressão.
- Acho melhor vocês irem para a casa dos Cullen. – Valeria sugeriu.
- É melhor não metermos mais os Cullen nessa história, eles já têm problemas demais... –
Peter fitou Valeria seriamente.
- Então é melhor que elas fiquem aqui. – Valeria fitou Peter amavelmente.
- O que? – Peter estava nervoso.
- Não podemos mandá-las para a casa de nenhum humano, não será de bom tom.
- Mas elas são humanas! – Peter aumentou o tom de voz.
- Não acredito que as humanas queiram fazer festas do pijama por três noites seguidas.
Valeria bufou e nos tirou do quarto.
- Alex vai ficar bem? – Perguntei, ao sair do quarto.
- Sim, mas provavelmente ele nunca mais será o mesmo. – Valeria disse num tom extremamente baixo.
Senti um peso em meu peito, Alex significava mais para mim do que eu podia imaginar.
Ele podia não ser meu irmão biológico, mas era como se fosse.
Agora, era como se apenas Lucy e eu estivéssemos em casa. Valeria e Peter estavam no quarto há horas, e não se importavam conosco. Somente percebíamos que não estávamos sozinhas quando ouvíamos os gemidos altos de Alex, e Peter e Valeria tentavam acalmá-lo. Sem sucesso.
Três dias passaram, seguindo a mesma rotina. Era uma terça e nós havíamos chegado da escola.
Lucy e eu estávamos na cozinha, encarando uma a outra.
- Pobre Alex. – Lucy suspirou.
- Três dias, e nada... – Suspirei.
- É... – Ela suspirou outra vez. – Os cullen passaram o dia todo nos observando... Eles são estranhos.
- Eu também acho... – Disse sem ânimo.
O silêncio predominava, Lucy me fitava com expectativas.
- Nossos pais estão em casa? Está... tão quieto. – Ela deu uma volta pela casa com o olhar.
- Eu não sei...
Então, ouvi ruídos na escada, passos. Segundos depois, Peter, Valeria e Alex estavam na cozinha.
Eu não tinha palavras para descrevê-lo, Valeria estava certa em dizer que ele nunca mais seria o mesmo. Alex parecia de certa forma, mais forte e mais bonito. E tinha os olhos vermelhos. Mas a sensação de conforto me invadiu ao saber que ele estava... vivo.
Corri para abraçá-lo, Valeria me parou com um braço, Alex recuou em uma posição defensiva.
- Cuidado, ele ainda está fora de si. – Valeria alertou, me afastando de Alex.
- Ele vai poder ir à escola amanhã? – Lucy perguntou curiosa.
- Não, nem o resto da semana, pelo menos. – Peter destacou a última expressão.
Fitei Alex com meus olhos um pouco cansados, ele me fitava de volta com os olhos vermelhos, parecia que, por trás daquela máscara, meu irmão estava vivo.

Capitulo 24 – A gota d’água
Dias depois do acontecido, tudo parecia normal, nem mesmo uma mensagem no celular. Ao que tudo indicava, era a estranha coincidência entre a falta de sorte e uma brincadeira de mau gosto.
Os Cullen andaram nos observando por dias, sem ao menos falarem conosco. Bem, Alice não conseguia ficar muito tempo sem ter informações, então tentava obtê-las de nós. Nós negávamos, sempre.
- Onde está Alex, Reneé? – Alice falava como sinos ao vento.
- Ele... Cansou-se dessa vida... – Suspirei.
Alice nos fitava esperando resposta.
- Foi morar sozinho em uma cidade ensolarada. – Lucy respondeu rapidamente.
- Sentem saudades dele? – Ela perguntou.
- Muita. – Nós concordamos, embora fosse verdade o fato de sentirmos saudades da época humana dele.
Ao sair da escola, chequei meu celular, havia outra mensagem.
“Sua vez de jogar. Como irá se comportar com uma peça faltando no tabuleiro?”
- Droga! – Eu disse alto demais, Blair escutou e veio em minha direção.
- O que há? – Ela disse um tanto curiosa.
- Não é nada. Esqueci-me sobre a prova de amanhã. - Disfarcei
- É verdade, eu também. Obrigada por lembrar. – Ela sorriu. – Por que andou os últimos dias sem falar comigo?
- Me desculpe, estava estudando para as provas. Eu não prestava atenção em mais nada a não ser nos livros...
- Hm... Sei... – Ela franziu a testa. – Podemos combinar de fazer compras depois das provas, certo?
- Hm... É claro. – “Que não”, Eu completei.
- Então está bem. – Ela tocou em meu ombro, e pude sentir o perfume forte. – Eu te ligo depois da temporada de provas.
- A propósito, não esqueça da luva e de seu cachecol. – Lembrei.
- Me desculpe. – Ela sorriu, um pouco sem graça. – Isso não vai acontecer de novo.
Entrei no carro de Valeria, junto com Lucy, e fomos para casa.
Ao chegar em casa, Alex estava na sala, em pé, sem reação.
Eu gostaria de saber quando aquilo acabaria, não agüentava vê-lo daquele jeito.
Naquela tarde, Lucy queria fazer uma trilha.
- Eu acho melhor não. – Peter negou em sua primeira oportunidade.
- Por que não?
Ele estava a ponto de responder, e então se conteve.
- A floresta anda meio perigosa... – Valeria se apressou.
- Se quiserem mesmo fazer trilha, então façam o caminho inverso. E por favor, não se afastem da cidade!
- Hã? Assim não tem graça. – Lucy protestou.
- Prometem que não vão se afastar da cidade? – Ele franziu a testa.
- Nós prometemos.
Como o prometido, nós não nos afastamos da cidade...
- Bem que a gente podia se afastar, só um pouquinho... – Lucy quebrou o silêncio na floresta.
- Mas, Lucy...
- Nossos pais não estão aqui. Você está vendo eles, por algum acaso? – Ela provocou.
- Não, mas...
- Então tá. Vamos só um pouquinho mais longe e ninguém vai saber que nós passamos do limite.
- Tudo bem, Lucy. – Meu celular vibrou em minha mochila. – Vá na frente, eu vou te alcançar.
- Está bem. Vou andar devagar.
Ela tomou certa distância e então peguei meu celular.
Uma nova mensagem intimidadora.
“Como você se comportaria com menos uma ovelha em seu rebanho?”
Então ouvi gritos, era a voz de Lucy.
Corri extremamente rápido, mas quando cheguei, numa pequena clareira, vi apenas um vulto se locomover em fuga, e Lucy jogada ao chão.
Ela estava com os olhos abertos, mas não parecia estar... viva.
Cheguei mais perto e segurei na mão dela, mas ela ainda tinha pulsação. E um machucado no pulso que ainda sangrava bastante.

- S-socorro... – Ela gaguejou.
Segurei Lucy, e a Levei para casa.
Alex, que estava sem expressão na sala, olhou horrorizado quando passei pela porta carregando Lucy, Ele se pôs em posição de ataque, mas Valeria o impediu.
- O que foi isso? – Valeria perguntou.
- V-vampiro. – Lucy gaguejou, parecia estar com olhar muito distante.
- Acho que não há nada que possamos fazer novamente. A não ser manter Alex longe de Lucy por enquanto.
Engoli seco.
Deixei Lucy nos braços de Peter e saí correndo pela porta. Precisava esfriar a cabeça. Corri para a floresta, nesse contexto, ela poderia ser muito perigosa, mas isso não me importava. Talvez fosse bom que eu fosse atacada ali mesmo.
Sentei na terra molhada, os joelhos unidos ao corpo, minhas mãos tremendo e meus olhos impacientes fitavam o celular.
Sim, eu estava nervosa.
Me distraí por um instante enquanto vigiava um raio de aproximadamente 3 metros. Meu celular vibrou em minha mão, apesar de pensar, que naquele momento, fosse ilusão criada pelo meu nervosismo.
Outra mensagem.
“Você já deve ter compreendido as minhas regras, certo? Então seja boazinha e ninguém mais irá sofrer. A não ser você.”
- Droga! – Gritei. – Tem que haver um jeito de acabar com esse jogo! – Eu disse enquanto batia na terra molhada.
Suspirei. E me deitei na terra.
Eu devia ter cochilado, acordei no mesmo lugar, mas a floresta estava mais escura. Devia estar entardecendo.
Havia outra mensagem no celular.
“Só existem dois jeitos de acabar com esse jogo: o primeiro, quando todas as peças do tabuleiro são eliminadas, ou, se você se render.”
Quem quer que fosse o meu intimidador, estava muito, muito perto de mim.
Respirei fundo e disse:
- Eu me rendo.

Capitulo 25 – Volterra
Passei aquela noite na casa de Blair. Aquela fora uma festa do pijama forçada. Eu não poderia ficar em casa com dois recém nascidos – e dois vampiros experientes incontroláveis – que poderiam me matar a qualquer instante. Blair dormiu rapidamente, eu estava sentada em meu colchão enquanto assistia a um filme de suspense, onde homens encapuzados faziam a ronda de uma cidadezinha todas as noites à procura de qualquer indivíduo que burlasse as leis da cidade. Era uma história policial bem interessante.
Eu não conseguia dormir, e ao que indicava, o filme estava terminando.
Me ajeitei no colchão mais uma vez e fitei o meu celular, havia uma outra mensagem.
“Você se rendeu tão rápido... Garotinha inteligente, você sabe o que é bom para os outros... Siga as minhas instruções e você não sofrerá... mais. Há uma pequena cidade na Itália, chamada Volterra, o cenário perfeito para encerrarmos nosso jogo de modo... cinematográfico. Afinal, você não quer que os outros saibam de como vai terminar a nossa brincadeira e se metam no jogo, não é? Agora é entre você e Eu.”
Itália? Volterra? Aquilo era irreal, mas eu não podia questionar a veracidade do fato. Eu estava numa corrida para salvar as vidas que eu mais amava, e naquele instante, pouco importava onde o meu “joguinho” terminaria. Fitei Blair dormir despreocupada pensando se ela poderia ser a próxima se eu não acabasse com aquilo.
Desliguei a televisão, e silenciosamente, arrumei as minhas coisas.
A janela do quarto estava aberta, então, calculei a altura e pulei sem medo. Corri como um raio que atravessa o céu em um dia de tempestade, eu precisava fazer aquilo o mais sorrateiramente possível.
Entrei em casa, dessa vez pela porta, ninguém parecia realmente se importar com a minha presença agora. E isso era bom. Tomei o cuidado de pensar em várias outras coisas enquanto eu pegava todo o meu dinheiro e meu passaporte, alguém poderia “ler” as minhas decisões, e isso não seria muito bom agora.
Quando tudo ficou pronto, saí imediatamente. Era a minha saída perfeita. Ao fechar a porta de casa lentamente e colocar os pés no assoalho, me perguntei se aquilo era realmente o que eu desejaria fazer. Obviamente, não era, mas era preciso. Eu causei problemas e agora era hora de concertá-los.
Cheguei ao aeroporto, e lá esperei até o primeiro vôo da manhã. Durante a espera, fiquei encarregada de pensar em muitas outras coisas. Eu não podia vacilar agora.
Assim que o embarque fora anunciado, eu estava na fila, me misturando a outras centenas de pessoas comuns. O fato de não poder ligar meu celular durante a viagem só me deixava ansiosa. Quem sabe o meu intimidador não mandaria uma nova mensagem dizendo que aquilo não passara de um trote e todos aqueles acontecimentos não passavam de pura coincidência?
Eu sabia que era impossível, mas a esperança era minha única companheira de viagem.
As horas de viagem foram cansativas, o fato de pensar no meu destino por si só já era desgastante. Ao aterrissar na Itália, liguei meu celular, puxei meu espelho de dentro da bolsa. Dando um sombrio adeus à minha própria imagem...
Eu só precisava saber como chegar a Volterra. Calculei pelos meios legais – isso incluía ônibus ou aluguel documentado de um carro –, que eu levaria muito tempo até chegar ao meu destino.
Quem sabe pelos meios ilegais...
Mas meus pensamentos foram dissipados no instante em que uma voz suave me chamou. Era tão familiar, mas eu pensava que nunca a escutaria novamente.
- Reneé. – A voz vinha de trás de mim.
- Michaelo. – Sussurrei ao me virar e encontrá-lo.
Era uma estranha coincidência estarmos no mesmo lugar, e na mesma hora.
- O que faz aqui? – Ele disse em seu tom meigo e melodioso.
- Tenho assuntos a resolver. – Eu disse quebrando o clima melodioso e me lembrando de tudo o que ele havia feito a mim. Meu tom era ácido.
- Em algum lugar que eu conheça? – Ele disse tentando dissolver o meu tom ácido.
- Bem, eu... – Me distraí por um momento. Ele mexeu em meu cabelo e isso era golpe baixo. – Estou indo para Volterra. –
Eu disse quando saí do meu momento de distração.
- Santa coincidência! – Sua face se iluminou. – Também estou indo. Quer carona?
Ele definitivamente parecia ter esquecido do que havia dito a mim.
Só de pensar em andar naquela moto, o meu coração acelerou.
- Seria agradável. – Eu não podia desperdiçar a chance de ter condução gratuita.
Ele pegou a minha bolsa e pôs a mão em meu ombro, o contato com a mão fria logo fora substituído pelo casaco de couro quente, que absorvia todo o calor do sol.
Ele pilotava a moto feito um louco, conseguia fazer ultrapassagens extremamente perigosas em alta velocidade. Nenhum humano em sã consciência – ou mesmo fora de si – seria capaz de realizar tal proeza.
Porém, quando eu estava com Michaelo, não havia perigo capaz de me preocupar. Tudo era perfeito demais.
Deixei o vento selvagem brincar com meu cabelo durante a viagem, o sol brilhando em minha pele clara, incandescendo meu cabelo, e minhas idéias.
Michaelo não dirigiu a palavra a mim durante a viagem. Ele não demonstrava emoção alguma, ou sequer atenção à estrada.
Talvez fosse falta de assunto.
Então nos deparamos com uma longa fila de carros, e ao longe, os muros da cidade.
- Turistas... – Ele resmungou.
- E agora? – A fila parecia interminável.
- Vamos cortar caminho, segure firme! – Ele sorriu maliciosamente.
Ele virou a moto e partiu pelo acostamento. Os turistas olhavam surpresos, deslumbrados, ou até mesmo com raiva da nossa... Trapaça.
Não muito tempo depois, estávamos no portão da cidade.
- Senhor... Michaelo. – O guarda limitou-se a pronunciar o nome dele.
- Ela é minha acompanhante.
O guarda balançou a cabeça e retomou o trabalho. Entramos na cidade. Encarando séries e mais séries de ruas estreitas e sombrias. Por mais estranho que aquilo pudesse parecer, eu sentia uma forte energia vindo daquelas ruas, algo tão familiar...
Ele parou a moto num beco escuro, que possuía uma única faixa de luz; a do por do sol.
Ele tirou as chaves do bolso e abriu a porta.
- Se você tem mesmo assuntos a tratar, é melhor tratá-los amanhã. – Ele disse casualmente.
- Está tão tarde assim? – Eu instiguei.
- Você nem imagina. – Ele disse ao entrar.
A casa não era pobre. Mas era muito simples. Uma estante de madeira com uma televisão, uma poltrona um pouco rasgada de cor vinho e uma mesa de madeira, dividindo o ambiente com quatro cadeiras mal posicionadas. A iluminação era fraca. Parecia que ninguém arrumava aquela casa em anos.
Puxei uma cadeira, me sentei de costas para a porta e de frente para Michaelo.
Ele me encarou alguns instantes, sem certeza do que dizer.
- Reneé... – Ele disse sem expressão, sua voz era quase um murmúrio.
- Sim... ? – Eu estava criando expectativas novamente.
Então eu senti... Aquele cheiro inconfundível que me perseguia em minhas lembranças recentes. Ficava cada vez mais próximo. Me virei naquela fração de segundo e meus olhos se encontraram com dois olhos de cor lilás. Algo frio entrou em contato com meu ombro, me obrigando a ficar sentada na cadeira. O cheiro do perigo se dissipou, sendo substituído por outro tranqüilizante. Lutei. Mas aquilo era mais forte do que eu. Então, tudo ficou escuro.

Capitulo 26 – O clã
A escuridão se dissipou aos poucos, dando lugar a uma claridade celestial, as imagens não eram nada além de meros borrões, as vozes eram rápidas e baixas demais para minha compreensão, meu corpo estava pesado, perguntei a mim mesma se ainda estava viva. E eu estava. Aos poucos tudo foi ganhando seu contorno real, e as vozes adquiriram volume e velocidade originais.
O fato de estar viva me trouxe grande contentamento, seguido de uma respiração pesada, quase um suspiro.
Ouvi passos leves, seguidos da presença do cheiro que outrora senti. Movimentei minhas mãos pesadas por sobre a mesa. Eu estava tão tensa e lenta que rasguei a seda que cobria a maca sem esforço algum. Senti algo gelado envolver minhas mãos. Então uma voz grave anunciou:
- Ela acordou.
Virei meus olhos, pude ver o perfil, e a imagem dos olhos lilás em mutação para o vermelho sangue preencheu a minha mente. O cabelo curto e arrepiado, a barba mal-feita, era tudo familiar. Era ele, Vincenzo.
Mas o que ele fazia ao meu lado? Supus estar em um hospital, mas aquilo estava muito longe de ser um.
Inclinei a cabeça e vi pessoas caminhando em direção a mim. Todos pálidos, menos os três primeiros, que eram igualmente quase translúcidos. Senti um cheiro diferente, um adocicado e muito concentrado. Isso irritava meu nariz.
Um deles, de pele delicada, cabelo preto e comprido, se aproximou mais do que os outros.
- Ora, Ora! Se não é a bela Reneé Volturi! – Ele manteve os braços abertos ao me saudar, como se estivesse acolhendo alguém que há muito tempo não via.
- Receio que o senhor esteja equivocado. – Me encolhi na maca. – Não sou Reneé Volturi. Sou Reneé...
- Volturi... Reneé Volturi. – Vincenzo completou, sorrindo maliciosamente enquanto encostava suas mãos gélidas nas minhas.
- Conte-nos, Reneé, Por que você esteve tão distante de nós?
Rolei pela maca e saí com dificuldade pelo outro lado. Tive o cuidado de posicionar a maca entre mim e eles.
- Eu... Eu... Não conheço vocês...
- Como não conhece, Reneé? – Vincenzo sorria maliciosamente mais uma vez.
- T-t-tenho certeza de que não os conheço. – Gaguejei. – N-n-não sei do que vocês estão falando. – Eu continuava a gaguejar, meu corpo estava pesado e ficava difícil para expressar algo coerente.
Eu comecei a me afastar. Os passos curtos e lerdos.
O homem de pele de papiro e olhos vermelhos aproximou-se mais rápido do que eu podia supor e tocou a minha mão que segurava a maca.
Fiquei sem reação, apenas observei todos que me encaravam.
Ele parecia absorver informações enquanto segurava a minha mão, pude perceber várias expressões em seu rosto.
Ele largou a minha mão e se distanciou.
- É incrível saber como algumas pessoas não sabem aproveitar seus dons... Umas descobrem cedo demais, outras muito tarde... Outras nem sequer descobrem...
- O que quer dizer com isso, Aro? – Vincenzo perguntou curioso.
- Ela não sabe de nada. – Aro disse sério.
- Ora, então por que precisamos dela? – Um outro, de cabelos brancos cruzou os braços.
- Caius, Ela ainda pode...
- Você sabe que não... E, aliás, ela sabe demais agora... Sabe quem somos nós. Devíamos aniquilá-la.
- Só se vocês nos aniquilarem antes! – A porta se abriu.
Aquela era Valeria. Mulher forte em todos os sentidos, entrava com determinação pelo salão, balançando seu longo cabelo cor-de-chama. Ela vinha acompanhada de Peter, os gêmeos e os Cullen.
- Ora se não é a determinada Valeria Vercilo. A nômade. O tempo parece não passar para você... – Aro disse num tom ácido.
- Não mudei nada nesses 600 anos, se permite o trocadilho. – Valeria cruzou os braços e se pôs à minha frente.
Os três homens a encararam. Peter aproximou-se de Valeria.
- O que vocês estavam fazendo? – Peter disse num tom igualmente ácido.
- Só estávamos tendo uma conversa civilizada com a nossa nova amiga... – Aro olhou indecifravelmente para mim. – Mas, pelo que pude perceber... Ela não sabe de nada...
- É. Ela não sabe mesmo. – Ela estava sendo muito dura.
- Então... Por que não contam? – Ele se virou para uma espécie de comitê que o acompanhava – Não seria uma boa idéia se ela contasse tudo?
Eles assentiram de forma sincronizada.
- Vocês podem conversar aqui mesmo... Voltaremos rápido.
Os Volturi saíram.
Peter e Valeria se abraçaram.
- Nós fizemos tudo errado... – Valeria disse ao encostar a cabeça em seu ombro.
Peter olhou um pouco desolado, e beijou a testa de Valeria.
A face dela se iluminou, então todos se viraram para mim.

Capitulo 27 – Partes da verdade
- Do que aqueles caras estavam falando?
As faces se enrijeceram. Os Cullen se entreolharam.
- Parece que vocês têm muito que conversar. Estaremos por perto. – Carlisle disse aos sair com os outros Cullen, e Blair.
Ficamos no salão, Valeria, Peter, os gêmeos e eu.
Eu desviei minha atenção para os gêmeos pálidos e isolados no canto do salão.
Peter tocou sua mão gelada na minha, pedindo um pouco de atenção.
Ele trocou um novo olhar com Valeria e suspirou. Apertou levemente a minha mão e começou a falar com receio evidente em cada palavra.
- Reneé... Tudo o que sabe de nós... Ou tudo o que pensa que sabe de nós... Não passa de uma grande mentira.
- Impossível. – Eu ri de leve, debochando.
- É possível sim. – O olhar de Valeria era nostálgico.
Eu não tinha palavras naquele momento. Pra mim, aquela conversa não passava de uma brincadeira de mau gosto. Eu não prestava atenção.
Numa reação brusca, Alex cruzou a sala rapidamente, colocou-se à minha frente, olhando em meus olhos e segurando minhas mãos.
Ele parecia querer dizer alguma coisa.
- O que você quer dizer com isso? – Eu estava completamente confusa. – Não consigo entender.
- Reneé, preste atenção no que eles estão querendo te dizer. É algo muito – ele apertou minhas mãos – muito importante.
Meu contato com Alex sempre foi um pouco superficial. Mas por algum motivo, agora ele era profundo. Como se ele pudesse ler a minha mente.
Lucy estava esperançosa, se aproximando graciosamente com um sorriso iluminador no rosto.
- Alex tem razão. Isso é realmente importante. – Ela acrescentou.
Voltei meus olhos na direção de Peter e Valeria. Retomei o assunto.
- Como assim... Mentira?
- Reneé, você não é humana. – Valeria disse.
- Claro que sou humana. – Contestei.
- Não é. – Ela retrucou.
- Como eu posso não ser humana? Eu sou uma vampira? É isso que vocês querem dizer? Que eu sou... um monstro? – Comecei a me descontrolar, as palavras saíam sem ser pensadas.
- Você não é humana e nem imortal. – Peter disse com calma.
Eu abri minha boca para protestar, mas Lucy chamou minha atenção para eles novamente.
- Você é um pouco dos dois. – Ele continuou.
- E como isso é possível?
- Você... – Valeria começou e pausou. – É filha de um vampiro e uma humana. Você adquiriu características das duas espécies. Sangue nas veias, pele corada e temperatura regular. Força, visão, audição e olfato aprimorados.
Eu estava atônita.
- É por isso que você sempre foi mais forte e rápida do que nós dois. – Lucy apontou para Alex.
- É por isso que você conseguiu caçar e se alimentar de sangue. – Alex completou.
- Era por esse motivo que você não conseguia se controlar quando estava perto de Blair. Não era alergia, era o sangue dela. – Valeria dizia num tom calmo e esclarecedor, tomando o cuidado de observar minha reação. – Você sentia o mesmo quando estava perto de Bella. Edward nunca a odiou, ele só tinha medo de que você fizesse algum mal à Bella.
“Ah, só isso...” Pensei.
- Eu fui enganada... – Meu sangue começou a esquentar.
- Calma, Reneé. – Alex colocou sua mão em meu ombro.
- Como posso ficar calma?! – Aumentei o tom – Sabendo que fui enganada por dezessete anos?!
- Por favor, Reneé, escute! Há mais coisas que você precisa saber! – Lucy disse por impulso.
- Mais? – Eu disse prestes a explodir de raiva.
Valeria apertou minhas mãos, tentando me acalmar.
- Você... – Ela disse olhando em meus olhos – nasceu aqui em Volterra. É filha de uma amiga – Seus olhos estavam mergulhados em tristeza por um instante – minha.
- Ela...
- Ela está morta.
Engoli seco. Por um instante, as informações se distorciam em minha mente.
- Veja bem... – Ela retomou – Minha amiga, Laura Ventura, que era humana, teve você quando era muito jovem. Não resistiu.
Então, passei a cuidar de você.
- E o meu pai, quem é? Obviamente ela não me fez sozinha.
Peter e Valeria se entreolharam. Valeria prosseguiu.
- Seu pai era Luigi Volturi. Um integrante do exército Volturi. Um rastreador profissional e invejado por muitos. Quando souberam que Laura estava grávida dele, eles o mataram. O próximo objetivo deles era encontrar você.
- Encontrar a mim?
- Sim. – Peter interrompeu. – Você não faz idéia do quanto é poderosa.
- Eu sou? – Agora era uma questão pessoal.
- Muito. – Valeria respondeu. – Certa vez, comentei com meu tutor sobre você. Ele disse que você pode ser tão ou mais poderosa que seu pai.
- Quer dizer que eu sou uma rastreadora também?
Valeria assentiu.
- E... – Eu estava com medo de ouvir a resposta – O que faz um rastreador?
- Um rastreador rastreia, né... – Lucy completou como se isso fosse óbvio.
- Quero dizer, que poder um rastreador possui? – Corrigi.
- Você tem todos os sentidos aguçados. E uma percepção muito eficiente. – Peter respondeu.
- E se você for como o seu pai, pode chegar a ser tão poderosa quanto os Volturi. – Alex se intrometeu.
- É por isso que eles me querem?
- É claro. Você acha que eles perderiam a oportunidade de ter alguém que pode achar qualquer ser em qualquer lugar do mundo sem dificuldade? – Alex debochou.
Fiquei sem reação.
- Mas isso só acontece depois de anos de experiência. –Valeria amenizou.
Minha expressão ficou suave.
- Mas a julgar pelo desenvolvimento rápido de um meio-imortal... – Alex observou.
- Cale-se Alex. – Peter interrompeu trincando os dentes. – Não piore as coisas.
- Tenho a impressão de que não serei eu quem vai piorar as coisas por aqui. – Alex sorriu num deboche.
Peter soltou um rosnado e Valeria o acalmou.
- Então foi por isso que nós fomos para Forks... – As coisas passavam a ter sentido agora.
- Foi para a sua proteção. Nós te tratávamos como humana por que estávamos esperando até o seu aniversário para contar a verdade. – Peter disse.
- Mas infelizmente... – Valeria suspirou.
Suspirei também. Era uma forma de tentar aliviar o peso.
Então a porta se abriu. Os Cullen e os volturi entraram.
- Acho que tiveram tempo o bastante para conversar. – Aro disse enquanto se aproximava.
- Nós tivemos. – Peter estava sério.
- Ótimo. – Ele sorriu maliciosamente e então virou-se para a espécie de comitê que o acompanhava. – Vincenzo! Vincenzo! Onde está Vincenzo?
Ele logo apareceu.
- Traga seu irmão aqui. – Aro ordenou.
Vincenzo saiu e tive a impressão de ver um sorriso no rosto dele.
Virei meu rosto rapidamente e vi Blair escondida atrás de Alex. Aro virou seus olhos na direção dela.
- E essa humana...? – Ele esperava alguma resposta, obviamente.
- Tire seus olhos dela, Aro... O destino dela já está traçado. – Alex reagiu de um modo violento com suas palavras.
Os Cullen ficaram surpresos com a reação de Alex.
- Por que não... Agora? – Caius provocou.
- Nós temos que fazer a viagem de volta. Um recém-nascido num avião não seria de bom tom. – Alex debochou.
- Você tem talento, rapaz. – Aro retomou seu discurso, pude ouvir Edward e Alice bufarem.
Vincenzo chegou ao salão com seu irmão. Ou melhor, Michaelo.

Capitulo 28 – Traição
- Como pôde ver, Aro, meu irmão cumpriu com sua parte. Eu mereço minha redenção, certo? – O sorriso de Vincenzo faiscou.
Aro não respondeu.
- Sobre isso, nós conversaremos depois. – Marcus interrompeu num tom entediado.
- Espere! – Eu interrompi, entrando no meio do círculo de vampiros – Do que vocês estão falando?
- Nosso caro companheiro Vincenzo precisava de uma forma de se redimir e... – Aro deslizou para o meu lado, me afastei para evitar qualquer contato – Bem, nós precisávamos de você conosco. Então por que não dar a ele uma missão?
A fúria percorreu minhas veias. Eu estava sendo tratada como um objetivo.
A raiva era nítida em meus olhos. Então me afastei do círculo.
- Por que precisavam de mim aqui? – Mesmo eu sabendo, queria ouvir a verdade deles.
- Você tem um talento incrível, Reneé. – Aro disse numa face preenchida pelo desejo – Seria muito bom tê-la no clã.
Todos bufaram de tédio. O discurso de Aro já se tornara monótono.
- Eu tenho a minha própria família. – Eu disse sem medir as palavras. A face de michaelo mergulhou em pânico.
- Pense bem. Você só tem a ganhar se ficar do nosso lado. – Uma voz delicada e ritmada surgiu do silêncio.
Era uma garota de face ingênua.
- Estou certa do que quero fazer. – Eu a subestimei.
- Jane... – Marcus ordenou.
Jane me olhou, e uma onda de dor incontrolável penetrou em cada célula que eu possuía. Caí sobre meus joelhos, mas fui levantada por um braço forte de cada lado.
Jane levantou meu pescoço.
- Você tem uma última chance para pensar e mudar de idéia. Não desperdice. – Ela olhou para os outros. – Podem levá-la.
Ainda sob a ilusão de dor, eu fora arrastada pelo corredor e levada para uma espécie de masmorra.
A dor bagunçava meus sentidos. Será que alguma hora aquilo iria parar?
Eu me perguntava qual caminho a seguir. Condenar-me como uma “humana” e ter minha vida interrompida pelos Volturi quando eles acharem mais propício? Viver eternamente sob a vigilância constante de alguém? Ou me unir aos Volturi, para a segurança da minha família, e de mim mesma?
Eu estava muito confusa para dar uma resposta. Mas a cada segundo a hora da decisão ficava mais próxima.
A sede despontava em minha garganta, me impossibilitando de pensar por alguns instantes. Com a mão no estômago, me debrucei sobre meus joelhos. Então me deitei no chão frio, na esperança de esfriar a minha própria circulação.
A cada instante, eu mudava de idéia. As visões de um futuro não muito distante passavam como um filme diante dos meus olhos. Mas essas decisões não eram minhas.
Continuei deitada, contraída no chão.
O portão barulhento se abriu, uma faixa de luz veio em minha direção.
- Está pronta? – Eu estava desesperada demais para tentar qualquer reconhecimento.
- Seja quem for, ainda não estou pronta. Vá embora. – Me retorci.
Ouvi passos firmes. Então uma sombra negra e encapuzada se aproximou e se abaixou. A mão gélida estava prestes a me tocar quando recuei.
- Eu não vou embora.
- Vá embora... Agora! – Eu disse num tom extremamente ácido.
Uma mão firme me levantou. Me manipulando como uma boneca de pano.
- Sou eu, Reneé. – Michaelo deixou o capuz cair levemente.
- Traidor. – Eu cuspi as palavras.
- Preste atenção. Eu tenho algumas coisas pra falar...
- Por que você fez isso comigo? – Eu disse incrédula.
- Era para uma causa maior. – Ele definitivamente não estava escolhendo as palavras.
- Maior do que... Eu? Maior do que a vida de muitas outras pessoas?
- Eu não pretendia...
- Mas fez. Hipócrita.
- Deixe me contar a história, está bem? – Ele me puxou para perto de seu rosto. – Você poderá me insultar o quanto quiser depois.
Bufei. Ele me ignorou.
- Era o ano de 1990, fazia pouco tempo que eu havia me juntado ao clã. Não sabia de nada. Vincenzo estava envolvido com isso a mais tempo do que eu pensava. Ele tinha um histórico muito irregular. É tudo o que sei sobre ele. Estava a ponto de ser condenado pelos Volturi... Então eu soube de você.
- E eu era o grande prêmio. – Debochei.
- Sim, você era. Até eu me apaixonar por você.
Arregalei os olhos.
- Foi naquela noite da festa, quando você disse que não tinha medo de mim, que eu percebi o quanto você era importante.
Então eu fui embora, para que nada de mal acontecesse a você. Mas infelizmente...
- Sinto muito, mas nós não estamos num conto de fadas e não há como me salvar agora. Minha única saída é me entregar ao clã e deixar que eles façam o que querem de mim. Todos estarão a salvo depois disso.
- Quem garante que eles não perseguiram a sua família? Blair sabe de tudo.
Considerei a afirmação.
- Não há outro jeito.
- Há outro jeito. – Ele me chacoalhou.
Arregalei os olhos.
- Diga que você quer ter direito à sua imortalidade. E que eu devo ser seu monitor. Que irei controlá-la quanto ao uso dos seus dons.
- Por que eu faria isso?
- Por que você me ama.
- Que insulto!
- Então diga que não me ama. – Ele apertou meu braço.
- Eu não... – Eu desviei o olhar.
- Diga olhando nos meus olhos.
- Eu... Não... Eu... Eu... – Comecei a gaguejar. – Eu te amo. – Desistir de lutar contra o meu subconsciente. – Mas eu não posso te amar.
Ele franziu a testa.
- O que há dessa vez? – Ele perguntou.
- Uma vez que sou uma Volturi... Nós somos parentes.
Ele riu.
- Qual a graça?
- Você é digamos, uma Volturi pura. Você é filha de um Volturi. Eu não. Sou apenas um criado cujo tempo de exercício do trabalho fora estendido para toda a eternidade. Não temos grau de parentesco nenhum. Caso ainda tenha dúvidas...
Ele puxou algo do bolso e colocou na minha mão. Era uma corrente de ouro puro e havia um sol no pingente. Esse pingente podia ser aberto. De um lado, havia uma foto. Michaelo, Vincenzo e um senhor eu uma senhora, que creio eu que sejam seu pai e sua mãe. Do outro, apenas um nome: Michaelo Vittore.
- Michaelo Vittore? – Eu sorri.
Ele balançou a cabeça, sorriu, me levantou e me abraçou forte.
- Io ti amo mia immortal. – Ele disse ao olhar nos meus olhos.
Abraçamos-nos outra vez.
Mais forte ainda.

Capítulo 29 – Decisão
Eu estava sozinha quando Jane abriu a porta.
- Pronta? – Ela perguntou autoritariamente.
- Pronta. – Eu tive a impressão de que não teria outra resposta para dar.
Ela me jogou um capuz negro e mandou que eu o vestisse e a seguisse. Logo, dois outros homens se juntaram a nós.
Andávamos pelo corredor. Jane parecia graciosamente confiante.
Enfim, chegamos a um grande salão.
Todos estavam lá, em um grande círculo.
Jane me pôs no meio deles.
Marcus, Caius e Aro me encaravam, assim como os demais Volturi.
- Então... ? – Aro se aproximou.
Naquele momento, me senti sobre a forte influência de alguma coisa que eu não sabia exatamente o que era.
Mais uma vez, aquelas visões, as quais eu nunca ousaria escolher para o meu destino, apareceram em minha mente como uma
forma de me intimidar. E fui intimidada por um instante. Uma mulher, que estava próxima a Vincenzo, se cabelo longo e cor de vinho, pareceu satisfeita com a minha reação de medo. Ela cruzou os braços e sorriu mostrando os dentes afiados.
Dei um passo em direção a Aro.
- Diga. – Aro incentivou.
- Eu quero ser como sou. Meio-imortal.
- Você sabe que há um preço a pagar por isso... Não sabe? – Valeria me encarou desesperada.
- Eu sei. Não vou ser livre.
- Está certa do que quer? – Marcus perguntou entediado. Como se ele estivesse prestes a ouvir o mesmo discurso que ele ouvia há anos. É... Talvez ele estivesse mesmo.
- Tem a permissão. Mas é uma pena que não tenha nos escolhido. Ainda sim, vamos esperar por você. – Aro comentou.
Agora foi a minha vez de bufar de tédio.
- E quem seria apto para ser o vigilante? – Caius foi objetivo.
- Eu. – Michaelo levantou a mão e deu um passo à frente.
- Você? – Vincenzo encarou incrédulo.
- Sim, caro irmão. Eu fui eficaz o suficiente para cumprir com a minha missão. Por que não darem uma nova missão para mim?
- Você se acha capaz? – Vincenzo cruzou os braços.
- Ao contrário de você... – Michaelo provocou.
A calmaria pairou por todos nós. Vincenzo relaxou e Michaelo voltou ao seu lugar.
Aro me encarou.
- Tem a permissão, Michaelo. Você fará um bom trabalho.
Ouvi murmúrios vindo dos Cullen e da minha família.
Aro virou-se para seu comitê, e depois para nós.
- Já podem ir embora, se quiserem, afinal, já é noite.
Já dentro do avião, Sentei ao lado de Valeria. Michaelo estava no corredor, a poucas cadeiras de diferença.
Ela alisou meu cabelo e me puxou para perto de si. Encostou sua cabeça na minha e sussurrou.
- Sabe que ele a seguirá por toda a eternidade, não sabe? – Era um fio de voz.
- Sei. – Não havia sentimento na minha fala.
- Não tem medo de que... ? – Ela terminou a frase como se a minha saga fosse terminar junto com ela.
- Ele me ama. – Garanti, embora minha voz estivesse falhando.
Valeria fitou Peter, embora este não tivesse prestando atenção em nós. Ela virou seus olhos na direção de Michaelo.
- Como você pode ter tanta certeza disso? – Ela virou a cara quando Michaelo percebeu que estava sendo observado.
- Simplesmente sei. – Suspirei quando vi Michaelo sorrir para mim.
Ela olhou sem reação.
- Tente dormir, está bem? Teve um dia cansativo.
Embora eu não estivesse cansada o suficiente para dormir, fechei meus olhos.
Escutei as conversas no avião, embora não fosse de bom tom, não havia nada a fazer, afinal, todos pensavam que eu estava dormindo.
- Alex, eu sabia que havia algo de especial em vocês, só não sabia o quanto... – Eu pude diferenciar a voz admirada de Blair.
- Se é assim que você prefere designar... – Alex parecia não dar importância.
- Eu vou mesmo ser como vocês? – Era impressão minha ou ela estava entusiasmada com isso?
- Sim. Já que não há outro jeito... – Alex suspirou.
- Mal posso esperar... – Ela comentou.
- Ei, princesinha, não vá com tanta sede ao pote, ou vai se cansar antes da hora. – Eu pude ouvir a voz brincalhona de
Emmett. Reprimi a vontade de rir.
- Não acredito que eu vá me cansar... – Pelo tom de sua voz, eu poderia jurar que ela estava fazendo sua famosa cara de raposa.
- Tomem cuidado com essa garota, rapazes. – A voz de Lucy era brincalhona. – Ela é extremamente teimosa.
Emmett gargalhou.
- Ei, Alice! Arrumamos uma nova amiga para você!
Até quem provavelmente não tinha nada a ver com a conversa começou a rir. Tentei não fazer o mesmo.

Capitulo 30 – Despedidas
- Vocês têm certeza de que querem fazer isso? – Havia alguma coisa na voz de Esme que me fazia pensar e ela já estava com saudades.
- É necessário. – Valeria disse enquanto abraçava a mais nova amiga.
- Avisem-nos se desejarem retornar. – Carlisle disse por educação.
- Nós voltaremos. – Peter garantiu.
- E não vamos demorar muito. Não terão tempo para sentirem saudades de nós. – Eu completei.
Afinal, qual a importância de alguns anos para quem tem toda a eternidade?
Fomos nos despedir dos filhos de Carlisle.
- Vou esperar por você, loirinha. – Emmett disse olhando pra mim, ele sabia que eu não gostava de ser chamada de loira quando na verdade o meu cabelo era dourado. – Quero ver se você consegue pegar mais ursos do que eu.
- Desafio aceito. – Eu disse ao apertar a mão de Emmett.
- Eu posso prever quem irá ganhar... – Alice disse com um sorriso no rosto.
- Sem previsões, Alice. Não quero que Emmett saiba de sua derrota. – Eu disse abrindo um sorriso.
Emmett trincou os dentes.
- Não demorem a voltar. – Rosalie disse enquanto abraçava a Lucy e então a mim. – Tenho dicas de moda para renovar o guarda-roupa de vocês.
- Na certa você terá mais quando retornarmos. – Blair completou. – Você sempre tem.
Rosalie abriu um sorriso. Eu poderia prever que elas seriam grandes amigas.
Michaelo pigarreou de leve ao entrar na sala.
- Eu não gostaria de interromper o momento... Mas já está tudo pronto. Nós podemos ir.
- Chegou a hora. – Valeria disse ao se aproximar da porta.
- É, agora nós temos que ir mesmo. – Alex disse enquanto puxava a mim, Blair e Lucy ao mesmo tempo.
Sorri para a família Cullen antes de passar pela porta. Eu não sabia exatamente como reagir. Nós sabíamos que voltaríamos, então era como se nós estivéssemos indo para casa para voltar no dia seguinte. Ou seja, não havia o porquê de tantas despedidas desnecessárias.
Todos demos um último adeus antes que Peter pisasse no acelerador e deixasse a casa dos Cullen desaparecer ao fundo, junto com a paisagem.
Agora estávamos voltando para a nossa velha casa, o Tibet.
Não era meu desejo sair de Forks. Nem da minha família. Era desejo de uma espécie.

Epílogo: Erupção
# Kimo Ikaika’s P.O.V #
Era um dia nublado no Havaí, contrariando as expectativas da estação. Nuvens negras cobriam o céu.
- Não parece que vai chover. – Manu disse aproximando os joelhos do corpo e neles apoiando a cabeça enquanto fitava o céu negro.
- Tem razão. – Eu concordei enquanto fitava o vai e vem das ondas.
Palani olhava a movimentação da praia mais por um condicionamento do que realmente uma obrigação. Ele era salva-vidas e estava em seu horário de descanso.
Alguma coisa chamou a atenção dele.
- Olhem. – Ele apontou para um casal que caminhava na beira da praia. – São aqueles estranhos. Passaram toda a estação trancafiados em casa.
- Eles são extremamente esquisitos. – Manu torceu o nariz – Devem ser turistas europeus. Vejam só como eles são pálidos! – Manu observou.
Todos ficamos em silêncio.
- Extremamente. – Falei depois de minutos de silêncio.
Eu os observava atentamente. Eles não pareciam estar incomodados. O homem era alto, de cabelo escuro e muito pálido. Tinha uma barba mal-feita e usava óculos escuros. A mulher era muito pálida, assim como ele, ambos pareciam feitos de cera, ela tinha o cabelo longo e liso, na cor-de-vinho.
- Ela é linda, não é? – Palani disse com o olhar queimando em admiração.
Tremi. Manu pareceu sentir, pois se levantou no mesmo instante.
Agora eu estava suando frio.
- O que houve, cara? – Manu colocou a mão em meu ombro. – Cara, você ta queimando! – Ele se afastou.
Outro tremor.
- É melhor ir para casa. Cara, você não ta nada bem. – Palani olhou assustado.
Deslizei da pedra e saí correndo pela areia até chegar em casa. Eu continuava tremendo.
- Já está em casa, querido? – A doce voz da minha avó me acolhia em casa.
- Sim. Não parece um tempo muito bom para ficar na praia. – Eu disse ao por os pés na cozinha.
- Parece que vai ter uma erupção hoje... – Ela disse ao olhar para a janela e fitar o vulcão ao longe, soprando flocos negros por todos os lados.
Outro tremor.
- Vovó, se precisar de mim, estarei no quarto.
- Tudo bem... – Ela virou-se de repente – Está tudo bem com você, querido? Parece um pouco pálido.
- Não é nada. – Sorri reprimindo um novo tremor e fui até o quarto arrastando os pés.
Cheguei ao meu quarto com um calor imenso percorrendo meu corpo. Tive um mau pressentimento, então tranquei a porta. Olhei para o espelho, examinando cada expressão minha, cada músculo, cada parte do corpo. Nos últimos meses, eu havia crescido muito. Parecia velho demais para os rapazes de minha idade. As meninas da escola sempre me confundiam com um daqueles garotos mais maduros... Não que eu não tirasse proveito disso algumas vezes.
Encostei minha não no espelho. Uma nova onda de calor chacoalhou todo o meu corpo.
Agora eu estava perdendo o meu controle. Não era a primeira vez que eu havia sentido isso, mas agora eu estava indo longe demais.
Desde que aquele estranho casal chegou à cidade no começo da estação, eu estive experimentando dessas mesmas sensações. Mas nunca de um jeito tão forte como agora.
Tombei o pescoço pra frente, encostando a cabeça no espelho e tentando relaxar os meus braços, que estavam apoiados no espelho. Mas foi inútil.
Um turbilhão de reações foi desencadeado em meu corpo, uma a uma, mudavam cada célula de mim, o tremor era cada vez mais forte e em intervalos menores.
Fechei minhas mãos em punho, como se tentasse impedir que algo tentasse sair de dentro de mim. Mas agora era tarde demais. Fechei os olhos.
E aquilo foi realmente uma erupção.



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